[Uma aula diante de uma grande bancada de alunos ávidos (?) por conhecimento.]
Eu não sei porquê eu escolhi um apartamento como esse. Alto, ‘clean’, muito ‘clean’ na verdade, nem mesmo paredes ele tem. Não sei porquê eu tenho uma janela tão grande e posso ver tantas luzes nem porque tenho tantas luminárias se passo boa parte do tempo com o mínimo de luz
possível. A resposta sempre vem com algo como “você vive em Nova York e tem o dinheiro” e eu tenho de me contentar com esse pensamento simplório. Veja, um casebre rústico não cairia bem nessa cidade, por mais excêntrico e vanguardista que isso possa parecer para os artistas locais – uma nota aqui: melhor não dar essa idéia a eles – o ponto é que eu não vivo sem esse movimento. Sem o fluxo. Sem a emoção.
Não que não se possa ler coisas incríveis nas entrelinhas em cidade pequenas ou esquecidas, na verdade o medo é bem mais fácil de se instalar lá. Ao menos é o que todos pensam. A metrópole é a fuga máxima para os que sentem muito medo. Quem consegue entrar no ritmo ensurdecedor da maça, não encontra mais tempo para ver o medo. Mas ele está lá, crescendo no silêncio. Mas pareceria prepotência se eu simplesmente afirmasse isso, é o meu interesse, sou eu quem lucra diariamente com o medo. Então eu não vou afirmar ou demonstrar com slides ou coisa pior.
Não se preocupem, não vou constrangê-los trazendo-os até a frente e questionando-os sobre os medos dos quais fugiram. Alguns de vocês podem até ter nascido aqui, e só conhecem o pavor do escuro em teoria.
Vamos voltar às primeiras aulas. Quando eu discursava sobre a ciência política, sobre a busca da autoridade e o discernimento da liderança. Lembram? Só existem duas formas de se possuir a verdadeira autoridade. Aquele poder de nobreza, a altivez intocável do modelo máximo de convicções. As formas são: o respeito e o medo.
Mas sejamos sinceros aqui, a sociedade é hipócrita, e os poucos que escreveram sobre essa verdade, são até hoje atribuídos a adjetivos maquiavélicos.
Isso foi um trocadilho.
Uma piada.
Tudo bem, sei que um dia vão entender. Voltemos ao tópico. Todos sabemos que aqui, no curso de vocês, já temos matérias e professores demais ensinando-os sobre o respeito. Vocês estão em uma faculdade particular, então tenho certeza que já aprenderam muito sobre isso em seus lares, com seus pais. Então, vou tomar para mim a confortável posição de ser o único a ensinar-lhes sobre o medo. O que podem inspirar e o que podem entender.
Por que eu comecei falando do meu apartamento? Boa pergunta. Dois motivos claros. Eu torno a conversa mais pessoal, trago-os para perto de mim e prendo a atenção da maioria. E o melhor, poderei usar meu comportamento como exemplo do medo e da fuga, no seu devido tempo.
O medo é fundamentalmente um sentimento. Sentimentos são conceitos abstratos difíceis de mensurar ou definir, mas faz parte de nosso trabalho chegar o mais perto possível. Vamos começar pelo sentido mais amplo e chegarmos ao exemplo corriqueiro, pretendo usar muitos exemplos para ajudá-los a se guiar. Para estabelecer tópicos, vamos limitar de uma forma tosca o medo em quatro faces.
O medo primitivo, o instinto de auto-preservação. Esse é o mais fácil de abordar para o cinema, é o que começa do trash e termina no nojento. Um medo fácil de se entender, por assim dizer, a ameaça é obvia, inteligível, mesmo que subjetiva. Perceptível. A sua vida está em risco e você encontra o medo como ferramenta para se proteger, um impulso de fugir ou lutar pela vida. Pensem em qualquer filme com monstros caçando pessoas, desastres naturais que parecem ter a inteligência de perseguir as pessoas amedrontadas e coisas mais complicadas como vírus transmitidos pelo ar e a fuga é feita contra o tempo. Esse é o medo que sentimos de um cão feroz, o medo que sentidos de uma arma de fogo, o medo de afogar-se em águas desconhecidas. Por incrível que pareça podemos controlá-lo. Abordaremos em detalhes na próxima aula, e os medos seguintes subseqüentemente.
Um medo mais complexo é o que chamamos normalmente de fobia. Um horror irracional de algo que não lhe ameaça necessariamente. O medo mais comum nos Estados Unidos da America é o mede voar. Os aviões simplesmente amedrontam as pessoas e enchem o bolso dos analistas. Algumas das fobias tem origem detectáveis, como o medo de aranhas em quem teve um evento traumático na infância com o bichinho, ou a xenofobia em uma criança que ficou tempo demais perdida dos pais no centro da cidade. Mas esse não é o ponto. A questão é a incapacidade de lidar com esse medo, o pavor inerente de apenas cogitar a hipótese de se deparar com o alvo de sua aversão. E medo está lá o tempo todo, não se pode pensar nele, não se pode se aproximar dele, não se pode impedi-lo. Esse é provavelmente o medo mais poderoso de todos, aquele que molda a vida de um individuo para fugir dele, e é isso que vocês aprenderão a aproveitar.
Agora, o medo da perda. O ser humano... É em especial o Americano, podemos dizer isso... tornou-se extremamente apegado a tudo. Apegado a pessoas, a lugares, a idéias e as coisas. Nessa nossa eterna espiral de muito acumular e pouco ter encontramos o medo de perder qualquer coisa que definimos como nossas. E observe, aqui não se entra coisas inerentes ao ser. A vida, a visão, um membro do corpo, a possibilidade da perda disso desperta aquele primeiro medo do que falamos. Aqui está o medo do sofrer, o medo de perceber que todo seu esforço foi em vão, que as coisas não serão mais como eram em seu estado de conforto. Aqui a abstração chega a pontos drásticos. Podemos explicar com facilidade o medo de um incêndio em casa ou o pesar diante de um assaltante, mas temos de lidar também com a sensação que é experimentada pelo namorado que vê sua garota demonstrar desinteresse no futuro do relacionamento, do fiel que teme qualquer discurso que pode colocar sua fé em questão, ou que teme a perda de uma suposta alma eterna para a danação no inferno. Percebo que esse último exemplo tocou-lhes, perceberam o poder desse medo. É aqui que entra a função que pretendem exercer, o medo da perda de confortos da nação, a perda de coisas que conseguiram edificar sob a bandeira da sociedade. É sobre esses medos que se edificam as leis, as regras de convivo de qualquer natureza, será o medo mais comum em suas vidas e é vital a capacidade de dominá-lo e lê-lo em todos os ambientes.
Agora vocês esperam que eu caia em algum clichê. Acho que vocês vivem esperando que eu faça isso, não é mesmo? Tudo culpa da pequena coleção que repito todo semestre. O que vocês supõem? Medo do próprio medo? Esse é um clichê dos bons, e talvez seja difícil de definir o meta-medo dentro dos três tópicos anteriores, mas para adiantar-lhes, esse medo se enquadra na primeira leva. Sim, o medo do medo é primitivo e instintivo. O medo pode colocá-los em posição de risco, sob a influência do medo nós podemos não agir na totalidade de nossas capacidades e assim não conseguir nos defender adequadamente das ameaças. Alguma outra sugestão? O medo do desconhecido? Excelente suposição, mas também não é isso. Mesmo que não compreendamos a origem ou a natureza de uma ameaça, mesmo que não possamos defini-la como ameaça, esse coisa incógnita desperta um dos três estados anteriores. Se alguém é encontrado morto misteriosamente, você irá temer por sua vida. Se escuta barulhos em sua casa durante a noite, terá medo da perda. Se sente um medo tremendo de qualquer coisa, de sair de casa, de acender a luz, de tocar as paredes, é o despertar a irracionalidade da fobia. O medo restante é o mais complexo, mesmo que em algum momento ele pareça cabível dentro dos anteriores ele é único e particular.
O medo do desejo. Ou de forma mais tosca, o medo de nós mesmo. Não, não façam chacota, isso é muito sério. Esse medo é o que impele muitas pessoas a acordar e seguir suas vidas. O medo do que você fez ser errado, a culpa, o medo de que alguns de seus desejos se realizem e você não possa lidar com isso. Alguns dos maiores medos desse tipo só podem ser detectados no momento em que alguém olha para as próprias mãos e diz “por Deus, o que eu fiz!”. Esse medo leva comportamentos diferentes dos anteriores. Aqui pode-se criar pessoas que guardam segredos benéficos aos demais, pessoas que acometidas por loucuras momentâneas assassinam sua família no conforto de seus lares. Esse é o medo que leva alguém a inventar coisas mais assustadoras do que aquelas que realmente estão a sua volta. Medo que dinheiro demais lhe mostre que não viveu o que deveria, medo de que amor demais lhe cegou e lhe fez injusto, e aqui que nós temos o medo do escuro e do silêncio. E por esse medo que eu moro naquele apartamento. Sim, é provável que esse só fique totalmente claro no fim do curso, temos tempo, não vou por isso na prova final.
Bem, esse é o sinal. Espero vocês na quinta-feira e tragam uma lauda com suas suposições sobre o medo da sociedade e as formas como isso deve ser empregado na construção da figura de autoridade. Boa noite, pessoal.
Nenhum comentário:
Postar um comentário