2 de dezembro de 2007

A trilha do escaravelho – 6ª parte – Esquadrão rainha vermelha. (Um conto para a crônica Imperia)

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2006, 18h47mim – Belo Horizonte – Brasil.
Amanda Bourbon, Zack-zack e Papilon, a cobertura de um prédio comercial no centro da cidade.
“Deus, você é o melhor no que faz”.
Amanda entrou incrédula no escritório de seu amigo Zack-zack. Lançou um olhar vago para Papilon sentada em frente a um dos muitos computadores no cômodo. Amanda apertou a alça da bolsa contra o peito como se o lugar fosse perigoso e assustador. Logo em seguida, como imaginado, ela se sentiu novamente à vontade entre a avançada tecnologia que Zack acumulara ali por hobbie ou profissão.
— Boa noite, senhorita Amanda, sente-se melhor? — Perguntou sem tirar os olhos da tela, a jovem loira e excêntrica conhecida como Papilon. As duas ‘marias chiquinhas’ que usava no topo da cabeça sacudiram infantilmente. — O senhor Zack estava muito preocupado com você, até movimentou uma verdadeira campanha de espionagem e conspiração para preparar tudo quando você chegasse. Eu tentei ajudar o máximo que pude, segui vários coelhos, espero que seja o suficiente para a senhorita.
Amanda não conseguiu responder, ainda estava aturdida com a idéia do que estava prestes a acontecer naquele lugar, ou em qualquer um outro capaz de estabelecer uma conexão com a internet. Zack puxou-lhe uma cadeira e sorriu de forma confortante enquanto ela se sentava e ele a conduzia, deslizando nas rodinhas, até uma mesa com três monitores grandes e finos. Ela levou a mão instintivamente ao mouse e removeu a maquina de seu estado de hibernação. Era como se ela mesma estivesse passando pelo mesmo processo.
O drive de CD do computador de Papilon se abriu e ela entregou o disco que ali estava para Zack. Colocou a mão no ombro de Amanda em sinal de carinho por ver a moça novamente entre eles, prestes a ingressar no que a excêntrica acreditava ser o maior empreendimento de pirataria de dados que mortais poderiam se envolver. Dali ela seguiu em direção ao armário próximo a geladeira, pegou um casaco grande e pesado e voltou com ele para colocar sobre as costas da recém chegada. O ar condicionado do andar trabalhava o tempo topo em máxima para manter os inúmeros computadores frios e com capacidade total.
— Ai está o Back-up de tudo o que consegui a partir de Londres e o nome Victoria Lancaster. Já atualizei o mapa de interligação, o banco de dados e o arquivo nomes e fatos. Os três reis magos estão em pleno vapor. — As duas pontas de cabelo sacudiam de forma não natural, mas a jovem ainda transparecia um carinho curioso, que não combinava plenamente com seu jeito de vestir. Ela voltou à atenção para Amanda e disse: — Fique o mais confortável possível com Melquior, ele é projetado especialmente para você. Se precisar de qualquer coisa de Baltazar, peça a mim, se for de Gaspar, tenho certeza que Zack ficará feliz em ajudá-la. — Ela voltou a sua cadeira com apenas dois monitores sobre a mesa e disse para si mesma: — Não veja a hora dela conhecer a nossa estrela guia.
As telas em frente a Amanda mostravam coisas que lhe enchiam os olhos, o esquema de linhas azuladas se ligando a diversos pontos, que se tornavam mais azuis conforme eram ligados as linhas, demonstrava um intrigada rede em que tudo se ligava. As tabelas ordenáveis por diversos quesitos no outro monitor lhe revelava o significado dos pontos, os nomes de diversas pessoas conhecidas e suas ligações com descrição rápida, mas expansível, de como se relacionavam. Escolhendo qualquer nome ou ponto o terceiro monitor revelava uma ficha assustadoramente completa sobre o individuo. Ela escolhera seu próprio nome devido à curiosidade inegável. Tudo o que pudesse ser registrados por computadores, de quaisquer naturezas, aparecia no relatório, último gasto com o cartão de credito, último registro policial, última ligação que realizara do celular, tudo. O sistema já lhe sugeria ali mesmo diversos cruzamentos com outros pontos, estabelecia padrões de agenda para sua possível rotina diária, lógicas de comparecimento a determinados estabelecimentos e possíveis novos pontos a se cruzar. Se existia algo que ela gostaria de saber sobre alguém listado naquele banco de dados, e a menos que a pessoa viva em uma caverna sem luz elétrica, ela saberia.
“Deus você é o melhor no que faz, e ficou tudo muito bonitinho na manjedoura”.
----------
Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2006, 08h21mim – Belo Horizonte – Brasil.
Augusto Sintra, laboratório de história da universidade federal.
Augusto colocou as duas urnas sobre a mesa dispostas ao redor do escaravelho. A ânfora com cara de chacal a oeste e a com cara de cobra a sul. Faltavam ainda duas urnas, uma delas estava a caminho nas mãos de Donovan, a cara de falcão. Nem imaginara o que o amigo fizera para conseguir o objeto na Inglaterra, mas já se sentia agradecido pelo amigo ter acreditado nas idéias dele.
O problema agora era conseguir persuadir Leonel a lhe entregar a ânfora com cara de gato de forma que o professor não desconfiasse de nada e não soubesse que ele já tinha as outras três ânforas. Mesmo com a sensação de capacidade de enganar e convencer, Augusto ainda tinha a sensação de que o professor era muito mais experiente e competente nessa área que ele. Outro pensamento que não lhe largava era a idéia de que não devia de forma alguma usar o nome de Alice para conseguir isso, se esse assunto viesse à tona, Augusto perderia a concentração e não seria capaz de levar o plano adiante.
Ele pegou o celular no bolso e antes de discar reviu todo o discurso mentalmente a procura de qualquer falha, qualquer frase não arranjada que pudesse colocar tudo a perder, tinha de estabelecer o contato antes do almoço, antes que Donovan voltasse do reino unido e o professor pudesse desconfiar de algo e rastrear o nome do amigo para descobrir onde ele estivera visitando. Na esperança que tudo desse certo o mais rápido possível, Augusto discou rapidamente o número e aguardou ser atendido.
— Professor! Bom dia. Acordei você? — Augusto sentiu-se pateticamente fútil e falso em tratar o canalha do professor dessa forma.
— Bom dia, Augusto. Não, acabei de voltar da minha caminhada matinal. — E essa informação pareceu aos ouvidos de Augusto algo como ‘acabei de matar um detetive que poderia me atrapalhar nos projetos de dominação mundial’, mas preferiu manter a postura de aluno dedicado e obediente.
— Professor, meus relatórios sobre o escaravelho já estão todos prontos. Como os testes, traduções e exames mostram, ele faz parte de uma coleção com mais quatro peças, não posso elaborar um texto completo sem os demais objetos, e curiosamente não os achei catalogados em nenhum museu. Será que ainda estão enterrados ou foram definitivamente perdidos?
— Eu recebi seu e-mail falando das peças Augusto. — E o português se assustou com a frase, não enviara e-mail algum. — E já estou procurando pelas peças. Tenho a pista de uma delas. Possivelmente depois do dia quinze desse mês eu já esteja com ela.
Era uma resposta esperada, apesar da ignorância sobre os intuitos do professor, Augusto já aprendera a imaginar o que o tal pretendia. Sabia que esse adiar possuía forte motivação que não faria bem ao aluno. Augusto sabia também que o professor era um homem pontual e que as datas marcadas para quaisquer fins deveriam ser seguidas com exatidão. E isso lhe deu margem para elaborar sua estratégia magistralmente.
— Certo, que bom então, professor. Aproveitando esse intervalo, eu vou tirar férias e visitar minha família em Portugal. Posso sair depois de amanhã e voltar no dia vinte. A peça provavelmente já estará aqui, não é? — Augusto imaginou o professor se contorcer de desgosto do outro lado da linha.
— Preciso de você aqui esses dias, Augusto. Creio que eu possa adiantar um pouco a peça, quando mais cedo você começar a trabalhar nela, mais cedo teremos um resultado satisfatório. Acredito eu que, o importante no fim das contas, seja o escaravelho. Um curador do museu do Cairo irá visitá-la no dia quatorze. — Algumas poucas falhas na voz denunciaram o sucesso de Augusto, que vibrara silenciosamente ao vislumbrar a conquista daquela simples ação de mentiras.
— Desculpe-me, professor. Eu realmente preciso viajar, talvez outro aluno possa começar as traduções até meu retorno, e particularmente acho que seria precipitado ofertarmos o escaravelho sozinho, os méritos de arqueologia serão resumidos ao ‘grupo arqueológico que encontrou uma das peças da coleção reunida pelo brilhante museu do Cairo’ não será tão valorosa quando a que teremos se formos nós a conseguir todas as peças.
A linha ficou muda por algum tempo. O português experimentou um misto de ansiedade e prazer ao aguardar uma possível resposta positiva para seus planos. Se conseguisse reunir as cinco peças sem o conhecimento de Leonel ficaria de forma inédita vários passos a frente do astuto professor. O aliado que fizera no vôo de São Paulo para Belo Horizonte financiaria qualquer escavação por uma branda demonstração do que aquelas peças guardavam. A pirâmide desconhecida e denominada como prisão mencionada nos símbolos seria a maior descoberta arqueológica do século e não poderia ser vendida para os grupos que gostariam que isso continuasse oculto pelos dedos gananciosos de Leonel.
— Tenho certeza que se você começar a trabalhar nas novas peças sua curiosidade fará com que adie esse compromisso. — Era irônico como a qualidade enumerada pelo professor fosse exatamente a que levara Augusto planejar sua ruína. — Creio que será possível adiantar a chegada dessa primeira peça. Farei algumas ligações e retorno então para você.
— Obrigado professor. Não nego que realmente estou muito curioso com tudo isso.
Augusto lançou seus olhos determinados para as ânforas que já possuía, agora passaria algumas horas decifrando muito do que elas diziam e planejando com atenção com se infiltraria no templo de Ísis e Osíris para desvendar o motivo que fazia aquele aspecto da cultura egípcias ser tão secreta.
----------
Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2006, 10h10mim – Belo Horizonte – Brasil.
Amanda Bourbon, Zack-zack e Papilon, a cobertura de um prédio comercial no centro da cidade.
— E essa é a Rainha vermelha!
Disse Zack ao abrir um novo programa na tela central de Amanda. A interface gráfica é bela e agradável aos olhos, obviamente sem atrapalhar o desempenho da ferramenta. Estava tudo lá, simulador de linguagem, modificador de voz, monitor comportamental e diversas outras funções que não eram claras ao olhar inicial da garota.
— Ela é perfeita. — Insinuou Papilon de sua mesa. — Nosso ícone virtual de interação com os alvos de estudo. Ela não dorme, não come e tem acesso inteligente a todo o banco de dados. Rastrear-la levaria a um ponto cego no interior das selvas do Congo, contaminá-la com um vírus seria o mesmo que ameaçar um muro de concreto com uma bolinha de papel. Nós estamos trabalhando agora em fatores de personalidade para garantir que independente do operador por trás dela no momento, ela continue sendo o mesmo prestativo gênio dos computadores.
— Existe alguma coisa que vocês ainda não pensaram? — Questionou Amanda ainda admirada com os três reis magos e seus programas perfeitos.
— Existe sim. — Concordou Zack. — A maior parte de nossas informações ainda não é protegida da forma que realmente gostaríamos. Atualmente a certeza de privacidade de informações e segurança de nossos atos depende totalmente de nossa monitoria permanente e da intervenção de ‘Old Sky’ com sistemas de embaralhamento externo. Não podemos usar praticamente nenhuma conexão wirelles com medo da codificação não ser suficientemente complexa para dormirmos tranqüilos.
— Precisaríamos de uma linguagem e um decodificador que ninguém nunca usou. E que possua lógica irregular de forma não estabelecer semelhança com nada atual e garanta que não será ultrapassado rápido demais. — Completou Papilon. — Nós temos toda a potência e flexibilidade de sistemas, mas isso nos custa um alto preço em segurança.
— Isso porquê vocês não conhecem o mais brilhante autor criptográfico do mundo. — Amanda pegou o aparelho celular e conectou com embaralhador de sinal desenvolvido pelos companheiros. — Vocês acreditam que seja possível criar uma seqüência criptográfica sem lógica matemática e ensinar isso ao computador?
----------
Sábado, 7 de Janeiro de 2006, 17h26mim – Belo Horizonte – Brasil.
Amanda Bourbon, Agusto Sintra, Donovan Staique e Gabriel Sanches, o café preferido do grupo escondido por muitas fachadas luminosas na savassi.
— Então vocês foram passar o ano novo no meio do nada, lá no Egito? — Gabriel perguntou com um sorriso cômico no rosto enquanto brincava com o canudo que roubara do refrigerante de Augusto. — E, ‘Dolly’... — O apelido se referia a Donovan. — Você acha que eu vou acreditar que o CDF do Augusto atirou em alguém?
— Olha, ‘Bibizinho’... — E esse era o apelido de Gabriel. — Eu não faço muita questão de que acredite, a única prova que eu tenho é o meu relógio de pulso quebrado pela bagunça que fizemos naquele quarto de hotel.
— Então de lá você foi para Londres exatamente para que? — Entrou na conversa a distante Amanda, que ainda devaneava sobre os diversos aspectos do poder dos computadores que seu ilegal grupo montara. — Chegou a visitar seus pais estranhos ou nem lembrou que você, ao contrario do que acreditamos, não é filho de um tubo de ensaio?
Augusto engasgou-se com o comentário. Ficou tanto tempo com os olhos lacrimejando e Gabriel lhe dando tapas não tão leves nas costas a fim de ajudar o amigo que felizmente o assunto desapareceu no ar.
— Você devia parar de tomar esse refrigerante, vai acabar te matando. — Gabriel usou um tom engraçado enquanto tomava um longo gole de cerveja.
— Por favor, me cremem e joguem minhas cinzas no mar o mais rápido possível para evitar que algum arqueólogo filho da puta venha a me estudar no futuro. — Augusto gostou da idéia de inventar um assunto novo, tinha de tirar as atenções sobre a vida de Donovan e impedir de qualquer maneira os amigos de perguntarem sobre Alice.
— As vezes eu acho que nós nunca vamos morrer. — Suspirou Amanda, ainda distante. — É como se nós preparássemos o mundo como se... como se não tivéssemos que morrer.
— Se fosse fácil morrer, eu já o teria feito. — Completou Gabriel. — Mas esse não é o tipo de assunto interessante para se conversar agora. Certo?
Augusto levantou-se e foi até o balcão do café. Os outros três observaram mas logo voltaram a falar de trivialidades. Falaram sobre o cachorro de Gabriel, o gato de Amanda e os ratos de laboratório do Donovan. Depois discutiram por que Augusto não tinha um animal, e acabaram percebendo que nenhum bicho combinava com ele.
Quando o português voltou com um maço de cigarros e um isqueiro caro, os amigos lançaram-lhe um olhar inquisitivo, mas não reprovador. E antes que os demais formulassem a questão, ele se precipitou na resposta.
— Nunca é tarde para adquirir novos hábitos.
As horas continuaram a passar enquanto os amigos se confraternizavam como não faziam já há muito tempo. Apesar de quase todas as palavras de três deles serem cuidadosamente escolhidas. Era curioso como um grupo de pessoas tão distintas tendia a esse comportamento, cada um começava a guiar sua vida para um rumo tão particular e cheio de segredos por vezes sombrios que tornava aquela amizade algo muito maior que os simples assuntos em comum.
----------
Sábado, 7 de Janeiro de 2006, 15h41mim – Londres – Inglaterra.
Victoria e Isabel Lancaster, um quarto no hospital St. Thomas, curiosamente direcionado para a Victoria Embankment.
— Chegue mais perto de mim, querida. — Disse Victoria a filha de apenas quatro anos.
A menina ainda tinha as marcas das últimas lágrimas nos olhos. Ela se aproximou da mãe e segurou-lhe a mão enfraquecida. A mãe sorriu para ela da melhor forma possível e teve a intenção de afagar-lhe os cabelos, as forças lhe faltaram.
— Querida, sinto muito por deixar-lhe uma responsabilidade tão grande, mesmo sendo tão jovem. — E o silêncio se instalou no lugar durante alguns instantes depois dessa frase. A mãe retomou com dificuldades o ar do pulmão para voltar a valar. — Você sabe que de um jeito ou de outro a mamãe sempre estará com você... — As faces da criança se avermelharam, e Victoria sabia que logo, logo, a filha voltaria a chorar. — Daqui alguns anos você será capaz de me visitar sempre que quiser, e eu vou estar esperando. Tudo vai dar certo, querida. Seu pai vai cuidar de você.
E mesmo com todas as dores ela abraçou a filha com toda a força que pode, as lágrimas não saiam de seus olhos por não existirem mais, se existia algo que lhe machucava mais que todos os exames e sintomas, era o rosto da filha que teria de aprender tanta coisa sozinha. Aprender tudo o que Victoria levou ‘séculos’ para aprender.
E sobre o ombro da filha aconchegada em seu colo ela observou o Tamisa, lembrou-se do Nilo e finalmente percebeu que sabia exatamente o que viria a acontecer, e restavam apenas oito dias.
O quarto voltou ao silêncio estéril.

Nenhum comentário:

Postar um comentário