21 de janeiro de 2009

Se escreve com D. (Um conto para a crônica Imperia).


Terça-feira, 2 de Maio de 2006, 01h05mim – Bel Fast – Irlanda do Norte.
Ryan Benson e Jaqueline ‘Bailes’ Whitewood, um casarão renascentista que atende como pousada.


Quando ela desceu as escadas com a desculpa de buscar um copo d’água por si mesma, e não incomodar a velha senhora que os acolhia ali, ao ver o homem ainda sentado diante da lareira com o livro no colo e segurando os óculos por uma das astes, pronto para cair a qualquer momento, ela conteve o sorriso. Não era permitido sorrir naquela situação, não diante de tudo o que aconteceu. Ela tentou passar atrás da poltrona sem que ele a notasse, parecia estar cochilando, mas no primeiro passo que se permitiu olhar para trás, ele estava olhando diretamente para ela. Com aqueles olhos brilhantes, levemente inchados, que fazia a respiração dela acontecer mais rapidamente.


— Boa noite, Bailes. — Ele disse colocando os óculos desajeitadamente de volta ao rosto.


— Boa noite, Benson. — Ela torceu para que a conversa terminasse com aquele cumprimento e ela não precisasse se torturar com o conflito de ‘flertar’ quando deveria estar se preparando para honrar a família. Mesmo não conseguindo desviar os olhos dos olhos dele, que refletiam as chamas em suas lentes de cristal.


Ele fechou o livro cautelosamente para que a fita vermelha marcasse a pagina sem o risco de qualquer dano as antigas paginas amareladas. Ele poderia ter encontrado aquele livro em muitos lugares, mas sabia que o prazer de ler um exemplar impresso durante a vida do autor, só poderia ser saciado naquela casa.


Ela virou-se abruptamente para escapar da situação e assim desfez-se o frágil coque de cabelo que sustentava seus cachos de forma apropriada para dormir. A madeira do chão da cozinha daquele lugar fazia barulho mesmo sob o pouco peso que ela tinha, era como se uma pequena banda de brownies vivesse debaixo do assoalho e esperassem alguém passar por eles para praticar com seus trombones desafinados. Ela se amparou na pesada mesa que se estendia imponente pela cozinha enorme, percebia que as mãos já começavam a esfriar... os cantos da realidade iniciavam sua contração diante da força dentro dela.


— Não tenha medo. — Disse ele, parado na soleira da porta. — Eu posso ajuda-la se quiser.


Ela queria muito, mas não podia aceitar. Com a morte de sua irmã do meio e a deserção da mais velha, ela era a única capaz de honrar o pacto. De manter as coisas como deveriam ser, não poderia submeter ninguém mais a esse fardo.


— Fale comido, Bailes, somos só nós aqui. — Ele continuou, ainda parado onde estava esperando um sinal dela para se aproximar. — Ainda penso que vim até aqui por você. Foi você quem silenciosamente chamou meu nome.


A doçura na voz dele deixava-a desconcertada. Ela não era de se envolver pelos homens, não se lembrava de já ter se sentido assim antes. Parecia uma adolescente de filmes que só passam a tarde.


— Seja o que for, tenho certeza que não é culpa sua. — A mão dele escorregou pela madeira antiga daquele arco. Madeira capaz de contar histórias incríveis. — Seja lá quem estiver atrás de você, não terá coragem de procurá-la aqui.


— Eles não tem mais medo de bruxas, Benson. Eles se acostumaram aos deuses. — Ela finalmente deixou a voz sair. Em um tom que ela achou desapropriado, deselegante. — Se eu fosse capaz de afasta-los, não tentaria me afastar deles.


Ela poderia ter dito qualquer coisa. Poderia ter gritado ou xingado. Poderia ter sussurrado ou mesmo, respirado mais forte. Ele estava esperando qualquer desses sinais para se aproximar demasiadamente dela, envolvendo-a com os braços na altura da cintura e aproximando-se do ouvido dela como se tivessem a intimidade de um casal de longa data.


— Não é de você que eles devem ter medo, Bailes. Não teriam medo de mim também. O que assusta seus corações... — Ele tomou uma das mãos frias dela e guiou seu dedo indicador para a janela engordurada, e mesmo notando a oscilação da realidade ao toque da pele da mulher aproximou ainda mais seu corpo do dela. — ... É o que essa terra esconde.


Quando ela virou o rosto para respondê-lo, ele segurou suas faces com as mãos e beijou-lhe os lábios como um soldado apaixonado que regressava da guerra aos braços de sua amada. Ela o abraçou pelo pescoço e retribuiu o beijo com igual desejo. E não iriam se satisfazer apenas com isso...



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Terça-feira, 2 de Maio de 2006, 01h32mim – Bel Fast – Irlanda do Norte.
Nathan W. Lancaster e Eduart Winchester, o bosque ao lado de um casarão renascentista que atende como pousada.


Provavelmente Eduart era o único que ficara realmente feliz com tudo o que estava acontecendo. A morte da Bruxa não podia ter acontecido em momento melhor, desde que estava livre se surpreendia com esse mundo tão conturbado que ninguém iria se incomodar com algo como ele andando novamente entre os comuns.


Como uma das bruxas sobreviventes não se importava mais com nada daquilo, deixara de lado a missão idiota da família, ele só tinha de dar cabo de duas mulheres. A irmã bruxa mais jovem, que estava confusa e atrapalhada com toda a responsabilidade sobre os ombros dela, e a garotinha herdeira do poder, que ironicamente, nunca iria desconfiar que ele lhe queria tanto mal.


Aquela noite ele mataria a irmã, assim teria tempo de fazer a herdeira sofrer tanto quanto ele, por anos a fio, até que ele se deliciasse com a suculenta morte dela. Mas não queria pensar muito sobre a morte da criança agora, sabia inconscientemente que depois de se vingar dos Whitewood não teria motivações muito convincentes para permanecer na terra, e não queria voltar para casa tão cedo.


Abaixado entre as altas árvores do bosque ele conferia se o rifle estava montado apropriadamente. Olhava pela mira até a janela da casa onde vira a bruxa pela última vez, queria saber se o escritorzinho de merda ainda teria toda aquela pose depois de ver o miolos da vagabunda espalhados aos seus pés.


Ele deitou no chão cheio de folhas velhas e posicionou o rifle de modo a mirar precisamente pela janela. A bruxa voltaria da cozinha e perderia a cabeça, depois, por diversão mataria o escritor também. Pra ele era quase um favor matá-la, livrá-la-ia de toda aquela baboseira. Ele esperava pacientemente.


Caçando o caçador estava o pontual Nathan. Um pouco mais atrás no bosque ele observava Eduart atentamente, estava ali para impedi-lo, mas sempre havia aquele pequeno detalhe que impedia-o de agir abertamente. Como se livrar de Eduart sem prejudicar diretamente Daniel? E dependendo de como as coisas seguissem, ele teria de abrir mão desse cuidado. Quando arma estava no ponto era hora de um de seus truques favoritos. Com um graveto ele fez três riscos sem sentido na terra, afastando as folhas, depois de um dos bolsos do casaco ele retirou um punhado de pó de mármore e lançou-o no ar, murmurando algumas palavras.


Ut posterus non motum mihi. — Ele falou o mais baixo que pode, e ficou sobre saltado ao observar se sua presa notara algum barulho.


Mas nada aconteceu. Eduart continuou a vigiar pela mira o momento de assassinar a irmã bruxa. Esperaram ali por longos momentos. Até que atracada ao escritor, Jaqueline surgiu a vista do assassino. Não era o que ele esperava, não todos aqueles beijos, apertos e braços de um lado para outro em tentativas afoitas de arrancar as roupas do outro. Tiraria um pouco a diversão matar os dois de uma vez só, mas que opção ele tinha? Puxou o gatilho.


CLICK.


Nada aconteceu. Puxou o gatilho novamente.


CLICK.


Nada novamente. Observou a arma, verificou-a novamente, posicionou-se e apertou.


CLICK. CLICK. CLICK.


— Mas que merda é essa? — Eduart perguntou para o nada, e como resposta recebeu um forte chute nas costelas. — Arg! Quem diabos?


— Desculpa, pai, mas você entenderia o que eu estou fazendo. — Enquanto Eduart começou a se levantar, Nathan acertou outro chute nas costelas. — Pensando bem, não entenderia não. Mas o que posso fazer?


— Seu montinho de estrume. — Vociferou Eduart, levantando-se em um salto e despertando uma luz púrpura nos olhos, apertando as mãos ameaçadoras para Nathan. — O que você pensa que é para me atacar assim, de cara limpa?


Nathan assumiu posição de combate e tentou desferir um soco contra seu oponente. Sem sucesso. Eduart esquivou-se e agarrou o jovem pelo colarinho do casaco e forçou-lhe contra uma árvore. A força de Eduart era muito superior a que o corpo teria normalmente, o ar rapidamente começava a faltar a Nathan.


— E não me faça rir, pivete, nem Daniel cai no seu papinho furado. Eu sei muito bem que você não é filho dele. — Apertou com mais força então. — Não sei quem você é, mas essa sua herança Whitewwod acabará agora!


A pressão no peito de Nathan chegava a seu limite, era a hora de começar a morrer. Então a luz púrpura que já emanava no lugar surgiu também nos olhos do jovem, com a mesma intensidade e ameaça que surgia nos olhos do corpo de Daniel sob o comando de Eduart. Com novas forças, os braços pendidos de Nathan se ergueram e agarraram os pulsos de ‘seu pai’ afastando-os de sim e forçando o adversário a ajoelhar-se.


— É, você tem razão. Não seu filho. Não sou o filho de Daniel. Mas o poder dos Whitewood não é a única coisa que eu herdei. — Ele torceu um dos braços de Eduart com violência, arrancando-lhe um grito agudo. — Eu tenho muito mais aqui dentro, mais que você, espectro. — Socou-lhe o nariz com tanta força que gerou um barulho oco, o luz saiu dos olhos de Eduart e por um instante Nathan teve a sensação de ver Daniel ali dentro, outro soco, e dessa vez veio a inconsciência.


Nathan pendurou o rifle nas costas e arrastou o corpo do ‘pai’ para as sombras do bosque. Observou a casa por mais alguns minutos para se certificar que sua ‘tia’ não teria ouvido nada e seguiria seu curso. Seu destino. Aquela palavra que definia a existência dele próprio.



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Terça-feira, 2 de Maio de 2006, 02h10mim – Bel Fast – Irlanda do Norte.
Ryan Benson e Jaqueline ‘Bailes’ Whitewood, um casarão renascentista que atende como pousada.


Eles subiram as escadas aos tropeços enquanto se atracavam por um desejo primitivo. Chegaram ao quarto com tantos baques e trombadas que nem mesmo saberiam se era o quarto dele ou o dela.


Quando caíram na cama já estavam parcialmente despidos, seus corpos já muito quentes e o olhar, quando se prendia por muito tempo, refletia de um ao outro todo o a excitação que sentiam. As caricias fortes que trocavam ganham ritmo cada vez mais sexual, e entre um beijo agressivo e outro, mais uma peça de roupa se perdia.


Ouviram um grito ao longe, e ela se ergueu momentaneamente, apreensiva.


— Você ouviu isso? — Ela disse entre ofegos.


— Shhhh. — Ele pousou o dedo indicador sobre os lábios dela. — Um dos maiores erros das vitimas do horror, e correr para ele no menor sinal de sua existência. — Então ele lhe abraçou protetoramente e guiou-a para uma posição confortável na cama. — Não tenha medo. Eu estou aqui.


E depois que ele disse, ela percebeu que não tinha medo algum.

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