17 de março de 2008

Só passos com a solidão

“O palácio sempre foi muito bonito. Gosto do contraste de curvo e reto”.

Elogios deveriam ser sempre bem vindos. Descartando as intenções por trás destes, e aqueles outros intuitos que eles nos fazem ter vontade de retribuir, de fazer algo mais. É engraçado pensar que alguém ainda gosta do castelo mesmo ele estado tão abandonado e decadente.

Então já era hora de mudar alguma coisa.

Abrir todas as janelas, portas, basculantes e clarabóias. Deixar o sol entrar. Tirar todos os lençóis brancos fantasmagóricos de sobre os móveis, perceber novamente como as coisas ficam com a luz passando pelo vitral do anjo Raphael. Os jardins também precisariam de mudanças, mas ali o proprietário precisaria de ajuda, não era bom com plantas.

Depois de varrer e espanar, arrastar e pendurar, guardar e consertar, ele pensou em que fazer com tantas janelas e sacadas. Mesmo gostando da luz não se sentia totalmente seguro com tudo aberto e grades ficariam terrivelmente sem harmonia.

A marreta derrubou paredes. Alguns pisos do palácio ficaram mais parecidos com enormes ‘lofts’. Agrupou os quadros em uma parte, sobre um degrau que virou longo palco baixo. Ficariam agora em suportes, como se ainda estivessem sendo pintados, memórias em expansão. Agora poucas janelas iluminariam muito mais. Fechou algumas, era um palácio mais sóbrio finalmente.

Antigamente escreveria com tinta preta nos arcos das portas, vão-se as portas, as letras tem de ir para outro lugar. O chão se prontificou, se não haviam mais tantas paredes, os cômodos seriam divididos por textos, e diante da maior sacada escreveu com letras quadradas e claras:

“Não vou viver, como alguém que só espera um novo amor. Mesmo que seja repetido”.

Era uma boa lembrança, uma ideia clara e objetiva. “Você tá lindo. Sempre te achei lindo”. Foi o que disse a construção vizinha quando viu o palácio império depois de pintado e limpo.

“Há outras coisas no caminho aonde eu vou”. Escreveu no primeiro degrau da porta dos fundos, letras vermelhas. O bom detalhe do lugar era todo feito assim, em preto, branco, cinza e vermelho. Lustrou as correntes que guiavam as águas da calha ao chão, correntes finas para não ser grosseiro com o lugar. Só faltava as plantas.

Até o cachorro já era visto por lá novamente. Dois até. Agora vinha uma bola branca e mínima abanando um espanadorzinho de pelos na bunda. Não parecia muito perigoso, mas esse era o nome dele.

Subiu ao sótão e pendurou a correntinha de prata na madeira do telhado. Sob ela, no chão, escreveu em um circulo: “As vezes ando só trocando passos com a solidão. São momentos meus que eu não abro mão”.

Não daria uma festa de reinauguração, mas sentia-se tão feliz quanto.

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