30 de julho de 2007

UM POUCO MAIS DE ETERNIDADE

(Robert Rodi)


O quarto estava silencioso e bastante escuro quando Wanda pôs a cabeça porta adentro e chamou suavemente: "Toc, toc".
Alguma coisa deslizou contra a parede. Ela só pôde vislumbrar uma silhueta à medida que esta passou em frente à janela turva.
"Um segundo", disse uma voz - a voz de Ray. No tempo de uma batida do coração, o zumbido de uma fraca luz branca se espalhou pelo quarto e Wanda avistou Ray mexendo no interruptor pendurado ao lado da cama de Darren.
"Assim é melhor", disse ele, e deu a volta na cama para cumprimentá-la com um beijo.
Ela salpicou um beijinho em seus lábios e depois largou a enorme bolsa importada atrás da porta e o acompanhou para dentro do quarto. "Como ele está?", sussurrou, enquanto dava uma olhada em Darren.
"Uns
curativos estão ruins", disse Ray, deslizando os dedos pela massa suja de cabelos louros. "Só fiquei sentado, segurando sua mão. Por horas. Não reparei que o sol tinha se posto." Ele se acomodou novamente na poltrona nojenta que um dia fora bege. "Na verdade, achei que ele já teria partido a essa altura. Mesmo ontem. Nós tiramos tudo menos a morfina. Ele está vivo por pura teimosia." Ele sorriu, não de todo convincente.
Wanda fez menção de se sentar numa ponta da cama, depois pensou melhor e continuou de pé. "Ele parece... estar em paz", disse ela. Quase dissera "bem", mas isso seria uma mentira grosseira. Os braços e pernas de Darren pareciam galhos ressecados e cinzentos. Sua boca pendia aberta como um trinco quebrado. As órbitas de seus olhos eram fundas como caçapas de bilhar. A investida violenta de uma doença depois de outra tinha levado partes dele até que só restara aquilo.
Wanda afastou o cabelo do rosto e se inclinou para beijá-lo na testa. Quando ela fez isso, ele emitiu um suspiro fraco e remoto.
"Não doeu, não é?", perguntou ela, empertigando-se; rapidamente,
Ray balançou a cabeça. "Claro que não."
Severa, ela deu uma boa olhada em Ray. Ele mesmo não parecia muito bem. Olhos lacrimejantes e vermelhos por causa das poucas horas de sono. As faces encovadas de preocupação. Um resto de comida encrustada no canto da boca. Um cheiro de leite azedo no corpo.
Era evidente que Wanda tinha chegado na hora certa. Ela foi até ele e massageou seus ombros. "Quando você comeu pela última vez?", perguntou maternalmente.
Ele se movia de um lado para outro com os carinhos dela, como se fosse feito de pano. "Não sei", disse ele. "Que horas são agora?"
"Quase onze." Ela apertou seu pescoço afetuosamente. "Vai, então. O Commissary está fechado, claro, mas tem uma lanchonete que vende panquecas a dois quarteirões daqui. Fica aberta a noite inteira. Eu recomendo muito a torta de pêssego. Saborosa, e quase atóxica."
"Estou sem fome", disse ele, esfregando os olhos.
Ela o levantou pelas axilas e o colocou de pé. Era mais alta e mais forte que ele, tanto que nem precisou se esforçar. "Não me interessa se você uno tem fome", disse ela, ao mesmo tempo com desdém e severidade. "Eu tenho o direito de me sentir necessária e útil também, e não vou deixar que você me negue isso, não permitindo que eu olhe Darren enquanto você engole alguma gororoba."
Ele sorriu e esfregou as axilas doloridas. "Ai. Você é megera."
"Desculpe se eu machuquei você. É melhor ir antes que eu faça isso de novo." Ela se acomodou na poltrona enquanto Ray vestia sua jaqueta de couro preta. "Devo ler para ele, ou o quê?"
"Você é que sabe." Ele ajeitou o colarinho. "Duvido que ele escute uma palavra."
Ela discordou. "Não acredito. Tenho de acreditar que ele entende o que estamos dizendo. Em algum nível."
Ele suspirou. "Espero que esteja certa."
Ela teve uma idéia. "Vou contar uma história! Todo o mundo gosta de uma boa história."
"Você conhece alguma?"
"Com meu passado sórdido? Dezenas. Até centenas."
Ele levantou o polegar. "Você é um grande cara, Wanda."
"Garota, por favor", respondeu, ácida. "Estou em terapia pré-operatória, como você sabe. E mesmo que não estivesse!"
Ele ergueu as mãos. "Caralho, minha culpa!" Depois jogou um beijo para ela e se arrastou para fora.
Darren soltou outro suspiro - dessa vez, bem mais vivo que o último. Wanda pôs a mão sobre a dele (tão quente!) e arruinou: "Oh, querido, já está sentindo falta dele? Ele volta num instante. Enquanto isso, que tal eu contar uma boa história?"
Ela esperou uma resposta, depois imaginou ter visto um brilho em seus olhos, e continuou. "Eu tenho uma boa. Uma história boa, sexy e escanda¬losa que tem a clara vantagem de ser verdadeira. Como vou chamá-la? Que tal... hum... 'Wanda e o Suposto Aventureiro'." Fez uma pausa, esperando uma reação, sem sucesso. "Bem, tenho certeza de que você está animado, lá no fundo. Vamos lá." Cruzou as pernas e pôs as mãos sobre o colo. "Tudo começou há cerca de dois anos. Naquela ratoeira velha que eu tinha na avenida A. Lembra?"
Sem resposta. Darren olhava fixamente para o teto, uma névoa cobria seus olhos.
"Varreu isso da memória, né? Queria fazer o mesmo. De qualquer forma, esses dois se mudaram para lá perto do Dia das Bruxas. Eu me lembro da data porque havia uma abóbora amassada na soleira da porta, todos os carregadores tinham de desviar - uma verdadeira provação coreografada, sabe? Enquanto carregavam cômodas e outros troços. Fiquei pensando, por que eles não gastaram dois minutos para tirá-la do caminho? Seja como for. Distrações.
"A mulher - bom, ela é do tipo dramático. Sabe? Atriz frustrada. Uma ova - provavelmente uma professora de interpretação frustrada. Cafetões com grandes estampas. Pavões. Lírios-d'água. Usando um monte de maquilagem. O cabelo tão puxado para trás que os lábios rachavam. Ela me vê no corredor e joga as mãos para cima. Primeiro, eu pensei que ela ia me bater." Parou, fez uma careta. "Bem, com meu histórico, é culpa minha?"
Ela descruzou e cruzou as pernas e continuou. "Então, de qualquer forma, ela corre em minha direção e segura meu braço com as duas mãos, entra muito, muito mesmo, em meu espaço pessoal, e diz: 'Sou sua vizinha, condessa Protopsilka, mas me chame de Deirdre'. Porque, veja bem, o conde tinha morrido havia muito tempo, e além disso ele tinha perdido o título quando a Grécia deixou de ser uma monarquia, depois da guerra. E quanto mais ela proclama que deixou de ser condessa, mais eu percebo que é melhor chamá-la assim ou ela vai me odiar. Então ela me diz que está se mudando para a cidade com seu novo marido, que tinha uma fábrica de suco de laranja em Júpiter, Flórida, até o irmão dele comprá-la e arruiná-lo.
"E foi aí que eu vi o cara baixinho atrás dela, batendo-se com quatro malas, uma em cada mão, outra embaixo de cada braço. Um homem baixo e elegante com um bigode da grossura de um lápis e lábios vermelhos como rubi. Lábios que eu daria tudo para ter. Eu sorri pra ele, que piscou de volta. E você sabe — sendo o tipo de garota que eu sou —, eu aceito isso de qualquer um. São dádivas, Darren."
Ela fez uma pausa, como se esperasse um sorriso. Sua respiração superficial, rápida e leve foi tudo que obteve. Ela encolheu os ombros, como se tivessem de fazer isso.
"Aí a condessa vira e diz: 'Rápido, Cary'. E eu realmente não posso continuar a descer com a velha condessa e Cary, o burro de carga, subindo a escada. Então eu volto, subo dois lances de escada e entro no apartamento deles, que fica em cima do meu e de um outro. Imundo. Uma família de nove pessoas tinha morado ali. Pelo menos, acho que eles eram uma família. Seja como for, a condessa se diz encantada com o lugar e me convida para um chá. Eu digo que não posso porque tenho um compromisso, para não dizer que provavelmente ela não tem nada desempacotado onde possa servir o chá, e ela dá uma risada maluca e me beija.
"Bom, é aí que eu fico com a impressão de que ela já tinha vivido dias melhores, talvez há pouco tempo, e talvez a mudança brusca tenha deixado ela meio maluca. Desesperadamente amigável, você conhece o tipo. Quero dizer — tudo bem, não estou dizendo que não sou convincente ou algo assim. Como eu, quero dizer. O cabelo é meu mesmo. Fiz eletrólise. Mas essa condessa fica cara a cara comigo e, sabe, qual é? Ela nem ao menos me olha direito. Em vez disso, ela diz que sou uma garota bonita e, é claro, todas as garotas bonitas estão sempre correndo para algum encontro romântico ou outra coisa, mas que eu tenho de prometer voltar em breve e tomar um chá com ela e Cary. Eu digo que sim, claro.
"Aí eu viro e sorrio educadamente para Cary, que me olha como se fosse me violentar ali mesmo se a condessa não estivesse por lá para manter as mãos dele impecavelmente cuidadas. Eu engulo minha descrença diante daquela cena de comércio sujo e dou o fora.
"Eu nem lembro aonde fui. Mas naquela noite, ao chegar em casa, estou subindo a escada, certo? E esbarro justamente com o Cary. Ele me joga aquele olhar lascivo de cinema mudo e pergunta por que estou desacompanhada. Eu uso o melhor do meu repertório de Lewis Carroll e digo: 'Porque não tenho companhia'. Ele ri, ri, ri. Depois insiste em subir as escadas comigo e quando chegamos na porta do meu apartamento, Darren, juro por Deus, tenho de brigar para mandar o cretino embora. Ele põe o ombro na porta e empurra, dizendo que me entende, que quer me 'confortar'. Digo que é melhor ele ir embora, que tenho candidíase, e isso o confunde por tempo suficiente para eu lhe dar um grande empurrão e bater a porta na cara dele.
"Na manhã seguinte, alguém bate e eu penso, Deus, e começo a caçar meu spray de pimenta, mas enquanto procuro ouço alguém cantarolar meu nome de modo que ele parece ter umas sete sílabas, e penso: 'Deve ser a eondessa'. Abro a porta e lá está ela com um turbante e um grande avental onde está escrito BEIJE-ME, EU sou GALESA. Ela carrega uma bandeja de bolinhos, porque sente muito não ter podido me oferecer chá no dia anterior. Aquilo era para compensar, e nós vamos ser grandes amigas.
"Bom, quer saber? Primeiro, os bolinhos são maravilhosos. De framboesa ou coisa parecida. Pequenas bolotas com gosto forte. Além disso, a velha Deirdre tem um certo tipo de grandiosidade - quero dizer, alguma coisa romântica e indomável. Nem uma drag queen conseguiria resistir a aquilo. Simplesmente olhei para o seu rosto e meio que me apaixonei. Então digo, sim, nós vamos ser grandes amigas. E ela começa a me contar do tempo em que ela e a princesa Grace tiveram de dividir um banheiro na mansão de um comerciante de armas em Rangoon, e eu vou embora, de jeito nenhum converso com alguém que viu a princesa Grace fazer suas necessidades, coisa que até agora eu tinha quase certeza que ela nunca fazia. Aí o Cary entra."
Nesse momento, Wanda foi interrompida por uma batida na porta. Ela se virou e viu uma enfermeira jovem, desdentada e dedicada entrando no quarto. "Só vim verificar a dose de morfina", disse ela, no tom sussurrante das enfermeiras.
Wanda se levantou e moveu a cadeira a fim de abrir caminho para a enfermeira chegar ao monitor, que zumbe e parece cheio de tentáculos. Ela deu uma olhada nele e depois disse: "Como está o nosso menino de ouro nesta noite?"
Wanda olhou para ele. Ele se mexia com impaciência naquele momento, gemendo baixo. "Um pouco inquieto."
A enfermeira apertou um botão que mandou o indicador luminoso para a estratosfera dos números. "Bem, isso deve deixar as coisas mais fáceis pra ele." Ela fez uma anotação breve numa prancheta e disse, sem levantar os olhos: "Deixando ele entretido, não é?"
"A idéia é essa."
Ela levantou os olhos, pôs a tampa prateada na caneta e sorriu. "Duvido que ele possa ouvir você. Mesmo assim, vale tentar."
"Eu consigo ouvir vocês", pensou Darren enquanto a dose extra de morfina fluía dentro dele como molho de carne, forte e picante. "Eu ouço vocês bem. Vejo vocês bem. Parem de falar de mim como se eu estivesse no útero ou coisa parecida."
Wanda olhou para ele com ternura e disse: "E, vale tentar". Darren pôde ver que as sobrancelhas dela eram na verdade pedaços de anchova. "Odeio anchovas", disse a ela.
A enfermeira saiu e Wanda voltou à cadeira e se empoleirou nela. Tinha rabo, como um cão pastor, e precisava balançá-lo para secar. Depois ela disse: "Onde eu estava?"
"Cary tinha acabado de entrar", respondeu ele.
"Ah, sim, Cary tinha acabado de entrar", disse, enquanto seu cabelo começava a crescer e encher o quarto como uma trepadeira se desen¬volvendo rápido. "Então eu o vejo e sinto um frio na barriga."
Darren suspirou, recostou-se no travesseiro e se rendeu à história. "Como", prosseguiu Wanda, "eu posso dizer à condessa que seu marido está dando em cima de mim? Não tem jeito, é óbvio. Então eu peço para ela por favor sumir porque tenho de tirar leite de pedra para o meu cliente da manhã. Ela sorri e diz: 'Segredo', e vai embora."
Darren viu a condessa deixar o apartamento de Wanda, e em seguida foi se dando conta de que o turbante era na verdade um ovo, que estava quebrado e espalhando gema por todo o carpete. "Ah, não", reclamou, e disse à Wanda que ele ia limpar. E enquanto procurava pedaços de pano, Wanda continuou a falar com ele.
"Darren, o que eu posso dizer, tive de lutar de novo com Cary para ele entrar na linha. Não teve um dia ou noite depois daquilo em que ele não inventasse manobras insinuantes com o objetivo de tirar minha roupa. Chegou ao ponto em que eu não podia abrir meu pacotinho de nirvana, de Prozac, sem que ele estivesse lá, pronto para atacar. Bem, eu sou uma garota normal, saudável - sem comentários, por favor - e acontece que neste abatedouro das minhas fibras molhadas eu decididamente estava sofrendo de falta de amor."
O coração de Darren se partiu por Wanda. Ele a observava no apartamento dela, onde ela se espreguiçava na janela feita inteiramente de páginas de livros de colorir. Enquanto ela fazia buracos nos painéis de papel com um charuto aceso e olhava com indiferença as ruas lá embaixo, sua perna direita balançava lentamente para trás e para frente. Ela usava nadadeiras de metal e à medida que movia o pé, raspava sem cuidado as escamas da barriga de um crocodilo que estava deitado de costas.
"Pare de machucar o crocodilo", tentou gritar, mas percebeu que aquilo era uma cadeira.
"Aí", ela continuou, "eu detesto admitir, mas comecei a considerar a possibilidade de matar o desejo ardente e sólido de Cary. Principalmente porque garotas do meu tipo — bem, nós não podemos ter tanto escrúpulo com um homem que sabe qual é a nossa e ainda assim nos quer, você sabe O que eu já ouvi? Mas o meu envolvimento prismático com a condessa valia muito para mim também. O que eu devia sacrificar?
"Bem, dá para você imaginar. Eu fiz. Perdi toda a minha distância lírica. Disse sim. Deixei entrar uma vez e ele passou a noite inteira remexendo as minhas carnes populares e nem pergunte o que mais."
Darren ficou chocado e desiludido com o desenvolvimento da história. Ele se sentou ao pé da cama e observou o dorso mole, velho e curvado de Cary, nu sobre Wanda, revelando um pequeno V de pêlos, bem acima da rachadura em seu traseiro, que parecia ser azul-celeste e agir de forma independente. E enquanto Cary se afundava em Wanda, Darren agarrou suas pernas para puxá-lo, mas quando fez isso percebeu que as pernas estavam frias como gelo e largou-as, com desgosto. "Wanda", chamou, "empurra ele!" Mas então ele viu que não era Wanda que estava sob o corpo de Cary - era Ray! Darren foi tomado de amor e gratidão, porque Ray ficou no lugar de Wanda para salvá-la, sem pensar em si mesmo.
"De manhã, é claro", disse Wanda, "fiquei morrendo de vergonha. Jurei pela minha cova que ia contar tudo à condessa. Mas quando ela desceu naquela tarde, com seus chinelos cheios de estampas e detalhes prateados, não consegui. Cary entendeu que isso era uma permissão para continuar a afogar o ganso. E eu deixei. Naquela noite, na seguinte, e quando não havia trabalho."
Darren se colocou na frente da porta do quarto de Wanda e a mantinha fechada, mas as dobradiças estavam se soltando. Alguém do lado de fora — Cary, certamente - estava empurrando, fazendo força para entrar, e Darren não conseguia impedir. Havia também um zumbido, alto e perturbador, como um treinamento de bombeiros em Marte.
"Finalmente", disse Wanda, suspirando, enquanto se rastejava para debaixo do carpete e se escondia, "eu recobrei a consciência. Não foi num estalo, admito. Eu estava na Penn Station abrindo um frasco de pimenta com uma colher de café quando o vi. Cary. Com outra boneca. Uma ruiva. Grudados e disléxicos como se estivessem de pernas para o ar no meio de um mergulho. Eu percebi, tá legal, hora de cortar a cabeça. Então fui falar com a condessa."
Agora a porta não era uma porta, era uma coisa viva, viva e barulhenta, e os olhos de Darren estavam cheios de abelhas que saíam deles como borrões de tinta. Mesmo assim ele fazia força contra a coisa, porque ele sentia que aquela era a única maneira de salvar a pobre Wanda da humilhação total diante da condessa.
"Adivinha?", disse Wanda, com um traço de maravilha e deleite na voz. "Eu digo à velha: 'Desculpe, pelo carinho que tenho por você, desculpe, mas eu tenho de confessar que tenho beliscado o seu biscoito já há bastante tempo'. E ela quase desmaia. Põe a mão na cabeça e diz: 'Wanda, isso não é brincadeira! Você não pode estar dando uns malhos com o meu querido docinho, Nestor! Ele ainda está resolvendo os problemas em Júpiter ."
"Quem é Nestor?", perguntou Darren. A porta-coisa se abriu, quebrando sobre ele como uma onda.
" 'Quem é Nestor?', eu perguntei, e ela responde: 'Meu marido'. Eu digo: 'Condessa, qual é? Estou aqui pra acertar as contas por ter usado o Cary faz umas semanas...'. E ela me corta imediatamente. 'Cary?', diz ela, e começa a se agitar. 'Você pensou que Cary é meu marido?' E ela está tremendo, e transpira sensualidade. Pergunto: 'Se Cary não é o seu homem, então quem é ele?'"
A essa altura, Darren percebeu que não conseguia ouvir Wanda, não podia mais vê-la. Em meio ao zumbido e às ferroadas, protestou: "Pare, não consigo ouvir". Ele tentou espantar as abelhas, embora não passassem de fumaça de cigarro ou um cheiro ruim, mas pareciam mais com água -voltando a ocupar o espaço aberto por suas mãos.
Ele se engasgou com o esforço e algumas delas voaram para dentro de sua boca. Tentou cuspi-las, mas elas se alojavam sob a língua e entre O8 dentes e as bochechas. Encolhido na cama, tentava retirá-las, mas as abelhas continuavam a entrar. Logo ele ficou cego de terror, e começou a comê-las para se livrar delas. O gosto, embora incomum, não era desagradável. Como biscoitinhos salgados e chá mate. Ele se esticou e juntou mais algumas na boca. Hum... Quanto tempo fazia desde a última vez em que comeu algo de verdade, qualquer coisa?
Ele tentou pegar mais e... não havia mais nenhuma. Ah, o enxame ainda estava lá, espesso como antes, mas ele não conseguia alcançá-lo. Nesse momento, alguém o dividiu - em duas partes, como se fosse uma cortina! - e estendeu a cabeça no espaço aberto. Ela pousou os olhos nele, eram um de cada cor e ele não era capaz de dizer quais eram. Uma garota — não, uma mulher — não, uma garota. Com uma mecha de cabelos ruivos. Não, tinha uma mecha de cada cor. Não... tinha... Bem, é difícil dizer. Ela estava se afastando, diminuindo, bem à sua vista.
"O Que está Acontecendo??"', ela perguntou. Sua voz soava como um rádio mal sintonizado. "Nós estávamos nos divertindo tanto!"
E alguém à direita de Darren — e à esquerda - respondeu, com uma voz suave como âmbar. Nada, ele só está passando do seu reino para o meu. Só isso, minha irmã.
"Ah", disse a garota-mulher-garota. "eu esqueci que isso acontece às vezes."
E vai acontecer de novo, acrescentou o recém-chegado, justamente quando a garota-mulher-garota saiu do campo de visão. Ele será meu convidado, mas por pouco tempo.
Darren fechou os olhos e o encontrou: um homem alto, magro, esquálido, envolto em preto - parecia Daniel Day Lewis, a ponto de fazer seu coração galopar em seu peito.
O estranho aproximou o rosto pálido de Darren, que esperava sentir sua respiração, mas não sentiu nada. Homenzinho, disse o estranho suavemente, um pé em seu próprio reino, outro no meu, e sempre resistindo ao inevitável puxão do próximo. Que criatura teimosa você é!
E seu rosto chegou mais perto, e mais ainda, até parecer que estava se derramando sobre Darren, como leite, e depois ele estava de volta ao quarto do hospital, e Wanda estava ali, ao lado da cama, olhando para ele muito emocionada, sua mão sobre a boca.
"Darren?", disse ela.
Ele se sentou. "Estou bem. Foi só um momento ruim. Termine a história. Quem era Cary?"
Ela se inclinou na direção dele e pôs a mão em sua perna. "Darren?" Sacudiu-o. "Darren."
"Estou bem aqui", disse ele, ficando um pouco irritado. "Termine a droga da história, ok?"
"Esqueça a história", disse outra recém-chegada, que Darren agora viu sentada no parapeito da janela. Ela era tão pálida quanto a outra visita e evidentemente tinha o mesmo gosto pelo visual gótico. Era uma coisa magra, desamparada, usando uma camisa, jeans e botas, tudo negro. Em volta do pescoço ela tinha uma corrente com algum tipo de amuleto - um ankh, se Darren lembrava o nome corretamente, da época em que fazia suas pesquisas sobre ocultismo na faculdade (das quais só participava porque era louco pela conferencista xamã, que era maravilhosa).
Então a recém-chegada abriu um sorriso iluminado e Darren soube quem ela era.
"Eu sei quem você é", afirmou.
Ela deu um sorriso ainda mais largo, deslizou do parapeito e fé aproximou. Wanda não percebeu a nova e distinta convidada. Em vez disso, continuou a sacudir a perna de Darren, murmurando: "Darren! Oh, Deus, Darren!"
"Você está aqui por minha causa, não é?", perguntou ele, quando percebeu exatamente o significado daquela presença.
Ela balançou a cabeça. "Hum, hum. Vamos, querido", disse ela, estendendo a mão, "é hora de pegar a estrada."
Darren estava surpreso por descobrir que gostava dela, realmente gostava. Se ele soubesse antes que era ela quem estaria esperando por ele no final, não teria se importado tanto, lutado com tantas forças. Ainda assim, ele cruzou os braços, mergulhou no travesseiro e disse: "Não".
Ela apertou os lábios, suas sobrancelhas se arquearam. "Não?", perguntou, entre incrédula e surpresa.
Ele balançou a cabeça. "Desculpe, mas eu não vou a lugar nenhum até ouvir o fim da história."
"Bom, não parece que Wanda vai continuar." Com certeza, Wanda estava bem ao lado dele, segurando seus braços, como se procurasse o pulso, e dizendo: "Oh Deus, oh Deus, oh Deus".
Seu coração estava parando, mas ele resistia a se entregar. "Escute", disse ele, "você parece uma boa pessoa - bem, você parece legal. Tente ver pelo meu ponto de vista. As histórias são importantes. São tudo o que realmente possuímos. Enquanto crescia, eu fui cuspido, ridicularizado, surrado, excluído — e a única coisa que me fazia ir em frente eram as histórias. Histórias são esperança. Elas a levam para fora de si mesmo por um tempo e quando você volta, está diferente - esta mais forte, viu mais coisas, sentiu mais. Histórias são como moedas espirituais."
Ela deu de ombros. "Eu sei de uns e outros que concordariam com você."
Ele quase pulou para fora da cama. "Então! Esta é minha última história! Pode não ser muito, mas é a minha última, antes de você me levar para pegar minhas asas, ou o que quer que seja."
Ela gargalhou e sentou-se de pernas cruzadas na cama. "Eu não faço isso!"
"Como eu disse, o que quer que seja. Só deixe Wanda terminar, por favor? Depois eu vou sem problemas."
Ela suspirou e passou os dedos pelo cabelo. "Escute. Em primeiro lugar, hum... Como eu posso dizer? A melhor parte das histórias - é a parte que fica entre o começo e o fim. Certo?"
Ele estava atento para armadilhas, por isso pensou cuidadosamente antes de responder. "Ceeerto."
"Porque é como a eternidade, não é? É como estar em suspensão ou coisa parecida. Então, você devia ver isso e ter prazer em ficar para sempre nessa história. Como um pouco mais de eternidade para você. Que tal?"
Ele inspirou (ou ao menos é o que sentiu) e disse: "Bem, a eternidade é supostamente infinita, não é?"
Foi a vez dela ser cuidadosa. "Hum, hum."
"Tudo bem. Se a eternidade é infinita, como eu posso ter 'um pouco mais' dela? Você não pode ter mais de uma coisa que é ilimitada."
Ela olhou para ele por um momento, depois mostrou a língua. "Ah, vai se catar!", ela disse. "Não seja tão literal. Você sabe o que eu quero dizer. Estar no meio de uma história é como estar suspenso no tempo - é um tipo de existência abençoada. Um estado encantador. E você tem sorte, porque estará nesse estado para sempre. Certo? Você bem que poderia se acostumar com isso, porque Wanda é a única que pode lhe dizer como a história termina, e ela não vai fazer isso. Não agora."
Como se quisesse ilustrar isso, Wanda se levantou e andou melancolicamente em direção à porta, depois colocou a cabeça para fora e disse: "Com licença. Por favor. Eu acho... eu acho...". Então irrompeu em soluços angustiados.
Um grupo de enfermeiras correu para o quarto, como um bando de andorinhas pousando numa árvore e examinou Darren - ou melhor, o corpo de Darren, porque de um modo ou de outro, a essência dele estava agora sentada numa cadeira de frente para a sua visita, observando a atividade.
"Droga", ele disse, virando-se para ela. "Você não sabe como termina?"
Ela encolheu os ombros e fez uma careta.
"Então", disse, enquanto duas enfermeiras cobriam seu corpo com um lençol e as outras deixavam o quarto para consolar Wanda. "É isso. Vou passar o resto dos meus incontáveis dias num plano de existência novo e mais elevado, e enquanto flutuo como um deus em meio ao vazio insubstancial só vou ficar pensando em "Quem diabo era Cary"?
Ela gargalhou de novo e segurou a sua mão. "No que diz respeito a isso", disse, "flutuar como um deus em meio ao vazio insubstancial provavelmente não é uma coisa que você vai fazer muito." Uma servente com luvas de plástico e máscara apareceu trazendo uma maca com rodas. "Você vai se acostumar com isso, sabe. Para onde você está indo, há muito mais coisas para se ocupar do que o final de uma historinha de fofocas."
Ele emburrou e não queria olhar para ela. "É pelo princípio. É a minha última." Lançou um olhar estudado para suas unhas. "E eu não tive uma vida das mais fáceis, sabe. Ou uma morte."
Ela apertou os olhos. "Outros tiveram uma bem pior." Imediatamente, ela amansou. "Ah, droga. Não sei por que eu deixo você me pegar, sujeitinho desagradável! Mas, ouça, você é um doce. Eu odeio quebrar as regras, mas para que elas são feitas?"
"Para serem quebradas", disse ele, animando-se. "Exatamente para serem quebradas! O que você vai fazer?"
"Ultrapassar um pouco os meus limites", disse ela, ficando de pé e ajudando-o a fazer o mesmo. "Eu prometo que em pouco menos de dois meses vou providenciar que você possa perguntar à Wanda em pessoa como a história termina."
"Você jura?" perguntou, enquanto a servente começava a empurrar a maca com o seu corpo porta afora. "Você vai me trazer de volta ao mundo só para isso?"
"Não foi isso o que eu disse. Confie em mim. Enquanto isso, tente aproveitar o pouquinho mais de eternidade, está bem?"
Ele refletiu por um momento e depois disse: "Tudo bem. Vou confiar em você."
E ele confiava.
E ela o trouxe mais para perto.

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