Estamos nos jardins dos pensadores. Eu e mais alguns que me conhecem tanto quanto os conheço, amigos, conhecidos ou aliados já de muitas vidas seguidas. Nós falamos muito sobre muita coisa, de tudo ou mesmo teorias sobre o nada. Falamos sobre os outros também, pensadores que não estão aqui no jardim agora, pessoas que não conhecemos pessoalmente e personagens que se parecem com nossas múltiplas personalidades. Então um outro me disse: ‘Não gosto do sangue’, e isso me bastou para mudar um pouco de tudo. Tirei todo o sangue, joguei-o o fora junto com a metáfora que ele representou, mesmo que fraca, em uma outra época da minha humilde (ou nem tanto) existência.
Viva a liberdade de expressão que essa brincadeira de literatura que me degusto em farrear pelas veias do virtual! Aqui onde falo sem prestar atenção no combate de egos de um setor empresarial, nem do lidar com a arrogância universitária ou tomar cuidado com os passos na rua ao driblar a guerra humana de viver em sociedade. Aqui onde quase todos morrem de medo se expor, escondidos atrás do temor sobre o outro ler; onde na verdade encontra-se o medo maior em não conseguir se explicar com palavras. Aqui onde é lugar de descanso do mundo real. Estamos sentados no banco mais bonito do jardim e falamos sobre falar, sobre a coragem necessária para mudar de opinião. De como encontrar diversão nessa fase chata de deixar realmente de lado alguns dos últimos traços da adolescência que permaneciam em nós e caminhar com passos incertos pelas mandíbulas do capitalismo selvagem (e parabéns à música por esse adjetivo perfeito) sem saber manusear as armas de auto-proteção. Falamos de fracassos e conquistas. Nada muito trágico, nada mundo fabuloso nem fantástico.
Lembramos-nos de como é ser ‘um menino sonhador’, de como ele chegou e nos superou em determinação. Lembramos dos demônios internos que preferiram permanecer dentro de casa para sempre, do cachorro divertido que mastigou o livro de Kant e se tornou mais inteligente, lembramos-nos do amigo ausente cuja bondade superou sua humildade ideológica (Essa aqui é difícil mesmo de deglutir). Lembramos do pai de família, do caçador de fantasmas e do bobo tímido. Lembramos das garotas (e garotos) que nossos olhos ‘secaram’ na escola para abastecer a mente do combustível necessário para as primeiras ‘crises’ poéticas e inspirações literárias. Lembramos das primeiras palavras que deixaram de ser escritas e começaram a ser desenhadas. Lembramos da preguiça, da inveja, do orgulho e tantos outros que nos acompanharam por momentos perdidos. Momentos encalhados na divisa do passado com o esquecimento, lembranças ancoradas em um momento sem nome...
Sem nome. E o poder do kiwi para onde foi?
Foi para ele. É dele. E de alguns outros também. O kiwi é uma aranha. Temos medo de aranhas, mais do que de baratas e menos do que de jacarés. Mas o kiwi também é um homem. Toda criança tem mais facilidade de entender.
Agora estamos aqui sentados no alto dos bancos baixos. Talvez mais gastos (Sábios?). Todos com certeza precisando cortar o cabelo. Alguns até precisam fazer a barba. Outros ainda já usam óculos de velhos, como se já não pudesse mais ler. O tempo corrompeu-nos e estuprou nossa juventude, mas não arrebentou essa linha amarela que ‘arte finaliza’ nossa amizade. Por isso aqui estamos. Mesmo entre conflitos sociais, acadêmicos, econômicos, intelectuais e políticos, nós permanecemos ligados a mesma força imaginaria.
Enquanto conversamos tem uma jovem cuja maior ganância da vida é o mais novo aparelho de telefonia móvel do momento. Enquanto conversamos um rapaz sai do interior para ir ‘se dar mal’ na cidade grande. Enquanto conversamos uma desconhecida morre na fila do hospital público por ter usado todo o dinheiro na universidade de medicina do filho. Enquanto conversamos muita gente está preocupada em como cobrir o cheque que cairá no banco. Enquanto conversamos pessoas estudam para o concurso público que vá lhes permitir ‘morcegar’. Enquanto conversamos há um professor que não ensina devido ao baixo salário que receberá. Enquanto conversamos vemos a ‘industria paralela’ falsificar as músicas prostituídas da nossa década. Enquanto conversamos temos diretores se entendo profundamente com suas secretarias e as esposas com seus cartões de credito. Enquanto conversamos um mendigo é assaltado em plena luz do dia. Em quando conversamos um babaca cai em golpe por telefone. Enquanto conversamos alguém vê seu berço de ouro transformar-se em madeira de caixote de maça. Enquanto conversamos há pessoas sem ter com quem conversar.
E todas elas tem medo de aranhas. Menos do que de baratas e mais do que de jacarés, mas nunca pensaram nisso.
Na ausência desses mundos influenciados pela mídia... E porque não licitados por ela? Já que nossa capital é estado e nação ao mesmo tempo, mesmo sendo filmada em lugares diferentes. Na ausência desses mundos, conversamos. E parece que estamos perdendo nosso tempo, mas não! Não estamos não. Conversando nós rejuvenescemos e frisamos a linha amarela. Conversando no banco do jardim nós evitamos riscos indesejáveis. Conversando nós criamos nosso próprio universo e vivemos nele segundo nossas próprias regras. Conversando nós caminhamos sob nossa própria órbita e inventamos novas histórias distanciadas das palavras que ficam nas veias.
Todas as histórias são do kiwi. Todas as histórias são herança de quem tem o poder dele. É tudo uma questão de sonho.
E é sobre isso a metáfora perdida do sangue.
Até que o ‘menino sonhador’ acorda.
Um dos seus melhores textos que eu já li.
ResponderExcluir