"Depois de sonhar, penso que já posso pensar em começar a pensar que penso.
Era um colégio interno, o ano se eu não me engano era 1888. É sério, não precisa fingir que acredita se não acreditar, mas seria mais legal se percebesse que é verdade. Eu não me lembro bem que dia era, primeiro porque eu sempre vivo dois dias de uma vez, um dormindo e um acordado; segundo porque naquele lugar os dias pareciam todos iguais. Falando nisso, tenho de lembrar que o lugar não era só um colégio interno, era um orfanato também, e uma igreja, e os professores eram padres que tinha palmatórias.
Foi por isso que eu aprendi a sorrir quando sentia dor. E a parecer que nada me importa realmente, pois se soubessem o que me importava, eles iriam tirar de mim. Como as tintas e as telas. Ou mesmo, minha querida flauta.
Era um colégio interno, o ano se eu não me engano era 1888. É sério, não precisa fingir que acredita se não acreditar, mas seria mais legal se percebesse que é verdade. Eu não me lembro bem que dia era, primeiro porque eu sempre vivo dois dias de uma vez, um dormindo e um acordado; segundo porque naquele lugar os dias pareciam todos iguais. Falando nisso, tenho de lembrar que o lugar não era só um colégio interno, era um orfanato também, e uma igreja, e os professores eram padres que tinha palmatórias.
Foi por isso que eu aprendi a sorrir quando sentia dor. E a parecer que nada me importa realmente, pois se soubessem o que me importava, eles iriam tirar de mim. Como as tintas e as telas. Ou mesmo, minha querida flauta.
Acho que comecei a ficar confuso agora, vamos tentar voltar ao ponto que fazia sentido. Lá no colégio-convento-orfanato-igreja onde cresci, no ano de 1888 eu morri na sala de despejo. Não era bem uma sala de despejo porque tinha coisas úteis lá também, uma espécie de despensa com entulho junto. Não vamos desmerecer o lugar, morri porque o alçapão que levava ao porão do mal (o porão não pertencia realmente ao mal, mas gosto de chamá-lo assim, gosto de chamar as coisas com nomes que dão mais sentido ao que deveriam ser) sorriu para mim e quase disse “oi”. Quando entrei no alçapão eu já nem lembrava mais que era órfão, que meus amigos tinham ido embora do convento, que o Bruce “Habbit” realmente parecia um coelho. Eu entrei sem o professor de filosofia me ver, que estava lá, quase me esqueço de dizer que eu o segui até o porão do mal, hoje em dia eu ainda acho que todas as pessoas que sabem muito de filosofia são meio estranhas, talvez eu devesse estudar isso também.
Lá vou eu me perdendo de novo... Eu queria dizer que morri no porão do mal do convento-orfanato no ano de 1888 sob o olhar assustado do meu professor de filosofia. Não foi ele quem me matou, comparando com a forma que eu era tratado pelos outros padres eu poderia dizer até que ele gostava de mim. Gostava sim, nessa margem de comparação ele seria o adulto que mais gostava de mim. Deve se por isso que eu não queira me tornar um deles, adultos tem muita dificuldade para entender as coisas, não percebem mais que as coisas, como o alçapão por exemplo, as vezes falam com a gente. Aquele cara pálido de cabelo desgrenhado e olhar distante disse que não eram as coisas que falavam comigo, era Caim e Abel, pode ser verdade, pois ele disse que chamaria a atenção deles e depois disso as coisas não falam mais comigo. Acho que eu gostaria que as coisas falassem comigo de novo, desde que não olhassem para mim e gritassem “miolos!” como aquela coisa fez.
Voltando a morte, tinha uma coisa lá que me matou. Com as mãos, literalmente, ele arrancou meu coração também e apertou ele até virar mingau. Mingau sempre teve um gosto ruim, mas depois de ver aquilo a chance de eu comer mingau é bem menor do que já era antes. A sim, a coisa tinha mãos, e tinha todas as outras coisas que as pessoas tem. O que não quer dizer que era uma pessoa, pois eu estou te dizendo que era uma coisa. Os adultos levam dias para entender isso, e as vezes não entendem nem se a coisa estiver na frente deles e puderem ver que é só uma coisa. A coisa disse que tinha nome próprio, acho que ele não sabe que é uma coisa, esse nome é Siliam. Mas o cara pálido que eu falei antes disse que ele era o ‘talentoso’, talentoso é um nome de coisa se nós quisermos, fica bem mais fácil dizer que eu vi dois talentosos do que dizer que eu vi dois Silians. Vê!? Isso é um sinal de que ele é uma coisa.
Onde já estamos? Eu morri no colégio-orfanato em 1888 no porão do mal pelas mãos da coisa. Acho que resumidamente isso fala tudo sobre meu passado palpável, quero dizer, sobre as coisas que acontecem nos meus dias enquanto estou acordado. Deveria dizer também que eu tocava piano para os padres durante o almoço e que isso fazia meu tempo para comer parecer uma corrida para tirar o pai da forca (expressão engraçada, eu nunca tive pai) e também sobre aquela menina loira anti-social que sentava lá na frente e ficou vermelha quando eu falei com ela, não lembro o nome dela mas lembro que ela tinha bons sentimentos para comigo. Os melhores que já vi até hoje, então não só são bons, como são os melhores que existem no meu mundo. Poderia dizer isso e muito mais, mas são detalhes, e mesmo as pessoas pensando que o diabo mora nos detalhes eu discordo, o diabo mora em um bar em Los Angeles , ele me deu o cartão com fósforos.
Para explicar melhor, eu morri em Londres, já que não sei dizer se foi lá que nasci. Espere um pouco, deixa eu pedir mais um copo de coca-cola. Pronto. Nesse tempo não tinha coca-cola, se tivesse tenho certeza que a comida seria mais fácil de ser empurrada em tempo milagroso. Ei! Vamos combinar, tudo bem? Concordo que não precisa fingir acreditar se não acreditar, mas pelo menos não precisa rir de mim.
Foi em Londres que eu acordei da morte também, mas estava em uma rua do centro. Eu não sou um fantasma, pode ter certeza, os fantasmas são bem menos simpáticos que eu, vivem em volta de um conhecido meu, ele também morreu em 1888, mas não é tão alegre como eu, ele é até bem ranzinza. Esses fantasmas disseram que os mortos vão voltar a andar na terra e mostraram a mão com um numero quatro. Isso pode dizer tanta coisa que me dá nós no cérebro. Não são confortáveis... Mas deixemos os fantasmas de fora por um momento, eu não sou um deles, meu conhecido não é um deles e apesar de pretendermos impedi-los de fazer o que querem não são o alvo de tudo isso que nós falamos.
Eu estou aqui atrás de um sonho...".
Eu estou aqui atrás de um sonho...".
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[Ao som de: “Ciúme”, Ultraje a Rigor.]
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