Domingo, 15 de janeiro de 2006, 06h42mim – Ponto 0 – Ártico.
Augusto Sintra, Paul Tewlins, Archa Borlins e Zaridus Medidedaneo, a pirâmide escavada abaixo de uma cúpula tecnológica armada no gelo.
Augusto Sintra, Paul Tewlins, Archa Borlins e Zaridus Medidedaneo, a pirâmide escavada abaixo de uma cúpula tecnológica armada no gelo.
"Faz um frio danado aqui. Para alguns isso tudo foi a coisa mais importante de uma vida inteira de dedicação. Para outros é a pior experiência que alguém poderia passar. Para outros tantos foi só a morte".
Augusto Sintra acabara de acordar e sentia seu corpo todo dolorido. Estava escuro ao seu redor, e tudo do que se lembrava instantaneamente o levava a concluir que estava morto. Aquele lugar provavelmente era uma ante-sala do inferno. Ele preferiu ficar deitado com seus pensamentos por mais algum tempo, os músculos machucados não respondiam de imediato.
— Típico. Eu quero Leonel Hamburgo aqui o mais rápido possível. Os observadores não se reuniram aqui no momento mais esperado por todos eles, isso me parece péssimo. — A voz incomodava os ouvidos, existia um certo eco naquele lugar. A língua árabe de quem falava era perfeita e melodiosa, mas ainda assim incomodava ouvi-lo. — Quero que esse momento seja exatamente como planejado. Perfeito.
Augusto virou um pouco a cabeça, da forma mais discreta possível. Queria ver quem é que estava falando, afinal parecia que todos os envolvidos naquilo tudo, salvo os que foram parar ali sem saber exatamente do que se tratava, haviam morrido após o clarão proveniente da abertura da pirâmide. O homem estava usando um terno que parecia caro, mas como conseguia resistir a todo aquele frio?
— Paul! Venha cá. — Augusto viu seu colega de faculdade aproximar-se, não era estranho perceber que ele também fora arrastado para aquilo tudo. Ao menos ele estava usando a pesada parca que fora distribuída para todos os outros. — Depois da mutilação, o que temos de fazer é eliminar os incômodos. Precisamos identificar a conexão. Quem aqui tem o cheiro de todos os outros? Quem fede como a mistura de todos os odores?
Paul respirou fundo e depois farejou o ar. Não como um animal, e sim com uma elegância que não combinava com o gesto. Ele olhou direto par Augusto, que fechou os olhos rapidamente na esperança de não ser notado. Os passos que ouviu foram em outra direção, o amigo parecia tê-lo ignorado propositalmente.
— É ela. Não creio que esteja em condições de ajudar, ela esta desacordada. — O árabe de Paul não era tão bom, mas sua voz era agradabilíssima se comparada ao outro homem. — E mesmo que ela acorde, ainda não seria capaz de controlar as próprias habilidades. Não conseguirá acessar sua fração da alma de Hórus por alguns dias até seu aspecto humano conseguir lidar com a instrumentabilidade. Talvez fosse melhor aguardar a chegada dos outros, Andrew pode identificar os que procura.
— Você não esta aqui para dar palpites, demônio. Apenas me obedeça, calado. — Terno caro, como Augusto o chamaria, aproximou-se da mulher desacordada no chão, ajoelhou-se a seu lado e virou-a para cima analisando seu rosto. — Eu conheço essa mulher, é Archa Borlins, uma famosa musicista e colecionadora de arte. Francesinha arrogante.
O homem deu-lhe alguns tapas nas faces até que ela despertasse com olhar confuso. Ela olhou para ele e depois para Paul de pé ao lado, esquadrinhou o lugar a sua volta e disse, meio engasgada pelo tempo muda:
— O que aconteceu!? Não consigo entender bem... Havia um homem águia e ele foi desmembrado, uma luz tão forte... Uma paz tão grande... À canção era maravilhosa. — Archa falou em francês. Só então ela notou o tipo de roupas que o homem usava, e a expressão no rosto dele. — Não sente frio? Qual seu nome?
— Eu sou Zaridus Medideneo, mas você deveria referir-se a mim como Senhor. — Então ele deu um forte tapa no rosto da moça com as costas da mão. O grito dela não o fez recuar, Augusto assustou-se com o comportamento, pensou em intervir, mas não conseguiria nem mesmo ficar de pé. Zaridus agarrou a mulher pelos cabelos e levantou-se, obrigado-a a sustentar-se sobre as pernas bambas. — Quem, entre esses vermes aqui é o anulador?
Uma lagrima escorreu dos olhos lacrimejados da mulher, o couro cabeludo doía muito. Paul atrás dos dois não gostava da situação, não queria ver mais sofrimento ou morte, permanecia em silêncio porque a vida de sua esposa e filho dependiam disso. A maldade dos Observadores ia muito além de tudo o que ele já presenciara.
— Eu... Eu não entendo o que esta falando... — Archa falou entre soluços. — Não entendo seu idioma...
— Me obedeça, mulher! — e depois dessa frase passou a conversar em francês, e parecia tão perfeito quanto o árabe. Mas Augusto não entendia nada do que falavam.
O homem gritava com ela, ela choramingava como resposta. Ele puxava o cabelo dela cada vez mais forte e repetia alguma coisa apontado para as pessoas caídas em toda a sala. A escuridão e a distância não permitiam Augusto contar ou identificar quantos estavam caídos ali, mas pareciam muitas.
Depois de alguns instantes de gritos e choros, Terno caro empurrou a mulher para longe com violência, fazendo-a cair no chão e gritar mais uma vez de dor. Ele virou-se para um ponto fora da visão de Augusto e voltou a falar em árabe:
— Tragam-me o escaravelho! — Passos distantes foram ouvidos. — Se quer algo bem feito, faça você mesmo.
Caminhou novamente em direção a Archa, que se encolhia e tentou arrastar-se para longe dele. Ele pisou nos calcanhares da musicista, apertou-os e girou o pé para causar dor. Ela gritou ainda mais, já sem forças para lamentar. Augusto não entendia nada de francês, mas sabia intuitivamente que ela estava suplicando por misericórdia.
Barulho de passos se aproximando, outro homem vestido com pesadas roupas militares entregou o escaravelho que Augusto estudara para terno caro, todos os estudos apontavam o objeto como uma espécie de chave mística, sendo capaz de libertar algo espiritual. E só quando Terno caro forçou a peça contra as mãos relutantes de Archa, Augusto finalmente entendeu o que isso significava.
A peça moveu suas partes mecânicas como se tivesse vida própria. Emanava uma luz fraca. Archa teve uma espécie de espasmo, inspirou a quantidade máxima de ar possível para seus pulmões. Mas antes que os resultados pudessem ser realmente percebidos, Terno caro bateu novamente na face da mulher.
— Quem é o anulador? — Berrou próximo aos ouvidos de Archa, e apesar de falar em árabe, dessa vez ela entendeu. — Aponte-me o anulador!
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Domingo, 15 de janeiro de 2006, 07h05mim – Allahabad – Índia.
Daniel Lancaster e Alilahara, a tenda sinistra da vidente.
Domingo, 15 de janeiro de 2006, 07h05mim – Allahabad – Índia.
Daniel Lancaster e Alilahara, a tenda sinistra da vidente.
— Sua ajuda foi de extrema importância, Alilahara. — Disse o ex-médico enquanto olhava através do cristal em forma de triangulo. — Se garantirmos que nossos possíveis aliados entre os filhos de Hórus sobrevivam, conseguiremos abrir o templo do tempo.
Daniel ficara grato pelo fato da mulher permitir que ele usasse o dom do cristal dentro da tenda. Ficar desnorteado pela escuridão evocada era desagradável, logo, as cores mesmo pálidas fornecidas pelo cristal mágico tornavam a permanecia ali mais suportável.
— Nós só estamos garantindo que aconteça o que já aconteceu, viajante. — Ela estava atrás de um biombo que embaralhava as cores vistas pelo cristal. Por muito tempo no futuro, Daniel teve curiosidade sobre qual seria a cor da aura dela, e quando viu a mais brilhante das possibilidades do púrpura não se surpreendeu muito. — Seu simulacro aqui esta seguro, até que seja hora de levar Paul de volta ao momento final que tem de desempenhar.
Eles já haviam conversado muito sobre a necessidade em permitir que Paul Tewlins morresse dentro de pouco mais de um ano. Se o amigo não morresse ali, naquelas circunstancias, Larrisa jamais voltaria ao lado deles na odisséia. Pensar sobre a seqüência do tempo daquela linha já era repetitivo, mas sempre doía lembrar de dois detalhes: primeiro que enquanto estava sentado ali, sua esposa estava morrendo nos braços de seu corpo verdadeiro; segundo que a missão final de Paul só fora possível com a ajuda do odiado Robert Chambers. Daniel não conseguia pensar em nada que o torturasse mais que essa combinação. Para salvar a filha tinha de abrir mão de duas pessoas queridas e contar com o apoio de um de seus inimigos.
— E quanto a Yui, quando devo devolver-lhe as armas? — Perguntou um orgulhoso Daniel e segurava entre os dentes as lágrimas ao perceber que naquele momento sua mulher estava dizendo as últimas palavras na Inglaterra. — Os trezentos fragmentos do avatar de Mammon já foram espalhados e então precisamos recolhê-los na Arca da Aliança para eu que possa criar uma falsa...
A figura feminina deslizou de trás do biombo com movimentos inumanos até parar com os olhos brilhando em um amarelo diabólico centímetros de distancia da face do caçador. Ela bufou de forma ofensiva e voltou a se afastar.
— Sabe que eu não concordo com essa idéia, viajante. — Disse enquanto se acalmava. — Isso vai contra leis anteriores ao ser humano. Obrigar algo como ele a isso pode levar a guerra celeste a um patamar novo e extremamente perigoso.
— Por que se assusta tanto com a idéia de um demônio ter uma alma? — Arriscou ele, sabendo que entrara no único terreno minado entre ele e a nova professora.
— Demônios não tem alma. E é isso que os impede de colocar seus nefastos planos em andamento com a humanidade. — Ela acendeu um cigarro em sua longa piteira e deu um trago tão longo que a brasa iluminou o lugar tempo o suficiente para Daniel notar sua face descontente. — Desista disso enquanto é cedo, as conseqüências podem ser terríveis.
O relógio de pulso de Daniel apitou o alarme. Era hora de partir. Agora que conduzia realmente o fluxo das viagens no tempo, mesmo que só fosse capaz de sustentar uma viagem e para isso ficava mentalmente esgotado por quase quarenta e oito horas, todo segundo era precioso no andamento da roda dos fatos.
— Me dê à letra do céu, é hora de levar Paul para a morte. — Disse determinado, apesar da dor.
Alilahara ergueu a mão, de onde pendia uma espécie de amuleto de pedra com uma estranha letra grafada. Daniel apanhou-a e colou no pescoço rapidamente, conferindo se era realmente a letra que precisava.
— Essa é a última letra do céu que eu tenho, Daniel. Você não pode falhar. — Ela disse e seguiu novamente para trás do biombo.
Daniel assentiu com a cabeça, já estava se concentrando para a viagem. Agora que sua aliada estava protegida da luz ele ascendeu às sete velas amarelas em torno de si.
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Domingo, 15 de janeiro de 2006, 07h18mim – Ponto 0 – Ártico.
Augusto Sintra, Paul Tewlins, Archa Borlins e Zaridus Medidedaneo, a pirâmide escavada abaixo de uma cúpula tecnológica armada no gelo.
Domingo, 15 de janeiro de 2006, 07h18mim – Ponto 0 – Ártico.
Augusto Sintra, Paul Tewlins, Archa Borlins e Zaridus Medidedaneo, a pirâmide escavada abaixo de uma cúpula tecnológica armada no gelo.
Quando Archa sentiu a força do escaravelho tudo fez sentido de forma rápida e dolorida. Trinta e nove partes de um deus mutilado se conectaram a ela como se lhe pertencessem. Aquele estase divino não fora abalado nem mesmo pela pancada de Zaridus. Ele gritava ordens a ela, e uma das frações de Hórus, capaz de compreender e falar todas as línguas, lhe permitia responder.
— Sua canção é horrível, homem imundo! — Ela falou em um árabe antigo que não conhecia. Ele levantou a mão para agredi-la novamente, e sabendo que a surra era inevitável ela agrupou sua dignidade e cuspiu no rosto do homem. — Você não terá o que você quer!
O homem sorriu mostrando os dentes, sustentando a mão erguida diante da mulher jogada no chão. Com a outra mão limpou a saliva próxima aos olhos que fechara de impulso. Manteve-os fechados por alguns segundos e quando voltou a abri-los esse eram como os de uma cobra enorme.
— Você realmente acha que pode resistir a mim, meretriz? — Ele desceu a mão com tanta violência no rosto da mulher que Augusto a metros de distancia teve a sensação de ouvir algo se quebrar. — Quando o deus que você carrega aprendeu a voar eu já havia me alimentado das almas de civilizações inteiras!
Zaridus tirou da cintura uma faca com lamina ondulada, cujos ornamentos eram os mesmos usados no antigo Egito. O metal era negro como ébano e brilhava em um tom azulado. Tocou gentilmente a garganta de Archa com o metal, ela virou o rosto sustentando sua postura de heroína. Ele agarrou-lhe os cabelos e puxou-os para trás obrigando-a a abrir os olhos, um leve filete de sangue escorreu-lhe para o colo. Ela apertou com todas as forças o escaravelho que repousava em sua mão. Os olhos dele pareciam ver toda a alma da mulher, aqueles olhos de serpente eram hipnóticos, ela não conseguiu mais resistir.
— Onde esta o anulador? — Ele berrou com tanta força que as veias de seu pescoço saltaram à vista. — Diga-me concubina de Ísis!
Ela ergueu o braço tremulo e apontou para o escuro. Ele acompanhou o dedo dela com os olhos, levantou-se satisfeito e caminhou lentamente até a região onde ela indicara. Haviam três pessoas desacordadas aos seus pés, ele levantou o primeiro e mostrou o rosto para Archa, mesmo sabendo que a vaga luz ela não poderia ver os traços.
— É esse o homem, vagabunda? — Gritou de lá. Divertindo-se com a situação de controle. Levou a lamina, já suja do sangue dela até a garganta dele. — É esse o maldito anulador?
— Não. — Ela disse em voz baixa, temendo pela vida do homem. — Não é esse quem procura. — Ela falou mais alto, ainda no idioma do inimigo. — Você vai matá-lo?
Zaridus enfiou a arma com violência na garganta do homem desacordado, um esguicho de sangue pode ser visto mesmo na escuridão. Augusto a certa distancia percebeu que era questão de tempo até que ele também se transformasse em um alvo da violência desmedida de Terno Caro. Paul não concordava com aquilo e deseja intervir, impedir aquele monstro de prosseguir, se perguntava por que os viajantes estavam demorando tanto.
Quando o corpo caiu ao chão, espalhando mais sangue dentro da pirâmide, Zaridus se abaixou e limpou a faca com a parca que o cadáver usava. O assassínio não lhe mudava a expressão na face, como se fosse uma ação cotidiana. Archa Borlins não sabia se temia ainda mais pela própria vida ou pela vida das outras pessoas ali dentro. Do corpo caído surgiu uma luminescência que cresceu gradativamente até se tornar um clarão de luz que iluminou todo o lugar, a luz se condensou e adquiriu contornos na forma de uma ave de rapina, ela bateu as asas duas vezes e disparou para o alto, desaparecendo ao chocar-se com o que possivelmente era o teto da pirâmide.
— Não era esse, que pena. — Disse Terno Caro casualmente. Aproximando-se dos outros dois homens caídos próximos. — Acho que vou matar os outros dois, e se não for nenhum deles, continuarei matando até encontrar. Eu realmente não me importo com a vida de nenhum de vocês, falsos herdeiros. — Ele ajoelhou-se diante de outro homem.
Augusto não suportaria isso, talvez fosse o único acordado ali, o único capaz de fazer algo. Seus amigos estavam desmaiados ali também, Donovan, Gabriel, Amanda, um deles poderia ser o próximo, aquele diante de terno Caro, começou a forçar o corpo a reagir, um braço começou a tentar sustentar o peso.
— Não! Não é ele! — Gritou Archa, com lagrimas nos olhos. — O anulador é o outro... — Disse perdendo as convicções, sua face e sua fraqueza demonstravam sua tristeza em condenar alguém à morte.
Zaridus sacudiu a cabeça lentamente, como se relaxasse os ombros. Levantou-se e voltou a se abaixar diante do outro homem, esse mais corpulento que o anterior. Olhou para a atormentada mulher metros a sua frente e sorriu maldosamente para ela. Juntou os dedos no cabelo do desacordado e ergueu-o o suficiente para mirar a lamina na garganta dele também. Estudando o ângulo para que ela pudesse assistir a execução, ele divertia-se nitidamente com aquele show de barbaridade.
— Que gentil da sua parte poupar meu trabalho, vadia. — Ele abriu e fechou os dedos entorno do cabo da faca. — Vejo que você já percebeu que a única forma de se dar bem nisso tudo e ficar do meu lado. Se perder essa síndrome de bondade eu terei prazer em lhe guiar nos caminhos da verdade. — Ele enfiou a faca com toda a força para matar mais um sujeito indefeso.
Mas não existiu uma nova morte. Nenhuma gota de sangue a mais foi derramada. Zaridus ergueu a faca incrédulo do ocorrido e percebeu-a torta, danificada, como-se forçada contra metal mais forte que o seu. Ele empurrou a cabeça do homem de volta para o chão com toda força possível, mesmo sabendo que isso não funcionaria.
— Que espirituoso, vagabunda... — Ele se levantou e caminhou rapidamente em direção a ela. — Vamos ver se consegue ter essas suas idéias com uma faca atravessada nas mãos.
Augusto não iria permitir isso, ergueu metade do corpo com dificuldade. Olhou para Paul e esse retribuiu o olhar de desagrado com a situação, e quando imaginou que receberia um sinal de apoio na tentativa de impedir aquele homem Paul fez um sinal com a cabeça apontando algo atrás do português.
Ele virou o rosto lentamente e viu que havia mais alguém acordado, alguém com uma fúria nos olhos que superava toda e qualquer indignação que Augusto poderia ter sentido na vida.
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Domingo, 15 de janeiro de 2006, 08h21mim – Londres – Inglaterra.
Victoria Lancaster e Jaqueline Whitewood, um quarto no hospital St. Thomas, curiosamente direcionado para a Victoria Embankment.
Domingo, 15 de janeiro de 2006, 08h21mim – Londres – Inglaterra.
Victoria Lancaster e Jaqueline Whitewood, um quarto no hospital St. Thomas, curiosamente direcionado para a Victoria Embankment.
— Não se preocupe, Ví. Ainda não é horário de visitas e como fui eu quem dormiu aqui, ele só vai chegar no momento que planejamos. — Jaqueline respondera a pergunta da irmã de forma displicente enquanto olhava pela janela. — Sabe de um coisa, só cara eu entendi tudo o que você fez... o que vai fazer... E não gosto disso.
Victoria parecia muito doente e ainda mais fraca que o de costume. Apesar de toda a dor e definhamento ainda existia um surpreendente brilho de determinação em seus olhos. A irmã, pouco mais jovem que ela estava muito incomodada com tudo aquilo, aquele plano mirabolante e arriscado do qual fazia parte contra a vontade.
— Só tenho a lhe agradecer, Jaque. Sabe o quão difícil para mim tomar essa decisão. — Ela virou o rosto para o outro lado, a luz do sou incomodava seus olhos sensíveis. Completava um ano de sofrimento naquele dia, e sabia que estava prestes a morrer. — Ainda peço, por tudo que nos é mais sagrado, cuide bem de minha filha e permita a ela crescer dentro do nosso credo.
— Não deveria ser assim, irmã. Não era isso que toda aquela fantasia da infância dizia que seria. Eu sonhava com fadas e feitiços de amor, não com a morte lenta e dolorosa de cada membro de nossa família. — Ela abraçou os próprios braços, como se sentisse frio. — Estamos fazendo isso sem Tajana, nem sabemos se vai dar certo. E se for tudo em vão, e se sua intervenção não garanta a salvação da magia. A salvação do tempo.
— Não há mais por quê duvidar, querida. Eu comecei a morrer quando comunguei com as cinzas de um deus, há um ano atrás eu salvei a vida de alguém que fez o mesmo dias atrás. Eu tomei para mim parte do fardo de trazer um deus do passado de volta a vida em nosso tempo e vou até o fim. Farei tudo o que puder para que minha filha não viva o futuro terrível que vimos. — Não tinha mais forças para continuar a falar, o que veio a seguir soou como um sussurro. — Farei o que for necessário para superar a ausência de Tajana.
— Ela nos deixou por não acreditar nisso, Ví! Ela decidiu que a forma de impedir isso é exatamente o contrário do que estamos fazendo! Como pode ter tanta certeza? Como pode sacrificar-se por uma suposição!? — Jaqueline começou a chorar, com soluços e rubor. — Você fará com que Isabel cresça sem uma mãe, exatamente como nós?
Victoria respirou fundo varias vezes antes de tentar voltar a falar. Cada frase era exaustiva e dolorosa, mas sabendo que aquilo não duraria por muito mais tempo decidiu esforçar-se para acalantar, mesmo que vagamente, a angustia da irmã.
— Então vejo que você não entendeu tudo, afinal... — Ela sussurrou, e Jaqueline, ainda aos soluços, chegou mais perto. — Você se lembra do meu casamento?
Nos olhos de Jaqueline veio a luz da compreensão. Ela se lembrou detalhadamente do que acontecera naquela noite, quatro anos atrás, o casamento, o ritual secreto nas curvas e ângulos da igreja, na ausência de duas mães. Jaqueline se lembrava por ser na época uma adolescente sonhadora que ajudara com toda a sua magia, como nunca mais fez, para garantir a felicidade eterna da irmã.
— Você não disse! É isso, não é? Você não disse! — O choro partiu, ela quase sorriu ao pensar que irmã, de alguma forma, continuaria com ela. — O casamento, cercado de rosas amarelas, na ausência de duas mães, com o feitiço lançado na véspera, o amor escolhido... você não disse! Todo esse tempo e você já tinha tudo planejado.
— Eu não disse, querida... — Victória afagou o rosto da irmã que se acalmava. — Eu nunca disse: ‘Até que a morte nos separe’.
O telefone celular começou a tocar, Jaqueline o atendeu rapidamente. Estiveram a manhã inteira esperando aquela ligação para começarem a agir.
— Diga, Paul. — Jaqueline disfarçou a voz, para parecer concentrada.
— A distração começou a acontecer. É hora de acertar o relógio. — Ele desligou o telefone, Jaqueline sabia que o telefone por satélite que usara tinha carga extremamente limitada e se necessitasse ligar novamente precisava racionar.
— Chegou o momento, querida? — Sussurrou Victoria.
— Tem certeza que vamos fazer isso, Ví? — Jaqueline disse enquanto abrasava a irmã. — Você provavelmente não vai...
— Dê um beijo em Isabel, e quando for à hora leve-a para me visitar no passado. Onde sempre estarei esperando por ela. — Ela abraçou a irmã e viu o quarto escurecer e o clima esfriar, era o truque da irmã entrando em ação.
As portas do elevador se abriram lentamente, Daniel Lancaster estava chegando para visitar sua esposa mais uma vez. Mais uma vez esperançoso que fosse vê-la melhor. Mais uma vez acreditando que haveria alguma descoberta médica que indicasse uma possibilidade de tratamento para sua amada. Mais uma vez ele atravessava o corredor, lentamente, pois o tempo estava parando, ele se aproximava da porta, e quando tocou a maçaneta, seu corpo e sua alma foram congelados no momento eterno do tempo. Jaqueline levara sua irmã para um espaço infinito entre dois milésimos de segundo, de onde ela poderia arquitetar todas as viagens no tempo que precisaria fazer para salvar os herdeiros de Hórus. Todas as viagens que a levariam a morte.
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Domingo, 15 de janeiro de 2006, 08h37mim – Ponto 0 – Ártico.
Augusto Sintra, Paul Tewlins, Archa Borlins, Zaridus Medidedaneo, Miguel Savano, Gale Star, Victoria e Jaqueline Whitewood, a pirâmide escavada abaixo de uma cúpula tecnológica armada no gelo.
Domingo, 15 de janeiro de 2006, 08h37mim – Ponto 0 – Ártico.
Augusto Sintra, Paul Tewlins, Archa Borlins, Zaridus Medidedaneo, Miguel Savano, Gale Star, Victoria e Jaqueline Whitewood, a pirâmide escavada abaixo de uma cúpula tecnológica armada no gelo.
Miguel acordara e assistira um babaca com roupas de babaca bater em uma mulher e matar uma pessoas desacordada. Não que ele não faria isso se tivesse um bom motivo, mas aquele sujeito fazia isso por diversão. Sem culpa nos olhos, sem pesar algum. Miguel só pretendia bater no babaca para garantir que sairia dali vivo, mas sua opinião mudou quando por algum motivo ele sentiu o que aquela mulher sentia, parecia que ela transmitia para ele todo o medo, medo do que aquele homem era e o que representava.
Na verdade Miguel nunca fora um sujeito bom em empatia, e por mais que fosse obrigado a sentir aquilo o máximo que faria era levar aquela mulher quando saísse dali. O ódio que desenvolveu pelo babaca realmente surgiu quando viu os olhos deles se transformarem, a sim, aqueles olhos fizeram Miguel ser tragado de volta para a dor no passado, para o sofrimento de sua família e para junto de todas aquelas malditas coisas que os ‘Thule’ fizeram. Os olhos representavam tudo ao que Miguel jurou vingança.
Zaridus viu Miguel se levantar, viu seus punhos avermelharem e soltarem fumaça. Ele atirou a faca, mesmo danificada, para ferir o homem, sem sucesso. Terno caro porem era esperto demais, não chegaria até ali por sorte, ele saltou de volta para o lugar onde estava anteriormente. Perto do desacordado que resistira a facada. Ele o agarrou pelo colarinho e sacudiu-o violentamente até que ele acordasse. Miguel se aproximava, e quando os homens de Zaridus lhe apontaram as armas, Terno Caro sorriu, viu que o homem em suas mãos estava acordando, mas nem precisaria dele. O portador dos punhos de Hórus, Miguel, seria fuzilado sem piedade.
Paul desligou o telefone via satélite que carregava. A primeira etapa de sua participação acontecera como esperado, agora era o momento de deixar a coisa adormecida dentro dele agir. Não queria realmente fazer aquilo, mas sabia que era necessário. Ele fechou os olhos e pensou em sexo. Muito sexo. Pensou em todas as coisas depravadas que faria com uma mulher, ou com qualquer outra coisa. Pensou em coisas ainda mais depravadas que ele nunca imaginara que faria, levou sua imaginação a um nível que levaria as beatas da igreja onde sua mãe o levava quando criança se matarem com agulhas de tricô enfiadas no ouvido. E essa era a forma de deixar seu demônio interior sair.
Augusto estava sentado ao lado de Archa, tivera dificuldades em se arrastar até lá, mas imaginara que abraçá-la seria a única coisa que poderia fazer. O diário acabara antes de dizer o que aconteceria ali, mesmo existindo citações anteriores referindo-se aquele lugar e momento como o ápice de tudo o que viria... para ele agora parecia o ápice da morte. Um toque frio e feminino em seu ombro fez com que seus olhos se adaptassem a pouca luz, tudo pareceu perder a velocidade, se não fosse assim ele não seria capaz de ver Paul, era realmente o colega de faculdade dele?, correr muito mais rápido que qualquer ser humano, deixando uma mancha de luz púrpura como um carro fotografado em alta velocidade, partir de homem armado para homem armado e cada um deles cair sem vida. Como se os corpos de repente não tivessem mais alma. Augusto viu também, ao seu lado uma versão doente da amada de Donovan, Victoria Whitewood, e uma versão mais nova e saudável dela, quem segurava seu ombro. Viu em câmera lenta o homem com fúria nos olhos correm em direção ao Terno caro, que fazia seus olhos de cobra se iluminarem e dava ordens ao rapaz que segurava pela colarinho, fazia mais frio agora que fazia antes. E sua cabeça doía muito. Depois disso, tudo parecia parado.
Um segundo passou-se com o mundo congelado, ele poderia jurar. E então tudo voltou a se mover, na velocidade frenética do mundo real.
Miguel lutava contra o rapaz que Terno Caro hipnotizara. Cada soco que dava parecia capaz de destruir um muro de concreto, mas o alvo resistia como resistia a lamina negra que tentara perfurar sua garganta. E isso o distraiu por um tempo. Até notar que as pessoas desacordadas não estava mais lá, só os homens mortos, a maioria assassinada por Paul, e dois homens assassinados por Terno Caro, parece que durante a luta ele conseguira finalmente matar o anulador. Archa também não estava mais perto dele, nem as irmãs Whitewood. Onde estava Terno Caro?
Augusto se levantou e procurou por ele, viu-o chegar a saída da pirâmide e forçar as portas para se fecharem.
— ótimo, agora vou ficar trancado aqui para morrer! — Blasfemou como desabafo. Então olhou para o chão, aos seus pés. — Vejam só!
Ele se abaixou e pegou o escaravelho que Archa segurara, e ao tocá-lo uma seqüência de imagens vieram a sua mente. Coisas que o ajudaram a compreender. Mas antes que elas terminassem, antes que tudo fizesse sentido ele foi arrancado do devaneio onírico pelo impacto do corpo do homem de olhar furioso contra o seu. Ele foi jogado alguns metros, o artefato egípcio voou ainda mais.
Gale Star se arrependeria amargamente de fazer aquilo se tivesse controle de suas ações. O olhar de serpente do homem que o despertou era convincente demais, como se dobrasse sua vontade igual a papel. Ele só socava e socava o homem a sua frente, mesmo sabendo que deveria lutar ao lado dele. Nos últimos segundos entre um ou outro soco que recebia, e não sentia nenhuma dor com isso talvez graças ao olhar do maldito, ele segurou seu agressor pelas roupas de frio extremo e jogou-o para trás com toda a força que possuía. Acertou alguém, mas isso não importava, só conseguia se concentrar em agredir aquele homem até que ele morresse.
— Pega a arma de um desses filhos da puta e corre atrás daquele desgraçado! — Miguel gritou em inglês para Augusto, na esperança que ele entendesse o idioma. E felizmente entendia. — Se eu vou morrer aqui, que ao menos eu tenha certeza que ele vai jun...
Sua palavras foram interrompidas por Gale que jogou seu corpo contra o dele agarrando-o pela cintura e caindo, os dois, no chão frio da pirâmides dos deuses mortos. Augusto sabia que não podia ajudar, balas de pistolas com certeza também não teriam efeito no rapaz invencível, era melhor não dar a idéia de usar uma arma para ele. Ele levantou-se aos tropeços e correu até o escaravelho, pegou-o e segui até a arma mais próxima. Finalmente fez sentido o porque do apego as armas de fogo no último mês, seu amigo Gabriel ficaria orgulhoso de ver como ele atirava bem sobre pressão. Ele correu em direção a saída.
Miguel se levantou de joelhos e juntou as mãos para socar as costas de Gale que se erguia, sentiu a força com que desferira o golpe e teve a sensação que partiria ao meio a coluna de um homem normal. Quase sentiu-se culpado por bater em alguém que era obrigado a lutar, mas não tinha tempo para isso. Gale, do chão, erguera o braço e segurando com força as roupas na altura do peito de Miguel puxou-o para o chão também. Agarrou-o entre um soco e outro e rolaram em um ‘engalfinhamento’ que poderia durar para sempre.
Augusto chegou ao lado de fora da Piramide, no túnel feito no gelo pelo maquinário de varias nações, ali existia luz artificial suficiente para seus olhos arderem. Não conseguia ver Terno Caro, que desistira de fechar as portas pesadas demais da pirâmide. Lá fora só havia Paul, encostado no gelo como se fosse uma parede aquecida e gostosa, fumando um cigarro, suas mãos cheias de sangue e seus olhos perdendo o brilho púrpura de outrora.
— Acabou, Augusto, ele já se foi. — Ele jogou o cigarro no chão e pisou nele, como se fosse necessário para apagá-lo. — Você ainda esta aqui somente para fechar esse lugar. Antes que mais alguma sala se abra.
— Mas, e o dois homens lá dentro, não posso fechá-los para morrer!? — Disse, ofegante pela corrida. Olhando para o escaravelho em sua mão e depois para o mecanismo de “fechadura” da porta. Por fim aquilo era realmente uma chave. — Como vamos sair daqui?
— Eu não vou, Augusto. Já é tarde para mim. Eu abri as portas para o mal entrar, e agora é melhor eliminá-lo antes que seja tarde demais. — Paul se desencostou da parede e olhou para o interior da pirâmide. Augusto acompanhou seus olhos. — Eles vão sair da mesma forma que você, da mesma forma que todos os outros...
Augusto viu os dois homens lutando lá dentro, agora já existia sangue em ambos os rostos. Talvez o rapaz invencível pudessem ser ferido no fim das contas. Soco, soco, empurrão e empurrão. Em um piscar de olhos eles não estavam mais lá.
— Para onde eles foram? — Perguntou atônito.
— Para casa. — Uma voz feminina e cansada respondeu atrás dele. — É hora de você ir também, feche a porta.
Jaqueline Whitewood estava exausta, sua irmã escorada nela, tremia e tinha os lábios brancos como um cadáver, um sopro seria capaz de matá-la. Paul deu um aceno de incentivo para Augusto, que lembrando-se das imagens que viu ao tocar o escaravelho guiou-se para a porta sem duvidar mais.
O escaravelho se encaixou e moveu suas patas, todo o mecanismo começou a se mover em resposta. As pesadas portas se moveram estremecendo o gelo, até que se fecharam completamente. Augusto recuperou o escaravelho e enfiou-o no bolso. Virou-se para as mulheres e deu-lhe as mãos formando um círculo. Ou uma precária pirâmide pelo estado de uma delas.
— Só mais essa viagem, Victoria, e tudo terá terminado. — Disse Jaqueline, sabendo que a irmã não resistiria mais.
— Só essa e a viagem de volta a meu leito de morte, para que eu possa morrer nos braços de meu amado. — Respondeu Victoria e então desapareceram, entre um segundo e outro.
Paul ficou lá sozinho, bastava agora esperar que Daniel usasse corretamente a letra do céu e fosse buscá-lo antes que Kristofer pudesse dominar seu corpo novamente. Daniel o levaria para o teatro de fogo e permitiria que outro demônio lhe tirasse a vida e garantisse que não propagasse todo o mal que tinha o potencial de causar.
Ali era o princípio e o fim da trilha. Era um mera questão de quando.
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