7 de agosto de 2007

Texto da net (1)

De tudo o que ele me deu, o melhor foi um pé na bunda.
Tati Bernardi.


Depois de um bom tempo dizendo que eu era a mulher da vida dele, um belo dia
eu recebo um e-mail dizendo "olha, não dá mais". Tá certo que a gente tava
quase se matando e que o namoro já tinha acabado mesmo, mas não se termina
nenhuma história de amor (e eu ainda amava muito ele) com um e-mail, não é
mesmo? Liguei pra tentar conversar e terminar tudo decentemente e ele
respondeu "mas agora eu to comendo um lanche com os caras". Enfim, fiquei
pra morrer algumas semanas até que decidi que precisava ser uma mulher
melhor para ele. Quem sabe eu ficando mais bonita, mais equilibrada ou mais
inteligente, ele não voltava pra mim? Foi assim que me matriculei
simultaneamente numa academia de ginástica, num centro budista e em um curso
de cinema.
Nos meses que se seguiram eu me tornei dos seres mais malhados, calmos,
espiritualizados e cinéfilos do planeta. E sabe o que aconteceu? Nada,
absolutamente nada, ele continuou não lembrando que eu existia. Aí achei que
isso não podia ficar assim, de jeito nenhum, eu precisava ser ainda melhor
pra ele, sim, ele tinha que voltar pra mim de qualquer jeito. Decidi ser uma
mulher mais feliz, afinal, quando você é feliz com você mesma, você não põe
toda a sua felicidade no outro e tudo fica mais leve. Pra isso, larguei de
vez a propaganda, que eu não suportava mais, e resolvi me empenhar na
carreira de escritora, participei de vários livros, terminei meu próprio
livro, ganhei novas colunas em revistas, quintupliquei o número de leitores
do meu site e nada aconteceu.
Mas eu sou taurina com ascendente em áries, lua em gêmeos e filha única! Eu
não desisto fácil assim de um amor, e então resolvi que eu tinha que ser uma
super ultra mulher para ele, só assim ele voltaria pra mim. Foi então que
passei 35 dias na Europa, exclusivamente em minha companhia, conhecendo
lugares geniais, controlando meu pânico em estar sozinha e longe de casa, me
tornando mais culta e vivida.
Voltei de viagem e tchân, tchân, tchân, nem sinal de vida.
Comecei um documentário com um grande amigo, aprendi a fazer strip, cortei
meu cabelo 145 vezes, aumentei a terapia, li mais uns 30 livros, ajudei os
pobres, rezei pra Santo Antonio umas 1.000 vezes, torrei no sol, fiz
milhares de cursos de roteiro, astrologia e história, aprendi a nadar, me
apaixonei por praia, comprei todas as roupas mais lindas de Paris. Como
última cartada para ser a melhor mulher do planeta, eu resolvi ir morar
sozinha. Aluguei um apartamento charmoso, decorei tudo brilhantemente,
chamei amigos para a inauguração, servi bom vinho e comidinhas feitas,
claro, por mim, que também finalmente aprendi a cozinhar. Resultado disso
tudo: silêncio absoluto.
O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo
ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele. Até que
algo sensacional aconteceu. Um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz,
tão realizada, tão mulher que eu acabei me tornando mulher demais para ele.


Ele quem mesmo?

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