Domingo, 16 de Julho de 2006, 12h12mim – Toledo – Espanha.
Alfred Ausbury e Fillip Cliff, o porão de um prédio antigo e abandonado nos arredores do centro da cidade.
Alfred Ausbury e Fillip Cliff, o porão de um prédio antigo e abandonado nos arredores do centro da cidade.
“Eu estava usando sapatos pretos caríssimos e muito bem lustrados, um terno risca de giz impecavelmente bem costurado por uma grife que nem lembrava mais o nome por cima de uma camisa de algodão tão puro que poderia passar por um teste de carbono quatorze. A luz do sol batia em cheio no meu rosto e, com isso, dava a sensação que a sujeira do vidro não era o suficiente para impedir minha presença de reluzir. Era assim, a última vez que provei a liberdade”.
“De repente, me deu vontade de desistir. Desligar meus pensamentos e simplesmente esperar que meu organismo não conseguisse mais manter-me vivo. O que é que estava pensando? Por que estava me metendo nessa conspiração, se sempre imaginei qual seria o resultado? Archa estava lá quando percebi tudo aquilo, olhando diretamente para os meus olhos. Sentia seu olhar no meu corpo como se sente o calor do sol ardente. Eu simplesmente não poderia recusar o clamor daqueles olhos, era impossível mesmo para alguém como eu...”.
Pensava o abandonado presidente de uma importantíssima multinacional.
— Não sei se ainda me sinto parte de algo tão grandioso, talvez eu não seja mais um deus. — Disse Alfred.
As Roldanas do inferno particular do Dr. Ausbury deslizaram causando aquela gastura odiosa em seus tímpanos. O acumulo de sentimentos negativos já não era real, encontrava-se apático. Morno como águas paradas sob o sol de verão. Ele pensava muito no sol no meio daquela escuridão.
— Está um dia lindo lá fora, chefe. — Disse uma confortante voz familiar.
Alfred não olhou diretamente para a porta por saber o que isso faria com seus olhos. Tentou perceber melhor aquela presença e entender o que estava acontecendo. Com essa luz ele sabia que já podia-se notar o valor de suas roupas ou dar valor a seus sorrisos ensaiados.
— Não sei, não. Talvez seja melhor eu ficar escondido aqui com essas roupas sujas. — Ele não sabia de onde veio a idéia de uma piada, provavelmente da extrema satisfação de sentir-se salvo finalmente.
Então, o estranho deu um passo em direção a ele e, baixinho, disse uma coisa que deixou Alfred um pouco assustado.
— Não se esqueça, Sr. Ausbury. Não tem conspiração nenhuma; só uma busca heróica pela verdade.
Alfred teve coragem de virar meio rosto manchado de sangue na direção da luz para vislumbrar a silhueta de seu camarada.
— Como pode ter certeza disso, Sr. Cliff? — O bom tom começou a ressurgir nos lábios do filho de Hórus.
— Já menti para você, Sr. Ausbury? — Era visível o respeito nos olhos do rapaz.
De repente, Alfred resolveu evocar novamente seus dons.
— Não sei. — Respondeu. — Já?
O rapaz segurou a corrente de forma a estica-la o máximo possível, então posicionou sua magnum pesada a poucos centímetros da corrente e, ‘Bang!’. Alfred estava livre.
— Morreria mil vezes antes de fazê-lo! — Exclamou ele com ar indignado.
— De verdade? Você faria isso?
E Alfred já podia ver o olhar desconsertado que o rapaz lançou-lhe.
— Faria o quê?
— Morrer, se eu mandasse. — Respondeu. Sabia que estava sendo cruel, como naquelas vezes em que debochava das pessoas desconhecidas quando ‘sugeria’ que fizessem coisas completamente absurdas. Mas havia algo de fascinante, embora de um jeito doentio, em experimentar novamente os poderes de deus. Era um pouco como brincar com os privilégios de ser o presidente com poder de demissão. Só que agora o mundo todo era a mais baixa classe hierárquica de uma empresa e ele o dono absoluto de todas as ações.
Filipp Cliff ficou encarando o chefe por um bom momento. Estavam sozinhos ali, dois profissionais exemplares no mundo dos negócios em um porão escuro no prédio que raramente ouvia o idioma deles, e, de repente se olharam, olharam de verdade, sob a certeza do poder de um deus. Foi então que aconteceu de novo: o rosto de Fillip mudou. Provavelmente não tenha realmente mudado, não com aquela pouca luz, mas Alfred teve a sensação de estar olhando dois rostos: um deles já conhecia muito bem, aquele que foi um dos pensamentos mais freqüentes enquanto esperava no escuro por uma intervenção supernatural; o outro, o segundo rosto, era o que estava escondido logo abaixo da superfície. Exatamente como o médico no aeroporto de Nova York, Alfred vagou rapidamente pelas lembranças de quando tinha visto aquilo acontecer antes e como aquilo ainda o deixava um pouco atordoado. Esse tipo de rosto só pode ser visto por uma fração de segundos, mas isso era o bastante para deixar qualquer um capaz de ver com a perturbadora sensação de que talvez já o tivesse visto em algum lugar. Alfred se lembrou de ter conversado com o diabo enquanto dormia. Então, Fillip piscou e voltou a ser ele mesmo. Simplesmente o braço direito do Sr. Ausbury.
Caminharam pelos corredores do prédio em busca da saída definitiva.
— Se você mandasse, faria, sim. — Disse ele afinal, olhando bem para o rosto do chefe. O qual baixou os olhos até então poderosos. Foi quando descobriu como é difícil olhar diretamente nos olhos das pessoas como Fillip, essas pessoas que dizem sinceramente o que pensam. — Mas fico imaginando... — Acrescentou Cliff. — Será que algum dia o senhor me mandaria fazer uma coisa desses, Lord Alfred?
“Acho que entendo o chinês miserável. Alguém com poderes tão ‘sutis’ e com o estranho interesse em expandir a maldade provavelmente sentiria-se tentado a corromper de alguma forma aquele que lhe pareceu heróico. Eu o procurei dentro do comportamento padrão da odisséia do herói, parti de meu lugar em busca de algo passando por diversos pontos e conhecendo diversas pessoas para alcançar o ápice diante do vilão e encontrar a recompensa no final. É sempre assim que os heróis se comportam, e a privação tende a ser o maior desafio dos mesmos. Ele tentou mudar o meu caminho, e a única forma de fazer com que alguém que tem tudo, deseje algo diferente daquilo que planejava é tirando tudo dele. Felizmente tenho coisas em mim que jamais serão removidas. Virtudes! É o que eu gostaria de dizer a ele. Talvez ele nunca tenha visto um exemplo como Cliff, alguém incorruptível”.
E, com aquelas palavras e aqueles pensamentos Alfred se viu em um pequeno teste, sobre essas mesmas virtudes que observava serem extremamente ausentes em seu ofensor amarelo. Se ele aproveitaria para provocar seu salvador, desafiando sua lealdade, acabaria por sofrer o mesmo, pondo à prova sua tão enaltecida integridade. Alfred chegou a pensar em como tudo aquilo lhe parecia curiosamente longe e ao mesmo tempo tão próximo ao conceito do divino, o que exatamente seria verdade sobre tudo isso, a busca pela revelação tornou-se assustadoramente necessária.
Alfred adoraria não ter começado aquela conversa. Sorriu de forma forçada, pensou que deveria simplesmente ter ficado quieto e partir para o hospital em busca de um merecido reabastecimento.
— Não seja ridículo, Fillip. Você sabe muito bem que eu jamais faria isso!
Fillip também sorriu. Mas neste caso não parecia nada forçado.
— Eu sei. — Disse, como que usando uma chave de ouro.
“E esse é o problema das pessoas que são sinceras: acham que todos os outros também são”.
Pensou Alfred sem coragem de voltar a olhar para seu companheiro.
— Lá está ele. — Exclamou Fillip apontando para o céu.
Alfred arriscou dois passos sozinho e levantou o rosto para sentir o sol. Olhou da melhor forma possível para perceber a luz do astro que parecia olhar de volta na direção dele. Ouviu o barulho dos carros, pessoas falando ao longe, um monte de outros barulhos que pareciam se aproximar, quando foi interrompido pela surpresa do som de dois tiros vindos do telhado do prédio de onde saiu. Tudo era mais agradável que o som daquelas roldanas. Os pombos voaram dos parapeitos dos prédios em todas as direções, quase ofuscando o sol, mas estavam perdendo tempo, pois nada poderia privar o mundo daquela presença. Alfred ficou parado de braços abertos e sorrindo bem ali, à espera do céu. E que os deuses, se é que existem nos pensamentos dele, o cegassem se não for verdade que o sol acariciou a face dele com seus feixes entre as sombras angelicais dos pombos.
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Domingo, 16 de Julho de 2006, 12h31mim – Toledo – Espanha.
Dana Colins e Herom Chuam, o telhado de um prédio antigo e abandonado nos arredores do centro da cidade.
No alto do prédio Dana Colins acabava de fechar o zíper de sua bota longa, negra e brilhante que torneava sua panturrilha de forma sensual. Os cachos dourados caiam sobre seus olhos quando lançava seu olhar punitivo para o acuado chinês próximo ao parapeito diante da rua.
— Então você nunca imaginou que a força dos desejos de Alfred pudessem atingir seus alvos a distância, e mesmo que não pronunciasse uma única palavra? — Ela retirou a perna de sobre o exaustor e deu dois passos em direção ao ofensor, o som produzido pelo contato de cada salto com o chão pareceram incomodar muito o ouvinte. Quando parou e levou a mão à cintura, sua sensualidade exacerbada tornou-se obvia, exceto pelo contraste da arma prateada que segurava de forma casual. — A potência dos poderes dele se dá pela complexidade das ordens ou a gravidade do envolvimento do ordenado. Um dia ele vai poder simplesmente mandar as pessoas morrerem por ele.
Herom assustou-se com o porte daquela mulher. Tentara diversos recursos místicos para enfrenta-la, lançara muitos feitiços sutis e até mesmo já usara da aura em si, pura, como um ataque direto aos ossos da mulher. Mas nada acontecia, ele continuava impassível como se nada tivesse ocorrido. Como se seus dons fosse apenas imaginários. E tudo isso era muito assustador.
— Que tipo de Demônio é você, ‘muler’? — Ele quase gaguejou.
— O que foi, diabolista? De repente surpreende-se com a idéia de não poder me afetar com nenhum dos seus recursos negros? Assustado por eu ser alguém quem você jamais poderia tocar a alma? — Ela deu mais um passo causando novamente o barulho que estremecia Herom. — Mas deixe-me aclarar suas idéias, querido, não sou imune a você, é você quem não pode usufruir de suas habilidades em minha presença ou sobre mim. O que quer dizer que o feitiço de Alfred também foi quebrado, e sabe, talvez ele consiga se concentrar o suficiente para experimentar pela primeira vez a idéia de mandar alguém morrer por ele.
Ela olhou para além dele, insinuando com a face a queda até a rua. O sorriso se formou divertidamente em seu semblante, ela deu mais um passo.
— Mas se você é “emune” aos “podeles” dele, por que está aqui agora? — As pernas dele tremiam.
— Eu não obedeço as ordens dele, realmente. Mas poderia realizar um pedido. — Ela apontou a arma para o rosto do chinês. — Além de que, não existe pedido para lhe matar, e me sinto redundante em dizer isso de novo, é você quem tem de morrer.
Ela disparou a arma duas vezes em velocidade automática. Sua mira era precisa. Ela se aproximou do corpo enquanto ele caia, abaixou-se perto do cadáver e sussurrou ao que restava de seu ouvido.
— Essa é a vantagem de treinar tiro em alvos espiralados. Os corvos sempre se atraem por coisas brilhantes e atacam primeiro os olhos.
Enquanto as aves voavam desordenadamente assustadas pelos barulhos, uma nova ave feita de luz fantasmagórica e olhos negros semelhantes a espirais decrescentes abandonou o corpo ainda quente e desapareceu ao se misturar com os raios da luz do sol.
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Domingo, 16 de Julho de 2006, 12h49mim – Paris – França.
Archa Borlins, uma suíte luxuosa em um dos hotéis mais caros da cidade.
Archa Borlins desligou o celular. Seus detetives particulares informaram que a garota da foto, Dana Colins, fora encontrada exatamente no prédio onde ela dissera que seria. Archa sentiu-se feliz por finalmente poder trazer para si sua filha de volta, mesmo com a culpa de ter usado Alfred como isca.
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