19 de junho de 2007

Teoria da corrupção 2ª parte – (Um conto para crônica Imperia).

Quinta-Feira, 13 de Julho de 2006, 11h30mim – Toledo – Espanha.
Alfred Ausbury, o porão de um prédio antigo e abandonado nos arredores do centro da cidade.

“Eu sou um deus que não pode vencer uma corrente.”
Alfred puxou novamente a corrente que prendia seu punho esquerdo ao encanamento enferrujado do prédio, ele mesmo teria optado por um encanamento tão forte se estivesse ligado a construção do prédio, mas já cogitava a idéia de rever tais conceitos. A privação de comida, água e luz tornam o pensamento confuso, até os pensamentos de alguém centrado como ele.
“Engenharia genética, super soldado, instrumentabilidade humana, benção divina, parapsiquismo, salto evolucionário natural... pouco importa. Ainda sou mais fraco que a corrente.”
Felizmente os pensamentos sobre esmagar a própria mão já haviam ido embora, beber a própria urina também. Até seus questionamentos sobre a possibilidade de Archa sair de seu conforto e seguir a música até ele já não entretinham suas idéias. Já estudara todos os projetos navais que produzira na vida, todas as jogadas econômicas e todas os joguetes sociais, repensara todas as nuances de suas habilidades, todas suas descobertas, credos teistas e princípios morais. Nada o ajudara a vencer as correntes.
Ele, apesar do que qualquer pessoa que o conhecera poderia supor, já estava achando a idéia de simplesmente morrer bem mais interessante do que aquilo que era obrigado a viver. Sua racionalidade mostrou-lhe apenas uma dedução, se ainda estava vivo era porque o Chinês filho da mãe pretendia atrair Archa, mas sabia também que ela saberia disso. Até quando ele seria realmente importante para ela? Sem sombra de duvidas racionais, esse era o pior dos pensamentos.
“Todas minhas palavras são ordens. Meus pensamentos são desejos que todos querem realizar, ninguém resiste a mim! Minha presença é como a de um deus! Eu represento o céu e nada está sobre mim! Posso destruir o mundo na terceira guerra mundial com um sorriso e essa maldita corrente é mais forte do que eu!”
Ele mordeu a própria mão com toda a força, sem objetivo claro com essa ação. A dor demorou muito para fazê-lo perceber o que fazia, demorou tempo suficiente para sentir o gosto do próprio sangue, e o mesmo parecer-lhe extremamente refrescante.
“O que acontece quando algo bom fica mil anos no inferno? Ele torna-se mal. Mas dualidade humana está abaixo do divino, os homens são duais, as divindades são unas! Eu sou a representação máxima de que pecado e virtude dependem apenas de uma frase. Alguém me ajude! Alguém me ajude! Alguém me ajude e chute a bunda pálida daquele chinês cretino!”
Quase que como se seus pensamentos fossem atendidos, e se fosse o caso Alfred não ficaria surpreso, a porta de correr deslizou com aquele barulho insuportável e ofensivo que devolveram a ele alguma noção de espaço, a luz que parecia ser do dia, machucaram seus olhos, mas ainda sim era bem melhor que a escuridão.
— Quem está ai?
A voz custou-lhe a dor na garganta seca. O vulto não tomava forma por mais que apertasse os olhos.
— Seu ‘melor’ amigo nesse mundo, reizinho.
O timbre daquela voz era bem pior que o ranger da porta. Alfred pensara em Archa novamente, em como ela se sentiria ao ouvir determinados sons, ele questionara uma vez qual seria o som do ódio, mas agora o latejar de seus ouvidos lhe instruíram muito bem.
— DESTRANQUE ESSAS CORRENTES E PERMANEÇA IMOVEL APÓS ISSO! NÃO TENTE NADA, NÃO FAÇA NADA ALÉM DISSO!
Atingir o tom certo dificultara as coisas, mas fora movido por um desejo bem maior que a simples vingança, não seriam necessários mil anos no inferno, apenas cinco dias na escuridão.
O Chinês aproximou-se e destrancou as correntes, quando caíram no chão já não pareciam tão poderosas assim. Alfred impulsionou o corpo para desferir um soco na face do miserável, mas suas forças não foram suficientes. Cai ao chão como um velho doente.
— ‘Flaco’. Exatamente como eu esperava que fosse.
Depois da frase foi um barulho agudo de pancada. Rapidamente Alfred imaginou a imagem de alguém entrando e agredindo o filho da mãe, mas a sensação de liquido quente escorrendo-lhe pela nuca mostraram que realmente estava fraco demais para fazer sua vontade superar as dos outros. O mundo começou a escurecer novamente, e as únicas palavras que ocupariam sua mente durante toda a inconsciência seriam:
— ‘po-que’ não chama o diabo? É tão bom em ‘negoços’.

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