30 de outubro de 2007

A trilha do escaravelho – 3ª parte – Pó. (Um conto para a crônica Imperia)

Domingo, 01 de Janeiro de 2006, 00h08mim – Dois quilômetros de Saqqara – Egito.
Augusto Sintra e Donovan Staique, meio quilometro ao sul da estrada que leva a zona arqueológica de Mênfis.
— Ainda não acredito que você me convenceu a perder o ano novo viajando com você para o Egito, e olha! Agora estamos exatamente entre coisa alguma e lugar nenhum, nem fogos de artifício eu vejo daqui. — Disse com um tom pouco convincente de revolta o meticuloso bio-tecnologo e amigo de infância de Augusto, Donovan. Ele se abaixou e encheu a mão com um punhado de areia escura, levantou-se e soltou os grãos para que voassem. — Se eu jogar areia por sobre o ombro dá sorte ou azar?
Augusto não prestara muita atenção a princípio, estava com as mãos nos bolsos e a face erguida sentindo o vento que soprava ameno. Criara mentalmente todo o desenho de onde milênios atrás fora Mênfis, a primeira capital do império que desencadeara tudo aquilo que enchia sua mente de uma assustadora expectativa. Alguns instantes depois ele se virou para o amigo e com um sorriso confortante no rosto, disse:
— Acalme-se Donovan. Nós estamos cinco horas no futuro. — E ele riu ao acabar a frase. — Nós vamos voltar para o Brasil a tempo de você aproveitar todas as farras que Amanda programou por lá.
— Então, pare de rodeios, como os que vem fazendo desde que visitamos aquele pequeno museu no povoado. Aquele com a estátua grande.
“A estátua grande é chamada de ‘a colossal estátua de Ramsés II’ foi esculpida em um bloco de calcário claro e que mesmo incompleta tem um comprimento de quase dez metros”. Augusto formulou, mas não disse nada, realmente já era hora de parar de rodeios, o amigo íntimo com certeza conhecia-o bem o bastante para não cair em jogos tão simplórios.
— Tudo começa com nossas profissões amigo. Eu estou estranhamente vinculado ao passado, e você, ao futuro. Eu acabei descobrindo algumas coisas, não tão antigas como estou acostumado, mas com significância semelhante. Meu professor, tão sério e quase um ídolo para mim é na verdade um fanático religioso excêntrico que acredita que diversos mitos egípcios são reais e influenciam nossas vidas até hoje.“... a sua em especial”. Mas o pensamento não virou palavra. — Você continuaria os estudos propostos por um professor assim?
Donovam aproximou-se de Augusto e colocou a mão em seu ombro com um olhar compreensivo. Sorriu com metade da boca e quando parecia que diria algo realmente sábio, disse em deboche:
— Tem certeza que trousse o amigo certo? Parece que alguém abriu o livro das fantasias de novo.
— Quanta espirituosidade. — Augusto usou de sarcasmo. — O que você esperava, que eu chamasse vocês para um café na Savassi e dissesse: Pessoal, meu professor é completamente biruta e eu estou prestes a seguir as mesmas linhas de raciocínio que ele vem tendo. E olhem, eu juro que não tomei nada que Amanda tenha me oferecido.
— Até agora, eu acharia totalmente normal vindo de você. — Donovan colocou as mãos nos bolsos também, imitando o amigo enigmático. — Gabriel já sabe que ele ainda é único quase normal que sobrou dos quatro?
— E por que saberia? Por pior que pareça, acho atualmente que o mais normal de nós é a Amanda. Ela ao menos vive mais no presente que os demais. — Augusto olhou para o céu e contemplou momentaneamente as estrelas. — Ela também não sabe de nada. Só eu, e talvez a partir de hoje, você.
Donovan deu um empurrão brusco em Augusto, que o fez dar três passos tortos para estabelecer novamente o equilíbrio.
— Chega Augusto, você me arrastou um quarto do mundo para dizer algo, não é a mesma coisa de encontrar no Shoping sem a presença dos outros. Acabou a brincadeira. A verdade, Augusto Sintra... Ou eu vou dar um soco em você. — Terminou com um sorriso divertido, como se fosse uma grande brincadeira aquela cena, mas o amigo saberia devido à convivência que não era exatamente isso.
— Daqui alguns anos você terá um objeto muito importante em mãos que precisará me entregar, mas não simplesmente me procurar e colocar na minha mão. — Augusto apertou a estatueta de escaravelho dentro do bolso. — Se algum dia alguém te disser que algo que pertence ao passado, deve ficar no passado, traga essa coisa exatamente para esse lugar. — Abriu um buraco na areia. — pode enterrá-lo um pouco, eu vou encontrar no momento certo.
“Agora você já sabe aonde vai...”
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Sábado, 31 de Dezembro de 2005, 21h12mim – Betim – Brasil.
Amanda Bourbon, uma rave em um sítio semi-destruído pelo evento.
Amanda estava muito drogada.
“Meu Deus...”
— Meu deus. — Ela disse.
“Olha, eu to muito arrependida por ter te ofendido e por qualquer coisa errada que eu tenha feito inclusive ter transado com um monte de caras ao longo dos últimos anos, bebido tanto e usado tantas drogas. Até por ter aqueles pensamentos quando eu cubro a cabeça com o lençol de seda que vovó me deu. Mas se o senhor puder por favor fazer o meu estomago, meu coração e meu cérebro voltarem a ser órgãos distintos, eu prometo me comportar direitinho e só fazer boas ações e ajudar os pobres, a menos que o senhor não goste deles por algum motivo e é por isso que eles são pobres”.
— Eu tô num balanço. — Disse ela, esparramada no chão cheio de lama. — Aliás, bem alto.
“Nossa, eu gangorro aqui bem rápido. E nem fico cansada com esse esforço todo. Vai ver que rezar bêbada deve fazer bem para os músculos. Tenho de comentar isso com o Augusto depois”.
— Meu deus, tomara que tenha um depois.
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Domingo, 01 de Janeiro de 2006, 01h33mim – Mit Rahina – Egito.
Augusto Sintra e Donovan Staique, o quarto da pensão onde se hospedaram por menos de uma noite.
— Eu estou tão cansado... e nem imagino o que exatamente eu gostaria de fazer sobre essa sua baboseira toda. Tem uma hora e meia que você só fala coisas que não fazem absolutamente nenhum sentido. — Donovan guardava os pertences na mala.
— Acho que fará algum sentido em alguns anos. Tomara que até lá você não esteja tão confuso quanto eu. — Augusto já terminara a mala, e tivera todo o cuidado para que o amigo não visse os dois porta retratos, o diário de capa escura e nem a estatueta metálica que guardou entre as peças de roupa.
— Você prestou atenção em tudo o que me disse? Quero dizer, você realmente disse o que disse?
— Sua participação em tudo será magnífica. — Sussurrou Augusto, e não foi ouvido. — Donovan, não tem mais ninguém para quem eu poderia ter dito essas coisas. Tudo começa comigo e termina com você, vão ter muitos outros no meio disso tudo. — E mesmo usando um tom de voz um pouco mais alto, Augusto não viu nenhuma reação em Donovan que provasse que escutou.
O silêncio perdurou por algum tempo, quebrado ocasionalmente pelo barulho do vento da areia lá fora. As malas já estavam prontas e os bolsos cheios das coisas que as pessoas costumam carregar. Bateram na porta com rispidez.
— Você esta esperando alguém? — Donovan Perguntou.
— De certa forma. — Ele apertou o relógio caro no pulso. — É agora que começa a verdade que você queria. E sobre ter convidado o amigo certo... é hora de se passar por Gabriel.
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Sábado, 31 de Dezembro de 2005, 22h36mim – Belo Horizonte – Brasil.
Amanda Bourbon, 'Zack' e 'Papilon', hospital Felício Rocho.
— Amanda! — Gritou o esquisito ‘Zack-Zack’ ao entrar no quarto e segurar a mão da colega. — Que bom! Ela está respirando!
— O que aconteceu? — Entrava no quarto agora a jovem ‘Papilon’ com seus cabelos loiros amarrados em duas tranças com fitas coloridas. — Tá todo mundo preocupado. Seu Zack?
Na cama, Amanda se revirou e murmurou:
— Eu te odeio Deus! Tô de mal!
Zack olhou para Papilon com expressão inquisitiva. Levantou-se e caminhou em direção a jovem, intimidando-a contra a parede.
— Me conta o que você sabe.
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Domingo, 01 de Janeiro de 2006, 01h52mim – Mit Rahina – Egito.
Augusto Sintra e Donovan Staique, o quarto da pensão onde se hospedaram por menos de uma noite.
Quando a porta abriu o árabe desconhecido saltou sobre Augusto com violência. Caiu sobre ele e começou a socá-lo enquanto o português tinha dificuldades em se defender.
Donovan usou uma chave de braço para tentar tirar o atacante de sobre seu amigo, não era muito bom nisso, mas tivera algum sucesso. O árabe usou o peso do próprio corpo para lançar-se contra a parede, usando Donovan como amortecedor. Doeu, e Donovan pensou em soltar antes que acontecesse de novo, mas foi tempo suficiente para Augusto sacasse uma pistola de cerâmica da parte de trás das calças e apontasse para o rosto do infeliz.
— Desde quando você tem uma arma? — Disse um atônito Donovan.
— Roubei do meu professor, pensei que seria mais seguro comigo do que com ele. — Então Augusto direcionou a fala para o egípcio e disse em árabe fluente: — Por que vocês querem Leonel morto?
O invasor engoliu seco, mas sorriu em seguida, incrédulo de que Augusto fosse capaz de atirar. Aquele sorriso foi extremamente ofensivo para o arqueólogo, estava com a cabeça cheia de coisas que fazia aquele pequeno incidente ser ínfimo demais para ser classificado com um desafio para princípios éticos e morais.
Augusto atirou.
— Augusto! Você poderia ter me acertado! — Gritou o assustado Donovan. — Eu quero meu amigo de volta, de que planeta você veio tomar o lugar dele?
—SSH! Assim as pessoas vão vir pra cá, ver o que aconteceu. — Ele caminhou e virou para cima o egípcio que se contorcia de dor no chão enquanto tentava segurar o joelho destruído por uma bala afunilada por silenciador. — E eu não sei onde encontrei esse comportamento, não quero testar se faria isso de novo.
— Tudo isso é coisa do seu professor, não é? Ouvi você falar o nome dele com o doidão ai. — Donovan se reconstituía do engalfinhamento e do susto. — Ele ta mexendo com coisas pesadas e provavelmente não esta sozinho.
— Estou começando a entender as coisas agora. Tem uma seita, uma organização de assassinos árabes. Acho que mulçumanos sunitas ou xiitas. Eles não parecem conhecer totalmente seus motivos, alguém manda neles, mas querem ver todos que chegam perto de uma determinada verdade, mortos. Eu encontrei um diário diferente, um livro que retrata muito sobre tudo isso, e agora pretendo mudar as coisas.

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