Peter 'Old Sky' Marana e Miguel Orrana Savano, Um dos escritórios da corporação Chess.
Aconteceu novamente, e Miguel ficara extremamente frustrado com tudo isso. Pela terceira vez em três noites um assassinato inexplicável aconteceu naquela cidade. São Francisco. Uma cidade onde Miguel ainda tinha assuntos inacabados. Onde um assassino estava acabando com o tal assunto antes dele.
— Pietro Giovanni?
Sentado na mesa de computador em uma das fileiras com dezenas de 'baias' iguais, Peter Marana, na condição de pessoa respeitável e não a de hacker sem puder, tentava ajudar o novo aliado a descobrir quem era esse violento assassino dos capangas dos observadores das brumas.
— Ainda internado no manicômio, eu chequei.
Apesar do salão de programadores ter muitas lâmpadas, eles estavam a meia luz, que vinha do corredor na extremidade da sala. A escuridão parecia ajudá-los a pensar. Isso e a coleção de mentiras era provavelmente a única coisa que tinham em comum. Duas mentes competentes nos assuntos do crime estavam tentando sem sucesso desvendar um criminoso mais intrigante que eles.
As vítimas não eram homens fracos. Pelo contrario, eram sujeitos escolhidos cuidadosamente para serem capazes de lidar com inimigos mais formidáveis que o ser humano comum, homens com treinamentos militar, táticas de guerrilha ou especializações ainda mais pervertidas. Pistoleiros e caçadores de aluguel da organização que monitora os passos dos herdeiros de Hórus. As armas ainda estavam guardadas e carregadas quando morreram. Nenhum teve tempo de resistir.
No entendimento de Miguel, eliminar os capangas do inimigo não tornava a coisa menos errada. Apenas mais perigoso. Não seria difícil descobrir que ele estava atrás de uma célula da corja na cidade, a possibilidade de uma terceira força eliminando os meios que ele teria para chegar até um peixe grande tornava-se preocupante levando em conta a competência do tal assassino.
— Idéias? — Perguntou Peter, já com uma expressão de quem não sabe por onde começar.
— Muitas... — Respondeu Miguel, com os olhos fixos em fotografias do local do último crime que Peter imprimira para ele horas atrás. — Mas nenhuma delas facilita a nossa vida.
Alonzo Guinard foi a última vítima. O canalha passou sete anos preso por tentar jogar a filha em uma fornalha. Ele queria um menino. E essa não era a ação mais demente que já tomara na vida. Antes disso, Lucky Gordon. Capanga de longa data. Conhecido por sua incrível capacidade de saber exatamente onde quebrar os ossos de suas vítimas. Agora alguém o quebrou.
— Amélia? — Peter chutou uma possibilidade no meio da duvida.
— Não. Nem Amélia é tão forte assim. — Miguel respondeu com pesar ao falar o nome da única mulher que realmente amou ao longo da vida.
Guinard foi encontrado sem os dois braços na banheira de casa. Os dois olhos foram arrancados. Os braços foram encontrados no andar de baixo, com uma trilha de sangue bem clara na escada. Nenhum vizinho viu ou ouviu nada.
Gordon foi jogado do alto de um prédio de oito andares, atingiu o próprio carro estacionado na rua. O corpo se tornou algo difícil de observar, mas Miguel acreditava que os olhos também foram arrancados.
O primeiro assassinato fora de quatro capangas ao mesmo tempo. Eles jogavam poker na ante sala dos fundos de um bar. Pareciam guardar alguma coisa que o assassino obviamente levou consigo. Nenhum deles tinha olhos. Nenhum olho foi encontrado por qualquer grupo envolvido nas investigações. Nem mesmo a vasta lista de assassinos seriais do FBI possuía um suspeito para tal comportamento. Isso iria continuar se dependesse dos investigadores comuns, nenhum deles chegaria perto de informações sobre os observadores das brumas, em poucas noites não restaria formas de Miguel descobrir mais também.
— Augustus Ecco? — Mais um chute de Peter.
— Não é o estilo dele. Esse é alguém novo. — Miguel parecia preocupado.
Peter Marana conhece muito bem o comportamento organizacional 'mafioso' como o dos observadores. Esse caso é pesado demais até para alguém envolvido como ele. A brutalidade disso tudo preocupa até mesmo Miguel, Peter notava isso, mesmo levando em consideração toda a experiência que o revolucionário alemão possuía. A forma como os crimes foram cometidos chega a assustar homens que viram ou fizeram pior. Seja quem for, ele quer inspirar medo nos observadores das brumas.
— Os crimes nem parecem ser fisicamente possíveis! Deus, com o que estamos lidando? — Peter vigiou Miguel com o canto dos olhos enquanto deixava o lado 'Old Sky' sair e acessar algumas informações na rainha vermelha. — Isso tem que parar.
— Vai parar. — Disse Miguel enquanto olhava para o próprio punho fechado.
O que o assassino não sabe, porém, é que Miguel Orrana Savano também sabe perfeitamente como inspirar medo nos homens.
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Sábado, 24 de Julho de 2006, 23h43mim – São Francisco – Califórnia – EUA.
Miguel Orrana Savano, um beco escuro ao lado de um restaurante de comida indiana.
Peter dera a Miguel informações vitais sobre doze outros homens ligados aos observadores das brumas. Para o alemão ainda era estranho como o loirinho conseguia essas informações na internet, não poderia ser tão fácil. Seguindo um deles até o restaurante na parte assustadora da cidade acabou por descobrir a reunião de todos eles. Eles acreditavam erroneamente que o número os torna fortes. Não perceberam que para esse assassino essa reunião é providencial.
— Certo, certo... Agora baixa a bola. — Miguel conseguia ouvir um deles pela janela de trás do estabelecimento. — Vocês parecem um bando de garotos de colégio!
Miguel se esgueirou um pouco mais, aproximando-se da janela. Peter também lhe deu um aparelho para ouvido, semelhante ao usado por deficientes, que fazia sua audição ir muito além do esperado. Era possível ouvir cada um dos doze homens lá dentro, apesar de nem sempre com total clareza.
— Se tivesse visto o que fizeram com Gordon, você também estaria borrando as calças! — Gritou um outro, parecia estar do outro lado da sala.
Se os homens ali começassem a brigar entre si, o trabalho do assassino que já parecia fácil ficaria ainda mais. Peter explicou alguma coisa sobre um captador de titânio e sua sensibilidade, Miguel não dera a devida atenção. Agora, quanto mais tempo ficava parado ali, escutando, mais claro cada som se tornava. Com certeza seria capaz de ouvir alguém chegar ao local, perceberia o assassino antes que...
— Mãe de Deu! O que...?! — Gritou um dos seguidores das brumas.
Então começaram os tiros. Vinte ou trinta deles. A cada disparo o ouvido de Miguel doía mais e mais, parecia que explodiria. Tentava arrancar o aparelho da orelha de todas as formas, tinha dificuldade devido o estrondo dentro do seu cérebro, caiu no chão e rolou até conseguir com a pressão de seus dedos danificar o aparelho que continuou preso a sua cabeça.
— Pai nosso que estais no... — Repetia-se em sua mente os gritos que ouvia entre os tiros. — Ele é o diabo!
Mesmo sem o funcionamento do aparelho e com a audição de um ouvido comprometida, ele podia ouvir os sons de horror e carnificina que desdobrava-se lá dentro. Levantou-se e correu para a porta da frente do restaurante, era hora de matar um inconveniente. Miguel não se preocupava se todos já estavam mortos, sua meta era exclusivamente chegar lá dentro antes que o matador, ou matadores, consiga fugir.
Os tiros aumentavam, balas escapavam aos montes pela vidraça destruída da fachada. Miguel precisou se lançar para trás do carro de um dos capangas... prováveis cadáveres, para não ser alvejado. Sacou a própria pistola matadora de leão, apesar de preferir muito usar as mãos.
— Morram! Morram! — Ele ouviu entre o zunido no seu ouvido. — Vocês morrem... Humanos!
"Humanos?" Pensou Miguel. "Quem se refere às vítimas assim?".
Miguel é forçado a voltar para o beco e tentar entrada pelos fundos, não só por causa das balas que disparavam em todas as direções, mas também pelo carro de polícia que virava a esquina. Quando conseguiu arrebentar a porta da cozinha, graças ao dom de seus punhos, ele percebe que o tiroteio que mal começou, acabou.
Ele arrisca uma olhada direta para o saguão, esperando ver um grupo fanático rival, um supergrupo mercenário ou um esquadrão de soldados renegados. Estava mais do que nunca decidido que se tratava de mais de um assassino. Ninguém poderia causar tal devastação sem ajuda.
Então ele viu, parado de pé no meio da sala com doze corpos mutilados, um homem usando um elegante terno onde todas as peças do vestuário eram negras, uma máscara delicada de porcelana cobria seu rosto, coberto de sangue, formando uma visão bizarra com um terrível senso de humor com aquele sorriso infantil no rosto falso. No peito existiam inúmeras perfurações de bala, o que não parecia incomodá-lo. Ele não estava armado, nem mesmo com uma faca.
— Seja bem vindo à festa, forasteiro! Legal você ter vindo. — Todo o conjunto de figuração de filme de terror trash pareceram desaparecer quando o homem fixou o olhar e falou com Miguel. Mais estranho que tudo aquilo eram os olhos do sujeito, pareciam emanar uma forte luz púrpura e hipnotizar os observadores. Era como olhar para a aurora boreal do inferno. — Não é... Hã... O que parece! A não ser que pareça um arlequim diabólico chacinando uma dúzia de pretensos chefões só para os fazer dançarem nas próprias vísceras. — Miguel atônito, apontou a arma para a cabeça do monstro falante. — Aí, sim. É o que parece!
O alemão fez dois disparos bem sucedidos. Um atingiu a fronte esquerda da cabeça, o outro acertou o peito na altura do coração. A pressão das balas jogaram o corpo do alvo para fora da loja, atravessando o que restara da vidraça. Miguel correu em direção a ele, ignorando os policiais do lado de fora, apontando a arma para ele. Queria pegar o assassino com as próprias mãos e garantir que estaria definitivamente liquidado.
O corpo não estava lá. Nada caiu na calçada. Os policiais dispararam.
Miguel corre de volta para os fundos, "malditas trocas de câmera de filme trash!" pensou. Precisava fugir da lei comum para garantir sua caçada novamente no dia seguinte. Quando os policiais chegaram ao beco ele tinha feito como sua presa, desaparecida no ar.
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Domingo, 25 de Julho de 2006, 10h12mim – São Francisco – Califórnia – EUA.
Alfred Ausbury, Dana Colins e Phillip Cliff, um apartamento luxuoso no hospital mais caro da cidade.
Alfred ainda estava acamado em seu processo de recuperação dos dias que passou cativo nas mãos do odioso chinês Herom. Caçara-o na Espanha segundo instruções de Archa Borlins na esperança que ele fosse capaz de lhes dar algumas respostas, mas como quase todos os passos que Alfred e sua comitiva davam nos últimos dias, ele só conseguiu mais perguntas. Com a morte do chinês uma nova característica dos herdeiros de Hórus veio à tona, o aspecto divino dentro de cada um deles 'migra' do cadáver para um novo 'hospedeiro' saudável. E essa provavelmente foi a forma pela qual Alfred adquiriu suas próprias habilidades.
— Não me impressionou, Dana. — Disse em tom bucólico e abatido. Alfred olhava para a janela para evitar o olhar dos outros dois na sala. — Nem os observadores das Brumas... — E então, mudando completamente o semblante, para aquele líder determinado ao qual seus 'súditos' estavam acostumados, ele continuou dizendo. — ... Nem o trabalho que fez em relação a eles desde que eu estou impossibilitado de agir diretamente.
Dana trajava, o que não era costume, roupas casuais e comuns. Jeans e camiseta. Seus belos cabelos loiros e cacheados estavam presos em um rabo de cavalo no topo da cabeça, deixando seu pescoço desnudo e conferindo um aspecto jovial. Ela não estava habituada a trabalhar tanto tempo com um único 'mandante', termo que ela mesma empregava com freqüência, e isso parecia dificultar as coisas. O que mais incomodava, claro, era aquela sensação que Philip Cliff lhe provocava, como se a cada momento que se olhava para ele, via-se um novo homem, mais misterioso e perigoso que o anterior.
Phillip era mais tradicional, mesmo pela manhã usava terno, apesar de claro, e gravata. Na ausência de Alfred era ele quem tomava as grandes decisões da Chess. Seu rosto era pouco expressivo e um olhar desatento poderia resultar em uma falsa impressão de incompetência. Por anos ele age como o braço direito do magnata Ausbury, por anos ele o viu como uma espécie de ídolo e herói no mundo dos negócios, e até na forma das relação interpessoal. No último semestre essa visão tem se anuviado, desde o início da obsessão pelos segredos do ártico Alfred vem se tornando ainda menos escrupuloso, com ações duvidosas perante a lei dos homens, e estar diretamente envolvido nisso começava a alarmar a imensa dedicação do diretor.
— Tudo bem, você descobriu alguns níveis da pirâmide hierárquica da organização na cidade, e assassinou alguns peões para mostrar que eles não estão enfrentando amadores. — Agora Alfred olhava diretamente para Dana, de forma severa e inflexível. — Mas nenhum deles me procurou ainda em busca de um novo integrante com vastas vantagens para agregar ao grupo. — Ele pegou a agenda na cabeceira da cama e encontrou duas folhas soltas dentro dela, que pareciam pertencer a um outro diário, releu alguma coisa lá e voltou-se para a garota. — Francamente, Garota, como vamos conseguir destruir uma sociedade secreta secular de dentro para fora e pilhar todo seus conhecimento útil se mesmo com três indivíduos privilegiados como nós, não conseguimos sequer nos infiltrar na fileiras mais baixas de um célula regional deles?
A mulher se desencostou da parede revelando suas curvas sensuais. Phillip de onde estava pode perceber o volume da arma sob a camiseta. Ela aproximou-se da cama de Alfred e repousou a mão sobre o braço dele, perto do cano que bombeava soro, como se fosse uma visita agradável a um amigo enfermo.
— Alfred, não fale assim comigo novamente ou mato você. — Ela sorriu e acariciou-o nos cabelos, ajeitando-os para trás. — O problema aqui é o excesso de herdeiros de Hórus. Por algum motivo a cidade esta cheia deles e alguns estão empenhados em se aproximar o máximo possível dos segredos da ordem, tanto quanto você.
— E o que vocês já descobriram sobre a possível origem dessa 'reunião de família'? — Ausbury perguntou como se fosse de obvia obrigação deles já saberem a verdade incontestável sobre a origem do incidente.
— Difícil afirmar. Acredito que há algo pulsante daquele manicômio. O lugar mudou completamente da vez que fui lá com Dana e quando retornei sozinho. — Phillip também se aproximara enquanto respondia a pergunta do chefe. Gesticulando então para descrever a existência de algo envolta de sua comparsa Dana Colins. — Ela 'anula' alguma força por lá, algo tão forte que até eu, não sendo um de vocês, percebo.
— Vocês estão brincando comigo, não é? — Alfred sentou-se, tentando assumir a postura mais imponente que poderia naquela situação. — Digam-me que eu não estou ouvindo os dois membros mais competentes sob minha ordens me informarem que eles já sabem qual é o problema, sabem qual é a solução e ainda não juntaram uma coisa a outra?
— Quando estive lá da última vez, mesmo sendo completamente imperceptível em minhas ações, chamei a atenção exatamente por causar um 'momento de silêncio' nessa força pulsante. — Argumentou Dana. — Existem pequenos grupos de indivíduos ligados a odisséia de Hórus que podem notar quando algo não vai exatamente como deveria com algum deles. Estão agindo para descobrir o que a ordem tem escondido aqui e já começam a considerar-nos como inimigos, por dificultarmos as coisas a eles.
— Ontem quando executei os capangas restantes fui visto por um dos herdeiros. — Completou Phillip. — Ele tentou me matar, por pouco não conseguiu.
— Essa cidade já esta me dando nos nervos. — Alfred falou mais alto que o habitual. Pegou um copo no criado e automaticamente Phillip apanhara uma garrafa de água gasosa no frigobar, servindo-o na metade do copo. — A Chess é como uma legião. Nós somos como uma legião. Sempre fomos vencedores, muito antes de existir essa história toda de aspectos divinos. E nós vamos continuar sendo vitoriosos muito tempo depois de tudo isso ser enterrado. Eu sei disso, porque vocês dois vão cuidar de tudo. — Ele bebeu toda a água servida de um único gole.
— Cuidar. Você quer que eu assassine outros herdeiros de Hórus? — Dana perguntou em tom de confirmação.
— Não. Quero que vocês paguem um café para eles e peçam para nos deixar em paz. Podem até ofertar relatórios semanais de tudo o que andamos descobrindo sobre as verdades do universo. — Alfred ironizou, risonho.
Quando acabou de falar, a arma de Dana em uma velocidade impressionante já estava engatilhada e tocando a fronte de Alfred. Ele soltou o copo que se espatifou no chão, fazendo menos barulho do que ele desejava graças ao carpete grosso do lugar. Phillip levou a mão a arma, mas os olhos dela fixaram-se profundamente nos dele, demonstrando claramente que ela não teria problemas em atirar caso ele sacasse.
— Alfred, a primeira vez é sorte. A segunda, coincidência. Na terceira eu terei garantias que não será possível que exista uma quarta. Fui clara?
— Como cristal. — Ele ficou em silêncio enquanto ela guardava a arma e tomava distância. Respirou fundo e proferiu, em tom quase solene. — Vocês tem de fazer o que for preciso. Matar quem for necessário. Mas vamos falar sério, sei o que anda impedindo você, Dana. — Ele armou um sorriso vingativo quase imperceptível. — É ela. Archa Borlins, certo? Foi naquele manicômio que tudo começou para você.
— Archa não tem nada a ver com... — Ela tentou dizer, mas Alfred a interrompeu.
— Vá falar com ela, Dana. Você não vai me servir para nada enquanto estiver emocionalmente envolvida desse jeito. — Fora uma cartada dura, e por algum motivo não declarado, que intrigou Phillip que assistia a tudo, ela meneou com a cabeça e deixou o quarto.
Phillip aproximou-se de seu chefe agora, apesar de preocupado com a intensidade com que tudo acontecia atualmente, ainda via a forma brilhante como seu 'herói' jogava. Existiam muitos segredos bem colhidos que nem mesmo a ele, o tal braço direito, era revelado.
— Alfred, tem certeza que devemos eliminar outros herdeiros de Hórus que cruzarem nosso caminho? — Seu rosto era sério. — Qualquer um?
— Sim. Faça tudo o que for necessário.
— Mesmo que o herdeiro em questão seja Miguel Orrana?
Os olhos de Alfred se arregalaram com expressão de terror e fascinação. Como se aquele nome lhe despertasse alguma memória eufórica de infância. Seus lábios tremeram a princípio, depois ele sorriu largamente para por fim gargalhar abundantemente.
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Domingo, 25 de Julho de 2006, 19h20mim – São Francisco – Califórnia – EUA.
Peter 'Old Sky' Marana e Miguel Orrana Savano, Um dos escritórios da corporação Chess.
— Eu ainda estou um pouco surdo. Dá próxima vez que me der essas merdas supersônicas, faça o favor de me avisar que são capazes de fritar o meu cérebro. — Miguel colocava e tirava a mão em forma de concha na orelha, percebendo a mudança do zunir das maquinas processando dados sob o comando de Peter. — Você pode começar a usar coisas assim como armas.
Peter não despendera atenção suficiente para processar o que o aliado falava. Seus olhos tremiam diante das múltiplas linhas de informação que a tela lhe mostrava. Durante os últimos meses ele preferiu se esconder do mundo, trancado dentro de seu próprio apartamento temendo o que sua maldição divina seria capaz de fazer com as pessoas com que viesse a se encontrar. Durante meses ele fora exclusivamente ‘Old Sky’ e na solidão de seu auto proclamado exílio ele encontrou conforto, controle e objetivos. Mas agora existia algo na solidão, algo que parecia exilado do mundo, que o perturbava.
— Ei! Sou eu quem está surdo! Faça o favor de me ouvir! — Miguel era inevitavelmente enérgico na voz. — Tem a porra de um diabo de pesadelos infantis matando os caras mais barra pesadas da cidade e pondo medo em uma congregação de assassinos com séculos de experiência! Poderia por um instante tirar essa bunda branca da frente do computador e decidir fazer algo a respeito?
Dessa vez o hacker foi obrigado a ouvir e digerir a vociferação de Miguel, era um daqueles chamados as armas que só alguém como o revolucionário alemão usaria nos dias de hoje. Peter estava totalmente ciente da gravidade da situação e trabalhava freneticamente para solucioná-la, mas explicar ao monte de músculos impulsivo que horas na internet seriam muito mais compensadoras que sair pelas ruas socando pessoas parecia uma missão impossível. Olhou para Miguel com significado nos olhos, respirou fundo quase em suspiro, arrastou a cadeira para trás e esfregou o rosto com as mãos, para descansar os olhos e desvincular-se se sua interface virtual.
— Miguel, impaciente e imediatista, Miguel. — Mesmo tentando transparecer um semblante de sábio dono da situação, só conseguiu parecer um amigo usando termos supostamente ruins para elogiar alguém próximo. — Eu tomei a liberdade de encomendar um smoking para você usar no evento dessa noite. Pelos meus cálculos deve chegar dentro de vinte e três minutos.
O ouvinte ficou perplexo com a fala do gênio a sua frente. Apesar de todas suas grosserias sociais, Miguel era um homem inteligente com vasta capacidade em entender as pessoas, suas motivações e intenções. Só que Peter era uma grande exceção a essa capacidade. Um garotinho loirinho com cara de anjo que nasceu em berço de ouro e com todo o potencial para ser um burguesinho mimado e detestável, era na verdade um dedicado cavalheiro da ordem e da justiça, mesmo estando totalmente disposta a usar métodos não ortodoxos para isso. Peter parecia aos olhos de Miguel alguém capaz de pensar torto. Pensar diferente das pessoas comuns, cruzar pistas improváveis e chegar a verdade por caminhos labirínticos. Era algo desconhecido, e assustava por esse fato, mas os resultados faziam o pequeno geniozinho da tecnologia o equipamento mais importante da guerra que travava.
— Invente uma desculpa qualquer para o costureiro, loirinho. Melhor você arrumar um para você, porque eu não vou entrar em um caixão de pingüim. — E só não usou palavras mais ofensivas sobre a idéia de ir a uma festa em um momento como aquele porque começava a aceitar os métodos do outro. — Ainda tem um assassino com olhos luminosos por ai e eu não quero tentar dormir tranqüilo enquanto ele se diverte arrancando tripas por ai. Você ao menos olhou nessas pastinhas ai no computador se tem alguma coisa que possa nos levar a ele?
— Vou trazer o carro às vinte e trinta. — Ele girou a cadeira e olhou pela janela, como se tentasse imaginar onde exatamente ficava o endereço do evento naquela cidade que não conhecia muito bem. — Espero que esteja pronto e preparado para simular algum nível de etiqueta.
— Eu não vou, Peter! — E a paciência que não era sua maior virtude começava a esgotar-se. — Só me diga que existe alguma referência obscura a coisas que não morrem e usam mascaras bonitinhas e tenha olhos brilhantes. Me diz que ele dorme em um caixão cheio de terra que só pode ter chegado na cidade em determinado navio ou que durante o dia ele é um funcionário de óculos de alguma firma e usa sempre uma gravata rosa como os olhos de diabo dele e eu só tenho que enfiar uma faca de prata no filho da puta, e pronto, eu vou lá e tudo fica resolvido.
— É bom que você saiba que provavelmente terá de dançar valsa ou outra dança de salão do tipo. — Ele continuou a falar como se fossem as instruções mais difíceis de dar para uma criança mal criada. — Esse é o momento alto da noite e é onde provavelmente você conseguirá respostas e alianças para chegar onde pretende.
— Você está me ignorando? Propositalmente? — Miguel se levantou da mesa onde estava sentado, com cara de poucos amigos e intuitos preocupantes.
— Sim, Miguel, Estou. — Ele se levantou também, virou as costas para Miguel e caminhou até a janela onde acendeu um cigarro e começou a fumar calmamente. — A verdade é que sempre haverá uma oportunidade para encontrar os inimigos. Garanto com uma certeza monumental que terá inúmeras oportunidades para você se matar no futuro.
Miguel não conseguia realmente sentir raiva do loirinho. Não queria perder a imagem, é claro, mas sentia na verdade um respeito curioso pela ousadia do rapaz em desafiá-lo diretamente mesmo sabendo o que o passado do alemão guardava sobre mortes e agressões. Seja lá o que Peter planejava, Miguel acreditava que os levaria ao próximo passo da busca pela verdade. Não seguiu o fumante, permitindo que o silêncio fosse o sinal que o outro pudesse continuar a falar.
— À parte de tudo isso, tenho ainda mais certezas que os eventos dessa noite serão especialmente importantes para entendermos as movimentações dos agentes dos Observadores das Brumas. E uma festa onde tantos grandes nomes do mistério do momento estarão reunidos, parece o tipo de lugar onde o nosso assassino imortal gostará de estar. — Ele deu um grande trago no cigarro e observou a fumaça se espalhar entre ele e a janela, sorriu com o trocadilho daquela situação, observar a fumaça. — Entre os nomes mais cotados do evento, eu gosto de citar Alfred Ausbury.
“Alfred Ausbury. O cara que eu tenho de matar”. Pensou Miguel, e já estava disposta a usar um terno até por uma semana.
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Domingo, 25 de Julho de 2006, 19h23mim – São Francisco – Califórnia – EUA.
Dana Colins e Archa Borlins, um manicômio escondido da mídia e dos curiosos.
O lugar tinha outro nome antes. Tinha uma fachada que era tão escondida que não era diferente de agora com à ausência de uma. Antes, e agora, o lugar era, ou é, um tipo de lugar que as pessoas inconscientemente preferem não notar. Dizem os transeuntes entre as esquinas secretas da cidade que as pessoas que ‘freqüentam’ atualmente são bem semelhantes às de outrora: Lindas, ricas e perturbadas.
Dana tinha dez anos de idade a primeira vez que entrou lá, na época ela não era capaz de silenciar o tormento do mundo que pulsava lá dentro. Ela era uma criança quando aconteceu, e desde então aquilo é tudo o que define a sua vida. Assassinatos e traições. Foi graças a esse lugar que Dana renasceu e de certa forma, foi ela quem deu a sobrevida que as paredes precisavam.
O trauma da morte diante de seus olhos tinha o potencial para torná-la uma justiceira. Faria isso com qualquer um que vivesse aquilo e tivesse as oportunidades que ela teve. Os indivíduos são diferentes e reagem diferentemente aos estímulos do mundo. Dana tornou-se o que seu inconsciente criou de mais forte a partir de suas emoções, se trancou e resumiu-se naquilo que povoava sua mente cociente ou não. Durante todos os anos que se seguiram ela de uma forma socialmente incompreendida vem tentando expor sua visão artística daquilo que sente tão forte. Levando o maior numero de pessoas a sentir o mesmo. Com o tempo, já não fazia sentido assim, era só um dia depois do outro. Uma morte depois da outra.
Ela traiu tudo e todos com quem conviveu. Mas sempre nas sombras, nunca sob as luzes.
Só Alguém como Archa Borlins que respira a própria arte incompreendida é capaz de, durante o dia ou exposta a todos os holofotes, passar entre multidões de figurões, ser amada por milhares e ainda sim ser a mais competente traidora que Dana já conheceu. A musicista francesa é um ídolo intocável na peculiar opinião da assassina. Ela se identifica com a dor secreta do passado e a força para desafiar o futuro. A diferença entre elas? Archa não se deixava controlar pela dor. Até agora.
Passo a passo ela deslizou pelos corredores impessoais do deposito de escoria humana. Escoria humana cheia da grana. Tentava identificar qual poderia ser a origem de algumas manchas nas paredes, sem sucesso. Nada seria capaz de sobreviver naturalmente ali, provavelmente nem as baratas ou os ratos. Não só pela falta de luz ou ar fresco, mas o mal que escorria pelas rachaduras e frestas. Aquilo parecia as entranhas de um dragão de concreto, escuro, fétido e esquecido. Era o útero em que renascera e onde pretendia voltar um dia para morrer, principalmente agora que Archa passara um tempo ali. Dana achava o ambiente feliz e confortável mesmo que sua racionalidade provasse o contrário.
Passando pelas primeiras portas das ‘celas’ ela ainda ouvia gritos abafados vindos de lugares quase desconhecidos daquele labirinto. A cada curva os gritos diminuíam, até o ar parecia se mover com agradáveis brisas atrás dela. A herança divina da mulher parecia impelir a força invisível a recuar. Já visitara a musa ali antes e conhecia os efeitos de seu dom sobre o momento de aflição que a acometia. Deteve-se diante da porta do quarto de Archa, sem espiar pela pequena fenda metálica, daria a musa o tempo e a oportunidade de se recompor.
Falta à maioria a força das próprias convicções, e nessa falha as duas mulheres agem. A maioria das pessoas quando confrontadas com seu passado, seus medos, suas emoções desvia-se da verdade e aceita a mentira. A maioria. Elas são a bela exceção.
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Domingo, 25 de Julho de 2006, 20h47mim – São Francisco – Califórnia – EUA.
Alfred Ausbury e Trevor, uma avenida larga na região nobre da cidade.
— Você não está falando sério, está? — Disse Alfred de dentro de sua limusine.
— Não se preocupe senhor, isso não levará nem dez minutos. — O afoito motorista se esforçava com o macaco para levantar o suficiente do carro para trocar o pneu danificado. — Eu tenho certeza que conferi todos os pneus hoje pela manhã.
— Já faz muito tempo desde que era manhã. — Alfred se ajeitou no banco para aliviar as dores no corpo, ainda levaria dias até se sentir plenamente bem. — Eu não quero chegar atrasado a uma festa que pretende me homenagear e desejar melhoras.
Um homem com roupas que apesar de parecerem novas eram excêntricas, que remetiam a moda de muitas décadas no passado, se aproximava do veículo. A barbicha e os bigodes compridos davam a impressão mal encarada e ‘punk’ que não combinava com limusines. O motorista olhou o homem e então subiu os olhos até o rosto de Alfred pela janela do carro.
— Livre-se dele! — Disse o empresário sem dedicar muita atenção a cena.
— Vou tentar, senhor! — Vacilou o empregado por um instante ao observar a força com que o estranho empunhava uma bengala. — Ei, Você!
Não houve resposta verbal, só o baque surdo da bengala atingindo com força a cabeça do motorista fazendo o quepe voar longe. Alfred sobressaltou-se no banco e encostou-se na porta oposta a posição do homem.
— Em Nova York ninguém tentaria fazer algo tão estúpido com alguém como eu. — Ele juntou os dedos na testa e tentou se concentrar em sua habilidade. Queria ordenar o agressor a fazer algo realmente repugnante consigo mesmo. A simples idéia de ficar a mercê de outro louco fazia-o ouvir o próprio coração.
Outro baque surdo. Alfred imaginou a porta do carro arranhada.
— Chega! — O magnata saiu do outro lado do carro ainda com uma das mãos na cabeça e a outra se apoiando na porta para manter-se de pé. — Não sei quem você é, mas acabou de se meter com o homem errado. — Só então ele deu uma boa olhada no visual do estranho, algo entre engraçado pelo contraste e assustador pela sugestão de insanidade. — Quem você acha que é?
— Metade das pessoas que me conhecem me chamam de Trevor, dizem que meu pai me chamava assim em homenagem a meu avô. — Ele alisou lentamente um dos lados do bigode. — A outra metade me chama pela verdade, ‘filho bastardo da Dona Morte’.
— ‘Filho bastardo...’ cai-lhe bem a alcunha. Você é um dos herdeiros recrutados pelos Observadores das brumas, o médium inútil que precisa ser protegido o tempo todo. — Alfred lançou a ofensa. — Eu não teria alguém tão imprestável sob meu comando.
— Isso é um lado da história. O lado Trevor. Mas não estamos aqui para falar da abrangência de meu comportamento. Vim para falar de você. — Trevor saltou sobre a traseira do automóvel e ficou de pé batendo a bengala no metal. — Um tal Alfred Ausbury, descendente dos ingleses a poucas gerações que conseguiu multiplicar consideravelmente a fortuna da família graças a habilidade de liderança natural. Aviões. Navios. Trens. Participação em grandes empresas de automóveis e motocicletas. E o mais impressionante, submarinos. — Trevor colocou a bengala sobre o carro de forma ameaçadora, Alfred não se afastara para não perder o apoio da porta e poder concentrar-se em seu truque. — Você descobriu os Observadores das Brumas ao investigar seus rivais corporativos e a utilidade de um navio quebra gelo imenso. Com um pouco de informação sua ganância chegou ao ponto de desejar o poder dos herdeiros para si, e vejam só! Você conseguiu. Com isso, o que seria o próximo passo, estar entre os poderosos. Ingressar entre os manda chuva da ordem que idealizou tudo isso.
Alfred temia realmente o homem, não pela bengala e sim pelas informações. Pensava que estava na trilha certa para conseguir seus objetivos em usurpar o poder dos lideres da ordem e agora sentia-se um amador ao perceber que um peão descartável como aquele sabia tanto sobre ele.
— O problema é que eles sabem muito mais que você sobre tudo. O que você chama de poder e influência é o que eles faziam há quinhentos anos atrás. Você está incomodando. Mas quem sou para julgá-lo, vamos confiar no destino. — Ele mediu o peso da bengala na palma da mão e lançou-a girando no ar, o mais alto possível. — Vamos ver em que direção está a próxima morte nas proximidades e eu espero que seja a sua.
— Roleta? Você vai me ofender como um sorteio da minha vida? — Alfred bufou ultrajado. A bengala rodopiou no ar.
— Não eu. É o destino. — A bengala caiu no chão e deu seus últimos giros. — Hum. Seu dia de sorte, crápula.
Trevor pulou no chão de novo e caminhou tranquilamente até pegar a bengala e seguir cantarolando uma sinfonia de Vivaldi que pertence às preferidas de Alfred Ausbury.
— Certo, Observadores das Brumas. Vocês perderam um grande líder e ganharam um furioso inimigo. — Alfred sacou o celular e começou a reformular seus planos.
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Domingo, 25 de Julho de 2006, 21h00mim – São Francisco – Califórnia – EUA.
Alfred Ausbury, Dana Colins, Archa Borlins, Peter Marana e Miguel Orrana, o salão de festas do Hotel Metropolis.
Dana Colins não era o tipo de mulher que usaria um vestido. De qualquer tipo que fosse. Para escapar dessa moda durante um evento como aquele ela recorria a sofisticados terninhos femininos que custavam muito caro, quase tanto quanto os vestidos com assinaturas mais renomadas. Dinheiro não era problema levando em conta a generosidade de seu contrate, ou a natureza daquele contrato.
Ela desceu as escadas que levavam ao saguão de forma discreta e procurou os cantos com o objetivo de não chamar a atenção. Nos últimos dez minutos a finalidade de suas ações mudaram drasticamente, mesmo no fim garantindo que ela tivesse de fazer exatamente a mesma coisa. Matar pessoas. Matar pessoas ligadas aos observadores das brumas. Durante aquela festa não poderia fazer aquilo ativamente, pode-se dizer que se tratava de um trabalho intelectual. Onde ela observava os convidados indo e vindo e pensava como uma assassina para prever como um rival de profissão interessado em riscar seu ganha pão do cardápio. Perguntara-se brevemente o que teria levando Alfred a redesenhar seus objetivos, mas não despenderia muito tempo nisso, esse era um outro patamar dos jogos, no qual ela não se divertiria se entrasse. Seu verdadeiro interesse em estar ali durante toda a noite era o de ver Archa Borlins renascida das lamentações da angustia mental. Estar perto dela tempo suficiente para que ela pudesse continuar a caminhar novamente sob os holofotes. Tinha certeza que o vestido que Alfred reservara para Archa seria um espetáculo a parte no corpo monumental da musa.
Do outro lado do salão Miguel se incomodava com a gravata e não via a hora do discurso, que ainda não havia começado, terminar. Ele sabia que seria estupidez tentar qualquer coisa ali e evitava até mesmo pensar em rotas de fuga e ângulos de tiros. Estava degustando um prazer particular em conhecer a vítima de sua ira. O alguém real em quem ele poderia descarregar toda a frustração das investigações sem resultado.
— Por que, nos seus planos, nós estamos aqui? É melhor falar logo a verdade. — Disse casualmente para Peter antes de beber todo o conteúdo de uma taça de espumante e olhar desconfiado para o cristal.
Peter sentia-se bem com as roupas. E até com o protocolo comportamental atribuído as circunstâncias. O que o incomodava mais era o excesso de pessoas. Multidões, mesmo que não pudesse ser classificado com essa palavra. A pergunta de Miguel, como quase todas, despertavam nele o receio de saber que estava jogando com um sujeito perigoso e imprevisível. Mesmo estando sinceramente do lado dele, por assim dizer, uma frase mal formulada poderia colocar todo seu plano em risco. Peter ainda não sabia de seu sucesso, exceto por um relatório ou outro que Zack-Zack lhe enviara, mas de todos os envolvidos ele era quem tinha mais jogadas bem feitas na trama que se estendia sob os herdeiros naquela cidade.
— O homem que pretende comandar as ações dos Observadores das brumas no lado ocidental do planeta será homenageado aqui. Mesmo sob a fachada corporativa desse evento não preciso dar exemplos das pessoas que estarão aqui e que tipo de articulação vai correr o salão. — Ele pegou uma taça também e deu um gole moderado, pretendia não perder sua percepção perfeita para absorver os eventos da noite. — Quanto mais respeitável alguém parecer aqui, mais probabilidades tem de ser um dos homens dos O.B. e devemos lembrar que talvez, um ou outro entre eles, não queiram que Alfred chegue ao poder.
— Só uma volta e eu vou embora. Sabe que não vou agregar muito aqui. — Miguel falava por falar, não tinha nenhuma outra atividade em mente, dependia de alguma pista encontrada por Peter para voltar à caça do ser de olhos púrpuras. — Vamos só cumprimentar o defunto.
— Seu entusiasmo é contagiante, Miguel Orrana. — Peter disse para não deixar o companheiro falando sozinho, seu celular apitara e atraído pela mensagem começou a ler sobre as alterações de planos de seu chefe, bem como imaginara que seria. — Espero que boa parte dos problemas termine aqui, hoje.
Miguel não escutou as últimas palavras, como todos os presentes ali, sua atenção fora atraída pela deslumbrante mulher que surgira no topo da escada. Archa Borlins usava o vestido negro que parecia feito no corpo dela, um belo corpo, todos concordariam ali, com os ombros e o colo desnudos ela ostentava um colar que parecia ser feito de diamantes, o mesmo matéria de seus brincos e a delicada pulseira. Seus cabelos curtos com corte moderno completavam o visual de musa que lhe era de direito. Os homens costumavam se apaixonar por ela a primeira vista, e não seria surpresa se isso acontecesse a alguns dos presentes.
Miguel também era afetado por aquele charme, de uma forma diferente é claro, para ele era uma atração sexual, um instinto primitivo e selvagem de prazer. A simples visão das curvas daquela mulher lhe levou a imaginar detalhes de uma noite de sexo. Esquecera-se de Alfred, dos Observadores, do diabo de olhos rosas. Caminhou diretamente em direção aos pés da escada para esperar por ela e impedir que qualquer outro homem chegasse a falar com aquela ninfa antes dele. Passos fortes e determinados que não perceberam o sinal de desaprovação feito pelo parceiro.
Antes de chegar lá, contudo, Miguel foi interceptado por uma mulher de terninho caro. Ela pegou-o pela mão e puxou-o para trás de uma pilastra, tocando-o no peito forte simulando a intimidade de amantes e desviando a atenção dos curiosos. A forma como ambos olhavam os demais denunciava, um ao outro, que tipo de coisa pensavam, era um duelo de grandes e esperava-se que não chegassem as vias de fato.
— Você está na cidade a negócios ou prazer? — Ela se insinuou, bancando a vagabunda.
— Me diga você. — Ele entrou na brincadeira, aproximando ainda mais do corpo dela, até encostá-la contra a parede. — Nós já nos conhecemos, não?
— Eu me lembraria se nos conhecêssemos. — Mentiu, estudara-o por um bom tempo como referencia a competência em seu ramo. Permitira-se até mesmo copiar uma ou outra pratica que o alemão costumava usar. — Então eu digo. Que tal se sairmos daqui e... Opa!
— Calma, é só a minha arma. — Disse, prensando o corpo dela contra a parede e acariciando-a no braço. Ainda tinha a sensação de lembrar-se dela.
— Não. Eu quis dizer: ‘Opa, é Alfred Ausbury’. — Disse ao se desvencilhar dele e caminhar em direção ao saguão onde o homem da noite já recebia os primeiros cumprimentos e tinha a seu lado a mulher que todos desejavam. Ela olhava para ambos com admiração, como se fossem seus pais e ela uma criança muito jovem. — Foi um prazer. — Ela disse a Miguel por sobre o ombro. — Nos veremos de novo.
— Alfred Ausbury, o todo poderoso? — Ele procurava manter os olhos no alvo, mesmo com cada vez mais pessoas se apertando ao redor dele. A frustração de ver Archa ao lado dele completava a rivalidade que nutria, tinha aversão a tipos como aquele. Homens que se afirmavam pelo dinheiro e poder político, que só conseguiam lutar em arenas de palavras e usar mentiras como armas. Sujeitos alienados que só enxergavam o fútil poder temporal e sua própria sensação de segurança. Matá-lo seria um favor ao mundo. Seus punhos fecharam de forma agressiva.
— Alfred Ausbury, que acaba de deixar de ser nosso alvo e provavelmente deixará de ser o solteirão mais cobiçado da festa. — Peter disse ao chegar ao lado de Miguel. Fizera algumas ligações para seus pupilos e concluiu a necessidade de iniciar o processo de redirecionar as forças de Miguel para os verdadeiros inimigos. — Tivemos uma reviravolta nos acontecimentos, Miguel. Alfred iniciou uma investida financeira contra as empresas fachadas controladas pelos O.B. a fim de minar o patrocínio de suas incursões. Estávamos errados sobre a interpretação das pistas deixadas por Amélia. Alfred nunca foi, e nunca será nosso alvo, ele é a porta para realmente comprometermos os Observadores.
— Certo! E eu sou um macaco laranja! — Miguel ponderou rapidamente se deveria dar atenção a Peter ou seguir seu instinto de bater boca com Alfred, bater boca ou bater na boca, ainda não decidira. — Não acredito que vocês julguem tão importante esses tipos simplórios, milionários e bonitões com poder de mudar o mundo. Nem eu sou tão maravilhoso. — Sorriu de forma sarcástica, o que deixou Peter mais desconfiado. — Deixa eu dar uma palavrinha com ele.
Miguel abriu caminho entre os bajuladores do poderoso sem muita dificuldade. E quando estava a uma distancia suficiente para precisar decidir se falava ou batia foi abordado pela musa, que virara-se para ele no momento exato que chegara.
— Miguel Savano... Achei que era você. — Ela olhou-o de alto a baixo, desarmando-o diante de sua majestade. — Eu queria que fosse.
— Nós nos conhecemos? Digo... — E mesmo impensável ele parou para rever se conseguia ser gentil, ao menos o suficiente, para ser agradável com uma bonequinha como aquela. — Bem... Você está ótima! Essa atitude de Madre Teresa pop star cai muito bem em você. — Quando disse percebeu que poderia ter pensado em algo melhor.
— Vou aceitar isso como sua versão de um cumprimento. — Ela sorriu fazendo a advertência parecer um elogio. — Por que não me procurou antes? Eu ainda tenho de lhe agradecer por sua intervenção na cúpula ártica.
— Eu estou na cidade a... A negócios. — “procurá-la onde!? Se eu tivesse te achado não teria forças para estar aqui essa noite, delicia!”. Ele não se lembrava dela e nem tentava fazê-lo, nem mesmo se preocupava em saber o nome dela, o que ele queria conhecer tinha um nome comum, em todas as mulheres.
— Uma pena. Miguel, gostaria de apresentar-lhe Alfred Ausbury. — O Sorriso mágico continuava nos lindos lábios dela, graças a esse brilho Miguel esquecera-se por um instante que não gostava do homem.
— Archa me falou muito sobre você. — Eles apertaram as mãos, Miguel impressionado por não triturar os ossos dele e Alfred surpreso por ser bajulado e mimado como desejava. — Acho que temos muito em comum.
— Eu tenho minhas dúvidas, senhor Ausbury. — Miguel retraiu sua violência da melhor forma possível, percebera pela linguagem corporal de seu interlocutor que o mesmo estava fisicamente debilidade, ferido e enfraquecido. Miguel tinha lá seu senso de honra, e investir contra um alvo vulnerável, que não poderia fornecer um bom combate, não lhe enchia de vontades.
— Com licença, eu e Archa precisamos subir ao pódio. — O investidor dentro de Alfred via o potencial daquele monte de músculos. Se tudo o que Archa falara dele fosse verdade, seria com certeza uma aquisição valiosa.
— Me visite, Miguel. — Ele deliciou-se com o último grande sorriso para ele e viu-a se afastar, já sentindo falta dele.
— Claro que visito. — “Gostosa”. Peter chegara nesse momento, evitara se aproximar antes para não denunciar sua posição de agente duplo. Ou como pensara ocasionalmente, triplo. Miguel virou-se para ele com esclarecimento estampado na face.
— Então, você percebeu as possibilidades de revermos nossa estratégia? — O Hacker disse, ainda concentrado nos possíveis resultados do tempo que permaneciam naquela cidade.
— Claro. Pelo menos uma coisa eu vou fazer nessa cidade: descobrir e expor o segredo desse imbecil. — E o sorriso dele fez Peter pensar em formas de xingar alguém tão teimoso sem levar um soco. — Depois vamos ver se alguém se impressiona com o grande e poderoso Alfred Ausbury. — Virou mais um copo de espumante e estalou a língua. Imaginava a diversão que viria nos próximos dias.
Agora eu finalmente consegui entender algo. Eu acho...
ResponderExcluirduas coisas:
1-O Peter não tá bem mais novo que um cara de trinta e poucos anos não? E isso foi só um ano antes de ele encontrar o Nate...
2-a Archa faz cocô? =P