29 de janeiro de 2008

A trilha do escaravelho – 7ª parte – Primeiro passo. (Um conto para a crônica Imperia)

Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006, 17h21mim – Belo Horizonte – Brasil.
Augusto Sintra, laboratório de história da universidade federal.
Finalmente as quatro estatuetas estavam lá, sobre a mesa, alinhadas em forma de cruz com o pequeno escaravelho ao centro. Todas as traduções estavam prontas e ele acabara de colocá-las em ordem. Leu novamente tudo, tentando encontrar alguma fração de texto mal compreendido, tomou café em sua caneca de estimação, e decidiu que realmente era aquilo ali. Estava escrito e pronto. O escaravelho desejava “comer” as cinzas das urnas, e assim, libertar-se para tornar-se libertador.
— Será que eu realmente vou fazer isso?
Augusto abriu a ânfora com cara de chacal. O objeto que curiosamente já era dele há anos. Presente de um professor inglês que agora já não conseguia mais localizar. O jovem arqueólogo lembrou-se da frase que acompanhou o presente: ‘Porque sei que você será muito mais que um simples cavador de tumbas’. Talvez fosse agora que essa frase chegaria ao ápice de significância. Apanhou um punhado de cinzas, e apesar do pecado arqueológico, jogou-as sobre o escaravelho, que como uma ampulheta absorveu os grãos que escorreram entre suas quase imperceptíveis frestas.
Abriu uma última vez o diário de capa escura, indo diretamente para a última pagina e tendo certeza que as instruções terminavam realmente ali, no dia doze de janeiro do ano de dois mil e seis. A última frase do livro era, ‘tudo tem um começo, mas acabo terminando pelo final. Que começa agora’. Era hora de devolver ao pó, o que pertencia ao pó.
Também levou os olhos aos porta-retratos sobre a outra mesa, o primeiro que falava da vida que deixara para trás. Do amor que sentia, da mulher que era perfeita para ele. “Adeus”, ele pensou, e era muito pouco, perto do que gostaria de dizer para ela. O segundo tinha a foto dos amigos, Gabriel, Donovan, Amanda e ele. Amigos perfeitos, com tantas histórias juntos, tantas idéias, ajudas, sonhos e segredos. Principalmente segredos. Ainda era doloroso imaginar que essa amizade fora planejada por uma geração anterior, que estudaram juntos e tiveram diversas coincidências ou pedidos de ‘dormir na casa do coleguinha’ previamente escolhido com cuidado pelos pais para garantir que fossem muito amigos. Isso fazia a amizade valer menos? O fato da oportunidades terem sido planejadas? Não para Augusto, afinal, com mais três gestos o final iria começar, e aqueles amigos seriam tudo o que restaria.
Ele abriu a ânfora com cara de águia.
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Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006, 17h23mim – Belo Horizonte – Brasil.
Donovan Staique, seu apartamento estéril em um bairro elitista próximo ao centro da cidade.
Uma última gota no tubo de ensaio e pronto, a experiência sem funcionalidade estava pronta. Ele já tentara de tudo para distrair-se, até a destruidora de neurônios de quarenta e duas polegadas suspensa na sala, mas nada o levava para longe de Victoria Whitewood, que agora se chamava Lancaster. Ela se casara, teve uma filha e agora estava doente, a beira da morte. E isso era o resumo de possivelmente a melhor época da vida dele. Tudo iria acabar. Por quê ele ficou tanto tempo longe? Por que ele só pensou nela novamente daquele jeito de antes, após as sandices de Augusto? E, talvez, a pergunta mais importante, por quê ele não sabia ser feliz?
Levantou-se da mesa de química e andou pelo quarto, o maior do apartamento que fora transformado em um laboratório sem finalidade clara. A mesa central, com luminárias fortes sobre ela, estava repleta de peças eletrônicas e livros de engenharia elétrica. Um deles aberto em um capítulo interessante sobre robótica tinha sob seu título uma passagem que fizera Donovan parar com a criação de um chip em particular: ‘O homem é um louco; não pode fazer um verme, e entretanto faz deuses às dúzias’. Foi o que Montaigne disse, o que parecia ser a verdade. Leonel Hamburgo não poderia estar certo, mesmo Victoria acreditando em algo tão próximo, a era dourada do Egito não poderia simplesmente ressurgir em meio à era da razão.
Tentou mais uma vez concentrar-se nos ratos dentro do labirinto, em vão. Vê-los ali confinados em uma realidade pré-determinada e com objetivos esperados pelo observador só o fazia pensar em como, se esses tais deuses realmente estiverem vivos e ditando o destino dos homens, ele era só um fantoche, como ele poderia confiar no tal livre arbítrio se existia uma guerra silenciosa de deuses e deusas em busca de uma fatia maior do bolo que é a fé mortal. Seriam os deuses realmente figuras cheias de vícios e virtudes que não sabem exatamente qual é o verdadeiro caminho da humanidade?
Não queria mais deixar a mente solta assim, onde a palavra humanidade levava-o de volta a ela... Já estava cansado de sentir saudades de algo que não viveu. Direcionou-se para o quarto de dormir, era cedo, mas seria melhor assim.
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Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006, 17h31mim – Belo Horizonte – Brasil.
Augusto Sintra, laboratório de história da universidade federal.
O pó da ânfora de águia teve o mesmo resultado da anterior. Augusto só então pensou em quanto pó caberia ali dentro, e se assim, deveria ter medido a quantidade de cinzas de cada ânfora que seria colocada lá. Agora era tarde, e de qualquer forma aquilo tudo tinha mais a ver com crendices e senso comum que uma ciência qualquer que exigisse alguma aplicação da matemática. O escaravelho tornar-se-ia novamente uma chave, e depois de abrir a porta para a qual foi feito tudo seria diferente. As opções dos homens seriam outras.
Augusto ainda estava duvidoso de seus atos, apesar de tudo. Não conseguia simplesmente passar para a próxima ânfora e assim por diante. Precisava ainda realizar um último telefone, e pelo prazer de incomodar, fá-lo-ia do telefone fixo do laboratório, para que um dia o professor pudesse ver que aquela ligação fora feita. Respirou fundo e discou.
— Alô, Paul Tewlins? Aqui é Augusto Sintra. Tudo Bem?
— Tudo bem, Augusto. Estava esperando pela sua ligação. Mas não tínhamos combinado que elas só seriam feitas por celulares com ID suprimido?
— Sim, mas tudo bem, agora já estamos seguros. O tempo é nosso aliado no momento. Alguma novidade sobre a arca desenterrada na Índia?
— Sim, muitas notícias por assim dizer. Iria até telefonar se não o tivesse feito antes. Nós interpretamos o sentido do objeto como uma peça do carro dos deuses de forma incorreta, localizei algumas citações sobre a caixa em um dos livros aqui no Egito. A arca deveria sim nos remeter ao senso comum da ‘Arca da Aliança’, e ele sim é fundamental para concluir o que encontramos nos diários. Toda a trama, pelo que pude sondar dentro do Templo de Ísis e Osíris, é mais complexa e perigosa do que imaginamos.
— Se você vai dizer que ela não é o suficiente para abrir a tal tumba, é meio tarde. Eu já traduzi tudo por aqui e estou produzindo a peça que falta, Paul, você tem idéia de como podem haver duas chaves atribuídas a culturas antigas tão distintas ligadas ao mesmo fim?
— Na verdade. São três. Essas duas chaves juntas são capazes de abrir a tumba, mas não são capazes de fechar. Ao que a sociedade acredita essa terceira peça remete a Grécia antiga, mas os caçadores envolvidos acreditam que ela se encontra sob o monte onde Jesus cristo supostamente foi crucificado. Fiquei pensando nessa conexão de culturas por dias, mas fui interrompido ao perceber que enquanto isso, os grupos internacionais aliados na busca pela tumba parecem continuar interessados em abri-la mesmo que não tenham a capacidade de fechá-la, ou descobrir exatamente o que ela guarda e significa.
— Seria pedir muito que você fosse até lá? E talvez descer na Índia no caminho para casa e ter mais um papo daqueles com Alilahara. Se as organizações chegarem até a tumba e abrirem-na na marra vai ser péssimo para o ponto de vista arqueológico e, com o perdão da piada, humanitário da coisa toda.
— Eu já comprei a passagem para Jerusalém, mas não será em poucos dias que eu conseguirei localizar qualquer coisa por lá. E mesmo que consiga, não sairia do país vivo com nada deles.
— Você ficaria surpreso com o que alguns contatos são capazes de fazer. Anote ai...
Depois de transferir a Paul os contatos do misterioso ajudante virtual que lhe enviava e-mails com pistas quentíssimas e do empresário que conhecera no vôo de São Paulo, Augusto voltou-se as ânforas, e se esquecera de pensar em quantidade de pó. Estava tão ansioso por criar a chave que abriu a ânfora de gato e enchera a mão de cinzas. Faltava muito pouco agora.
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Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006, 17h47mim – Belo Horizonte – Brasil.
Amanda Bourbon, Seu pequeno apartamento em um bairro movimentado.
“Eu deveria ficar feliz em ver que o Augusto parece não desconfiar que estou roubando códigos criptográficos do computador dele, mas a culpa é grande. Engraçado, não me importo em roubar nada das pessoas que não conheço, mesmo estando ciente do mal que estou fazendo. Já um amigo, do qual duplico arquivos que não farão mal diretamente a ele, fico absurdamente constrangida. Será que o fato do maior ‘guardador de segredos’ por aqui ser ele, aliviaria a consciência de uma pessoa normal?”
Amanda estava com os pés sobre a cadeira onde estava sentada em frente ao computador. Coberta por uma manta grossa, presente da avó. A única luz no recinto era a emitida pelo monitor do computador, ao lado do teclado repousava uma xícara com carinha de gato desenhado.
A tela aberta diante dos olhos dela era um acesso remoto a Rainha Vermelha. Agora que possuía criptografia impenetrável e usara um celular roubado na rua para conectar-se pela banda TDMA das operadoras, estava segura. As movimentações do bilionário Andrew Cage eram sem dúvida as linhas azuis mais chamativas do momento. Suas conexões levaram até governos de vários países e compras de muitos materiais suspeitos. O mais recente a encomenda de um navio gigantesco nas indústrias Chez. Um verdadeiro transatlântico que suportaria shopings, academias e cinemas, mas os projetos pareciam transforma o navio em uma espécie de cargueiro. A pergunta era, o que poderia ser transportado pelo mar que precisaria de tanto espaço? E o mais complicado, devido a outras especificações dos projetos, de onde até onde essa mercadoria seria transportada? E por que o nome Leonel Hamburgo se conectava a isso?
“É obvio que grandes nomes do poder temporal estão ligados a toda essa transação. Mas esses outros nomes do setor acadêmico se destoam do contexto. Físicos, químicos, historiadores, geólogos, biólogos, matemáticos e até psicólogos. O que esse pequeno grupo de milionários pretendia ao reunir nomes importantíssimos das mais diversas ciências? Ao que tudo indica não necessariamente os gênios precisam aceitar a oferta. Alguns foram forçados, famílias desaparecidas, bloqueio de movimentações bancarias, entre as ações mais brandas, e as autoridades parecem bem subornadas para manter a coisa discreta”.
A hacker terminou o download dos projetos completos do navio, buscou pelos computadores de bordo e alguns outros pontos controlados por chip e conectados por rede a rede mundial. Talvez fosse hora de criar mais uma peça de xadrez para os reis magos.
Usando um programa de transmissão de voz ela chamou pelo tutor do esquadrão criminoso.
— ‘Old Sky’ você esta ai?
— Sempre. Boa tarde Ísis.
— Boa tarde. Imputei alguns dados no Melquior, leia-os completamente quanto tiver oportunidade. O navio que os milionários estão construindo é assustador. Ainda não consegui cruzar dados o suficiente para entender qual é a sua finalidade.
— Já estou vendo os projetos e lendo seus relatórios, Ísis. Concordo com você, é hora de criarmos nosso primeiro corsário negro. Um controle remoto do navio e um spyware que nos envie relatórios diários de todos os movimentos internos e externos do mesmo. Seja lá o que esse pessoal planeja, precisamos estar um passo a frente. Vou começar a programar e envio-lhe para finalizar em um ou dois dias. Bom trabalho!
— Obrigada. Se conseguirmos traçar uma estratégia clara e completa, será muito mais valiosa que qualquer mega-navio-cargueiro-multi-milionário que possam fazer. Você acha que esse tal Andrew, por ser o mais poderoso em matéria de dinheiro e influência, é o líder do movimento?
— Não. O líder de alguma coisa assim não precisa ser necessariamente o mais poderoso. A constituição do grupo é assustadora, passa pela minha cabeça que só os ‘peões’ estejam tão expostos a nós. O líder provavelmente é um individuo mais esperto que todos os outros que estão se desgastando no contato direto com outros grupos e forças, competindo e por conseqüência gastando seu dinheiro e aliados.
— Mas esse líder provavelmente também possui algum poder temporal além de simplesmente ser esperto, não é?
— Bem, Ísis, já que você tornou o debate sobre a criação de um programa para controlar um navio em teorias conspiratórias, a respeito desse discreto grupo que anda movendo cordinhas curiosas ao redor do mundo, vamos discutir a magnitude da organização. Ela está seqüestrando, contratando ou até ‘abduzindo’ eu diria, grandes gênios de diversas áreas do conhecimento, está construindo um navio gigantesco e pelas compras de outros materiais, possivelmente outras construções ainda mais perigosas. Se eles quiserem começar uma guerra, na velocidade e discrição que estão indo, em dois anos poderiam jogar país contra país sem que ninguém desconfiasse da origem de todo o caos.
— É, mas isso é uma inteligência em conspiração emprestada. Os gênios envolvidos não vão necessariamente colaborar com determinados atos, estourar uma terceira guerra mundial, por exemplo, mataria inclusive as pessoas que eles estão tentando salvar. Assim como os interesses dos membros poderosos da organização cedo ou tarde vão divergir, eles vão esperar retorno que talvez não seja o que o líder esteja disposto a oferecer, eles vão trombar em alguma nação não disposta a colaborar ou pisar no calo de alguém mais poderoso. Esse líder vai se mostrar tão útil quanto um peso de papel.
— Ísis, isso tudo é uma teoria de conspiração sobre outra teoria da conspiração. Sujeita a inúmeros pontos de exagero.
— Eu imagino estar falando a verdade, Old Sky. O que adianta um líder genial que não é capaz de se defender? Não há carisma que sustente a dedicação total de pessoas tão poderosas sem oferecer algo tão grandioso ou mais em troca.
— Faz sentido. Mas chegaremos nesse debate quando descobrirmos quem é o líder. Boa noite, Ísis.
— Boa noite.
A voz daquele homem mexia com a imaginação de Amanda, se ele fosse realmente tão bonito quanto Papilon insinuava ou a metade da beleza da voz, ele seria no mínimo um deus grego. E quando essas coisas passavam pela mente dela, ela mal sabia a ironia que isso representaria muito em breve.
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Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006, 18h12mim – Belo Horizonte – Brasil.
Augusto Sintra, laboratório de história da universidade federal.
Só restava um punhado de cinzas agora. A ânfora que conquistou de Julio Dantes, pai de um de seus melhores amigos, Gabriel Dantes. Pai o qual não se dá nada bem com o filho. Um responsabilizando o outro pela morte da mãe-esposa e filho-irmão em um estranho acidente de carro anos atrás. E qual era a dor de Augusto ao saber a procedência da verdade sobre esse incidente, e de como esse mal estar entre os dois poderia se tornar muito pior se Gabriel soubesse.
A tampa com cabeça de serpente foi posta de lado. Serpente como o que o amigo tinha tatuada nas costas e cobria como um segredo. Marca do evento que estranhamente o envergonhava, realidade que possivelmente só Augusto sabia graças a uma noitada regada com muito álcool e confissões não recordadas. Não completamente. A mão cheia das últimas cinzas do que parecia, agora que o arqueólogo observava melhor, uma espécie de ritual macabro de oferenda a deuses esquecidos anteriores aos mais antigos. Era como ofertar as migalhas ainda existentes das crenças em Anúbis, Bastet, Hórus e Set no antigo e adormecido deus Kephera, que segundo poucas inscrições e relatos era um deus perdido do egito. O deus escaravelho que nunca mais voltou depois de se enterrar sob as areias do deserto do Saara. Era uma apologia circunstancial, Kephera foi um arqueólogo azarado.
O último punhado de pó foi despejado sobre o escaravelho que o absorveu faminto. O besouro pareceu inchar, e depois abriu, como uma pequena caixinha de jóias excêntrica. Augusto observou pequenos mecanismos no interior do objeto, as pernas do escaravelho pareciam agora serem capazes de se mover, como pequenas alavancas. Uma tecnologia muito avançada para a época que o teste de carbono quatorze remetia.
“Meu deus! Só isso já seria capaz de me garantir um busto e uma placa em varias faculdades pelo mundo.”
Aproximou o rosto da peça para perceber melhor cada pequeno detalhe do novo formado do brinquedo divino, haviam mais inscrições em seu interior e o arqueólogo já estava tão habituado com a maioria daqueles símbolos que traduziu algumas passagens com facilidade. A principal inscrição dizia: ‘que seja feita a fossa vontade’. Uma quadrinha católica, não deveria estar ali. Ele moveu uma das pernas do escaravelho, os mecanismos se moveram em resposta até que uma determinada peça borrifou as cinzas misturadas no rosto de Augusto.
Ele cambaleou e trombou em alguns objetos pela sala, derrubando papeis e instrumentos no chão, fazendo um barulho considerável. Quando caiu de costas alguma coisa fez seu ombro doer, mas antes de ver o que era ficou tonto, as vistas embaçaram até que desacordou.
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Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006, 22h57mim – Belo Horizonte – Brasil.
Gabriel Dantes, seu apartamento razoável próximo à futura linha verde.
“Imagine-se deitado de costas para o chão frio olhando um céu limpo cheio do brilho perpetuo das estrelas. Mas não simplesmente o céu, como se existissem vidros negros obstruindo a perfeição da visão. Essas paredes blindadas se fechando sobre você dando uma estranha sensação de claustrofobia, se olhar bem esses vidros formam uma pirâmide sobre você, como um passeio por baixo dos jardins do museu do Louvre. E então você repara a parte mais estranha do sonho... é importante dizer que eu estou sonhando. Flutuando no meio disso tudo, sentado em posição de lótus eu vi duas figuras mitológicas facilmente reconhecíveis, até por mim, afinal ao longo da vida era inevitável ficar escutando toda a ladainha que Augusto repetia sem parar nos cafés. Ele, a primeira figura flutuando, é um homem com vestes douradas que possuía uma cabeça de chacal no lugar da humana. Segurando quatro cartas de baralho com a mão esquerda e olhando para a mulher, a segunda figura flutuando, diretamente no rosto, acompanhando seus olhos. Ela era uma mulher com cabeça de gato e segurava uma quantidade incontável de cartas de baralho com as duas mãos, olhando-as distraída como se o homem-chacal não estivesse ali. Entre as duas figuras poucas outras cartas flutuavam como se dispostas em uma mesa invisível.
— Nós estamos roubando, não é, Bastet? — Disse o homem com cara de Chacal. E por um momento ela desviou os olhos das cartas para encará-lo nos olhos.
— Não Anúbis. Nós só estamos trapaceando.
Não que deveria fazer algum sentido, na verdade não fez nenhum. Mas quando eles iam falar novamente, talvez clarear um pouco as coisas, eu acordei”.
Gabriel acordou no sofá velho de estimação de sua sala de estar. Manolo,seu cachorro da raça Akita olhava-o curioso do tapete onde estava sentado. O policial sentia um pouco de dor de cabeça e ao deparar-se com figuras da mitologia egípcia lembrava-se desagradavelmente do incidente diabólico que sofrera durante o seqüestro. Ele tinha sonhos curiosos semelhantes a esse deste de que sofrera naquele lugar que percorria as vielas de seus subconsciente e o perturbava nos momentos mais deprimidos. Aquele sonho chamou-lhe a atenção em especial por remeter a Augusto, que tinha em sua sala de estar uma estatueta de chacal sobre o aparador ao lado de alguns porta-retratos com fotos dos amigos ou de escavações, e de Amanda, que além de ter uma gatinha, adorava adornos em geral com essa aparência. E o comportamento estranho que ambos andavam tendo, como se estivessem escondendo algumas jogadas de uma campanha de segredos.
Ele sentou-se no sofá e olhou para além da janela, notando o céu sem lua mas cheio de estrelas muito parecido com o do sonho. Tentou lembrar-se se olhara para o céu antes de adormecer, e na tentativa descobrir que não se lembrava da última vez que olhara para a noite. O cachorro branco levantou-se também e bufou, como se conversasse com seu dono, depois abanando o rabo saiu da sala em direção a cozinha. As costas largas e musculosas de Gabriel estavam ensopadas de suor, apesar do frio que fazia, parecia que acabara de despertar de um pesadelo. Seguiu o cachorro e na cozinha apanhou na geladeira uma garrafa long-neck de cerveja, abriu-a de deu uma grande golada, nada melhor de qualquer evento fora do normal. Instintivamente foi até o balcão que separava a cozinha da sala e usou o celular para ligar para ela.
As vezes ele pensava no porque exatamente daquela amizade. Eles não combinava tanto assim, na verdade em silêncio eles discordavam o tempo todo, suas vidas tomaram sentidos tão diferentes que seria melhor deixar tudo de lado e partir para um empreitada diferente. Talvez aceitar uma promoção no trabalho para outro estado, ou submeter-se ao desejo de alguma das ex-namoradas que insistiam em ter um tempo maior para elas e menos para os amigos. Mas ao ouvir a voz dele ele despertou desse devaneio perigoso, sentia-se de certa forma responsável pelos amigos, como se fosse o mais próximo de uma bússola moral que eles tivessem algum acesso.
— Alô, Gabriel? — Disse uma voz doce recém desperta do lado de lá da linha.
— Oi, ‘Mandica’, não diga que sonhou de novo com alguma coisa parecida com o que sonhei.
— Se tiver alguma coisa a ver com deuses egípcios que eu não me lembro bem os nomes, sonhei sim.
— Bastet e Anúbis, segundo o ‘blá-blá-blá’ do Augusto.
— Vamos reunir a turma?
— Sim, ligue para um, que eu ligo para o outro.
— Até mais.
Os telefones foram desligados e então, levando a cerveja a boca, disse:
— Até mais, Bastet.
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Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006, 23h07mim – Belo Horizonte – Brasil.
Augusto Sintra, laboratório de história da universidade federal.
Augusto acordou no chão do laboratório de história nos fundos do prédio que passara horas de sua vida nos últimos anos. Levantou-se com dificuldade e dores em vários pontos do corpo, fixou os olhos desacostumados com a luz nos objetos sobre a mesa, o escaravelho agora aberto com os mecanismos a mostra e se lembrou de quase tudo que os hieróglifos diziam ao longo de toda tradução.
Agora sim a peça tinha o formado exato para encaixar-se no fundo, onde as patas do escaravelho transpassariam as pequenas aberturas, da caixa desenterrada na Índia, essa era uma informação que Leonel não poderia ter. A garganta estava muito seca e sentia calafrios assustados. Arrancou varias paginas das anotações de tradução, colocou-as dentro do diário de capa escura e guardou-os junto com o escaravelho dentro do bolso da jaqueta que repousava em sua cadeira. Despiu o jaleco sujo de cinzas e vestiu a blusa para o frio. Tinha a sensação de ouvir vozes, mas sabia que não era de ninguém real por ali, era como se ouvisse ao longe o resto da conversa entre os deuses que conversavam enquanto ele estava desacordado. Aquelas vozes pareciam com as que ouvia na juventude, quando chegou a pensar que estava louco.
“As vozes que me mandavam reunir meus velhos e incomparáveis amigos e contar-lhes que o mundo vai acabar”.
Saiu da sala, conferindo se carregava tudo o que era primordial. Trancou a sala, um hábito imperceptível. Caminhou, sonso, para fora, despediu-se do segurança noturno e com dificuldades chegou até o carro. Era hora de contar a todos o que estava por vir, assim que sua cabeça parasse de girar e doer e pudesse se concentrar...
“O que era mesmo tudo isso?”.

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