11 de setembro de 2007

O passarinho é a árvore.

Aquele pequeno passarinho que pia ao longe, fala tudo o que a língua dos homens teme em nunca ousar pronunciar. É como um grito estridente no escuro do silêncio. Só que mais agudo. Bem mais agudo que o esperado para vir de algo do alto das árvores de copa densa e difícil de enxergar.
Cada um formula suas metáforas baseado naquilo que conhece. Na primeira cena do filme uma bola de tênis bate na rede, e congelada no meio exato do campo, pode cair de um lado ou do outro. A essa força que ninguém pode controlar, chamamos de sorte.
“Match Point”.
É essa entropia cômica que todo mundo prefere chamar de lei de Murph. Ou Lady Murphy, para os íntimos. Tenho um amigo que é filho dele(a).
Não sou um tenista, por tanto não é uma metáfora que usaria se eu fosse falar de sorte. E deslizando por esse pensamento percebo que sempre deixei a sorte de lado. Não usaria metáforas para falar de sorte, pois a bani da minha vida, como se fosse coisa mística, persona non grata no vocabulário de um cético.
Particularmente eu adoro o vocabulário dos céticos. São o tipo de pessoas que falam as coisas pelas metades achando que disseram absolutamente tudo para descrever a verdade absoluta. Valha-me a sorte de não ser tão fútil assim. É como o passarinho grita, de uma forma estranha e difícil de entender, quase ninguém entende até onde seus próprios sentidos podem lhe mostrar, o que então poderiam esses mortais dizer quando são acometidos por uma onda de ilusão sensorial? Findam-se na miséria de atribuir tudo, e mais um pouco, ao extra mundano. Talvez por não notarem que já vivem há anos nesse mundo extra e particular... com aquele alt door que falei outra vez. Quase penso que já falei de tudo, até lembrar do passarinho.
Minhas metáforas são sobre relacionamentos, decisões e variáveis. Se você leva um fora, ou se perde um cliente, não é uma questão de sorte, foram inúmeras variáveis que criaram as situações até chegar a esse resultado. ‘Onomatopéia’, cuidado com a senha errada, nada nesse parágrafo foi uma metáfora até agora.
Quem vivem em quem? O passarinho na segurança da árvore ou a árvore na liberdade do passarinho? Que papel tem o ninho? Que rima condiz com o objetivo do trocadilho?
Mas se uma aliança se transforma numa prova que consuma um fato (ainda que não seja o fato real), podemos chamar de sorte? Tanto quanto se a bola pendesse para o outro lado?
Perceberam a profundidade e complexidade da metáfora? O que a aliança do ninho exatamente quer dizer com tudo isso que se refere a dinâmica da entropia dos céticos, suas variáveis e as certezas do ‘dono da opinião certa’? Até onde o raciocínio humano individual é capaz de ir sem levar o usuário a total dependência e loucura incurável?
Creio que sim. Um amigo de longa data me persuadiu, ainda que eu pudesse dizer que foi o ato do ‘bandido’ achar a aliança e não a sorte, certamente o marginal não o fez pensando em salvar a pele de nosso protagonista, o passarinho, antes de morrer.
E olha que em momento algum eu falei da morte de nada. Talvez sua sagacidade tenha lhe mostrado que a palavra ‘entropia’ tem sim um conceito de morte, ou até mesmo atingido o ato máximo de compreensão que lhe disse que ‘dinâmica’ atribuída a ‘vida’ da metáfora da natureza resulte fatalmente em um fim de ciclo. A alma da metáfora reside na capacidade de imaginar, tão rara nesse século provido de artifícios para usufruir da imaginação alheia.
Você deve ter visto algum filme na semana passada, e nem se importou se o mesmo não tinha passarinho algum, em momento algum. Nunca se permitiu reparar que você provavelmente vê um pássaro, ou uma árvore todos os dias.
Então meus pensamentos perante as inúmeras variáveis muda. Se não temos como manipular uma ação alheia, e outra pessoa a cria inconscientemente de estar fazendo bem a outrem, então podemos dizer que é sorte, e de repente a coisa mística, filha do caos com a entropia, se torna parte da equação.
Eis que a morte agora é a do cético, que pego desprevenido com o choque da razão contra sua inversa fé inabalável se estatela no chão com a incapacidade de usufruir de seu tão vasto vocabulário estúpido. Acaba ai uma guerra de milênios, mas ninguém gostaria, não realmente, de simplesmente aceitar isso como verdade. O alt door do mundinho particular é sempre causador desse tipo de problema.
E vocês, que acham da sorte? Passarinho.

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