29 de fevereiro de 2008

Falso Cognato. (Um conto para a crônica Imperia)

Quinta-Feira, 19 de Outubro de 2006, 18h47mim – Allahabad – Índia.
Archa Borlins e Alilahara, a tenda sinistra da vidente.

“Sarasvati”.

Pensou pela última vez a francesa ao despedir-se da junção dos rios Ganges e Yamuna. Ela acompanhara em seu coração tantos filhos de Hórus que passaram por aquela cidade e nenhum deles olhou, mesmo que rapidamente, para um lugar tão belo. Ali era um dos pontos onde caíra uma das gotas da taça da imortalidade plena, disputada por deuses e demônios do hinduismo. Somente o toque de Donovan Staique poderia caracterizar prova, e ela gostava muito que as coisas fossem provadas, apesar de tudo. Contudo estava inclinada a acreditar que Alilahara era mesmo uma entidade imortal, fosse devido ao cálice ou por sua natureza em si, bastava agora decidir qual seria sua possível espécie, deusa ou demônio? Na Índia era mais difícil saber.


O crepúsculo completava a paisagem, escurecendo as muitas cores do país. A tenda escura era difícil de notar, não se seria encontrada agora se já a não tivesse sido antes. Existia poucas plantas por ali, tudo era composto de lonas, tecidos e pessoas com muita roupa. Rostos de ciganos e sábios, comercializando pequenos objetos com tanto sentimento que tudo parecia de estimação. Archa deteve-se em meio a grande feira encarando a morada da criatura. Seria realmente seguro visitá-la? Mesmo misturando-se bem com a moda local, disfarçando sua beleza amadurecida e sua postura cosmopolita com cores fortes e lenços em torno do rosto, ela sentia-se vulnerável, acostumada a manter distâncias seguras da ação, Acompanhando de longe os passos de seus irmãos, o que parecia já não ser suficiente. Ela também precisava agir para direcionar alguns pequenos fatos, e era curioso como tantas cosias convergiam para a presença daquela mulher, ou monstro, que parecia diferente para cada concepção dos sentidos dos visitantes anteriores.

A sensação que experimentava, diante daquele último arco antes do encontro, era medo. Medo de colocar-se diante de uma aliada de seus inimigos, pois todos eram suspeitos. Medo de não sustentar suas convicções e ser direcionado para outros caminhos, o que acontecera aos outros filhos de Hórus que ali estiveram. E principalmente medo da verdade, para Archa a mentira ainda era um escudo confortável e resistente.

Ela adentrou na tenda, respirando fundo para relembrar a mulher poderosa que é. O maior alvo dos caçadores por ser a mais preciosa das presas. Não, presa não. A mais celebre de todas as premiações, e estava disposta a afirmar que não existia competidor digno de ostentá-la.


Sob seus pés ela sentiu o tapete felpudo da entrada e imaginou de que tecidos era feito. Fora isso só restava-lhe escuridão.

— Boa noite, Archa. Eu sempre soube que você viria sozinha, mas se me permite a curiosidade, você conseguiu encontrar o lugar graças aos sentimentos de qual de teus irmãos?

A voz aveludada, que terminava cada frase com um leve chiado deslizou entra a escuridão palpável do interior daquele lugar. A luz de fora parecia não penetrar pelo arco atrás de Archa, que por um impulso de educação, acessado pelas emoções dos outros filhos que ali estiveram, fechou a cortina rapidamente. Era incomodo para ela lidar com alguém que parecia saber tudo sobre todas as coisas que não faziam sentido em toda a canção. Ela reafirmou para si mesmo a resiliência que era capaz de manifestar. Depois da voz calar-se a sala tornou-se tão silenciosa quanto a morte. Não restara som algum, não existia mundo lá fora.

— A intuição para localidades de Amanda Bourbon e as sensações de familiaridade de Robert Chambers me trouxeram aqui. Os demais foram guiados por sua mágica, estou certa? — Archa disse calmamente, e exceto por sua própria noção de existência, aquilo poderia ter acontecido centenas de anos no passado, quando o ser humano não era a coisa mais comum sobre o solo. Ou, ela refletiu rapidamente sobre o assunto, de acordo com as emoções de seus predecessores, centenas de ano no futuro, quando o ser humano será o mais comum sob o solo.

Um pequeno ponto de fogo brilhou rapidamente alguns metros diante de Archa, a silhueta que percebera nesse instante fugaz era ainda diferente das que sentira antes, mesmo para as memórias de Chambers. Agora o único foco de luz no local que permitia Archa ter uma vaga sensação de espaço era a brasa do cigarro de cheiro forte que sua anfitriã sustentava na ponta de uma longa varinha de pitar.

— Sobrenomes. Você gosta deles, certo? Prefere que eu chame você de Archa Borlins? Eu não tenho um sobrenome. Nenhum dos meus iguais tem sobrenome, alguns nem mesmo tem um nome. Como os deuses em geral. — O chiado no fim das palavras pareciam carregados de certo rancor, a voz não se desvencilhava de dores de um passado marcado na escuridão e no sigilo do som.

As pupilas da artista não se acostumavam com a escuridão de aspecto artificial. Nada se tornava perceptível para ela. Não podia se basear nas sensações alheias, pois eram divergentes e confusas naquele lugar, ela mesma experimentara antes aquela sensação ao ‘perder de vista’ os filhos de Hórus que entravam ali e vê-los novamente após muito mais tempo do que suas memórias sugeriam.

— O que é você, Alilahara? Como sabe tanto sobre tudo o que o mundo sabe tão pouco? — Arriscou-se em ser tão direta, mas agora que estava ali tinha muita vontade de ir embora, quanto antes tudo o que lhe engasgava fosse dito, melhor.

— Me percebem como uma vigia do tempo. Apesar de minha preferência pela expressão ‘observadora’. Não sou muito diferente de você e seus irmãos, mas fui voluntária para essa situação. — Suas palavras sempre carregadas de insinuações de mais perguntas, sempre assim, as respostas vagas que faziam seus interlocutores pensarem.

“Ela sabe.” Pensou Archa. “Sabe o que eu sofri no Ártico, sabe de minhas motivações e da vingança que arquiteto contra os Iluminados e os Observadores das brumas.” Não sabia se a anfitriã era capaz de enxergar no escuro, e por precaução esforçou-se para não demonstrar medo. “Não, ela não pode saber. Ninguém pode, porquê ninguém sabe.” Cogitava a idéia do que Ariele Nid absorveria se visitasse aquele lugar, tentou conectar-se a jovem, sem sucesso, aquela tenta era como um bloco de rocha que nem mesmo os sentimentos eram capazes de escapar.

— Este é o ponto. O tempo. O que antecede os deuses, não há deus do espaço pois é infinito e não começa em lugar algum, não há deus do tempo porque sempre existir descarta princípio. Mas são forças cultuadas, constantes do paradigma do amalgama das crenças dos homens e por isso mais poderosos que todo o resto. Todos acreditam no tempo e no espaço. — Uma pausa para o trago no cigarro. — Você sente o manipulador do tempo, não é? Sabe que tudo começou com ele e tudo terminará com ele. O problema, e não é um desafio deduzir, é quando é começo e quando é fim.

Uma baforada de fumaça pode ser percebida em torno do pequeno circulo de luz proveniente da brasa do cigarro. Aliliahara movimentava-se pela sala agora. A vaga visão que o ‘vaga-lume’ projetava tornavam os movimentos da anfitriã semelhantes ao mesmo tempo a uma cobra e um felino. Ela voltou a falar:

— Você é sem duvidas a mais capaz entre os herdeiros de Hórus para entender tudo isso, Archa Borlins. Você pode responder perguntas mais relevantes. Hórus o deus do céu, herdeiro do olho e do poder do próprio pai, inimigo declarado e dedicado das forças de Set, o mal personificado de sua mitologia. Essas semelhanças te mostram algo? Você compreende a visita dos anjos?

Involuntariamente Archa tentou acessar alguns dos demais herdeiros ao redor do mundo. Muitos lembranças despertavam rapidamente. E por um instante ela percebeu a luz da verdade, a verdade que tivera medo desde o monto que percebeu a tenda. O medo que tinha desde que chegou a Índia.

— O deus cristão é uma manifestação de Hórus. Eles são a mesma entidade. Um deus águia daria a aparência aos anjos. Set ocultou-se sob as areias, o inferno, para fugir do rei dos céus que ele tentou roubar para si, Hórus mandou seus filhos a terra para guiar as almas dos mortos e limpar-lhes dos pecados. Toda a mitologia cristã é a mera troca de nomes e amenidades oferecidas pelas metáforas. — As próprias palavras pareciam trair a resistência da artista em acreditar no que pensava. Era simplista demais deduzir algo tão relevante com nenhuma prova. — Se o deus fragmentado é na verdade o deus cristão, ele destituído e preso aos corpos mortais deixou os céus livre para ser tomado pelas forças do mal. É esse o julgamento final, a era em que os homens que herdaram Deus representam à humanidade na oportunidade de se redimir de todos seus pecados e ascender o mundo para um nível elavado. Ou condenar a todos ao fogo da danação. Aqui pode ser o paraíso ou o inferno.

Essa ‘descoberta’ criava uma seqüência de outros pequenos focos de luz que desdobravam gradativamente todas as referencias de uma mitologia a outra. A serpente, a fruta da árvore da vida, a mortalidade de cristo, sua ressurreição, o beijo de Judas nos jardins das oliveiras, o mundo manteve Hórus na posição máxima. A trapaça das outras divindades não se referia a permitir que o deus egípcio assumisse o lugar desse deus atual e mudasse o mundo, a trapaça era livrar o mundo desse deus e então assumir seu lugar como força coletiva, o coração da guerra era a terra, e no chão seria decidido o destino da criação. O mito da caixa de Pandora agora era compreensível, se aquele objeto guardado no Chile era o recipiente capaz de guardar todas as virtudes do mundo, seria sim, capaz de guardar os fragmentos da alma de Hórus, Jeová, e talvez assim reconstitui-lo. Qual seria a opção correta?

— Você é quem deu as respostas, Archa Borlins. Existe um propósito para o livre arbítrio e talvez esse seja o momento para o qual o plano divino incluiu esse detalhe.

Quando a brasa desapareceu, a artista não esperou por mais palavras, os iluminados tinham agora outro papel no mundo, e Set se mostrara mais perigoso do que supunha. Ela partiu da tenda, no meio da escuridão absoluta da ignorância humana ela percebera a luz dos grandes manipuladores da história. Era hora de produzir arte, uma exposição que o mundo jamais iria esquecer. Pois seria feita pelas mãos do próprio Deus.

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