Segunda-Feira, 23 de Junho de 2008.
Queens's Park, Grande Londres, Reino Unido.
Queens's Park, Grande Londres, Reino Unido.
Ato 1 – O seqüestro.
‘Acho que o melhor momento para começar a contar o que aconteceu é o seqüestro. Uma história feia, ao menos para mim. Achava que meus pais não concordavam com meu envolvimento com William, sabia que eles iriam intervir de alguma forma, mas nunca pensei que seriam capazes de simular o seqüestro da filha. Assim como eles não pensaram que o seqüestro lhes fugiria do controle.
Eu fui raptada na saída do colégio. E no começo até eu pensei que William tinha algo a ver com isso. Minha mãe falou tantas vezes que um rapaz pobre como ele só poderia estar atrás do dinheiro de nossa família que eu só pensava nisso quando sentia o cheiro de gasolina do cativeiro. Meus pais queriam me assustar muito para eu nunca mais ousar olhar na direção de pessoas como William, e os seqüestradores perceberam que eu era uma fonte de dinheiro bem maior do que eles imaginavam.
Quando provei novamente a liberdade, soube que estive um ano inteiro presa. Todos os dias pareciam iguais, e a maior parte do tempo eu não conseguia notar nem mesmo a mudança de dia para noite. Eu não sei nem com que freqüência eles deixavam algo para eu comer. Eu sempre gostei de ser magra, mas não me sentia mais tão bonita quando os ossos se tornaram tão nítidos. Contando agora, a coisa não parece tão dolorosa. Não me lembro mais tão bem como era a dor de ser molestada, estuprada ou espancada. Não me lembro mais como é o cheiro forte das próprias fezes e urina trancadas comigo. A privação não dói quando já se tem tudo de novo. Tudo, claro, menos a vida.
Meus pais pagaram resgates quatro vezes. Quatro pequenas fortunas. Depois de um tempo nem a mídia se interessava mais por mim, era só mais uma pasta na polícia. Mais um caso passado para detetives não tão convincentes para gerarem relatórios a serem mostrados para acalmar os advogados de papai. E quando os seqüestradores já não sabiam o que fazer comigo, o medo de que eu pudesse reconhecer algum deles ou levantar o caso com força total novamente, levou-os a me matar.
A morte liberta, isso não há quem pode negar’.
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Ato 2 – A morte.
‘Lembro-me de ter sido posta em um carro. Ainda vendada, amordaçada, amarrada e machucada. Lembro-me deles rirem e se divertirem em saber que estariam livres de mim. Lembro-me de já não ser capaz de chorar. Eu não cheguei a ouvir qual era o plano deles sobre a forma de me matar, mas me pareceu que algo saiu terrivelmente errado quando o carro colidiu e eu me choquei contra os bancos dianteiros. Nenhuma dor que fosse novidade.
O cheiro de queimado tornou-se forte enquanto se misturava ao gosto de sangue. O barulho de metal sendo torcido e arrancado me deram alguns instantes de saboroso delírio. Teria eu a sorte de no fim o carro de meus algozes bater e eu ser resgatada com vida por bombeiros que não faziam idéia de que me salvariam de muito mais que um simples acidente de transito? Teria eu a sorte de saber que meus agressores morreram de forma trágica? Não... Eu só pude ouvir o ferro ser rasgado e os seqüestradores gritarem. Algo demoníaco urrava e rasgava. A cada urro, e a cada som de carne se desprendendo de osso, um dos seqüestradores parava de gritar. Pensei que a morte poderia ser assim, nós vamos parar direto no inferno e se estiver de vendas nos olhos, só se percebe isso quando os demônios se aproximam de você. O sonho de salvamento deu lugar a certeza que eu seria a próxima no cardápio. A verdade é que isso ainda parecia melhor que deixar que aqueles homens me matassem. A morte deles fazia a minha valer a pena, eles não teriam esse gosto, não, depois de tudo eu conseguiria a liberdade na morte. Foi nessa hora, quando não tinha mais ninguém para gritar, e braços fortes me carregaram para fora do carro, ou o que sobrou dele eu imagino pelo ângulo em que fui carregada, que eu voltei a sorrir, meu primeiro sorriso há um ano, então eu morri.
Minha força se resumia em ser livre, se dado isso não precisava mais viver’.
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Ato 3 – O espelho.
‘Quando voltei a vida as dores que eu sentia eram outras. A luz me incomodava muito, e como era claro! Não conseguia mover os braços, mas era bom ver a luz, ver o espaço além de um metro e meio de distância, sentir a maciez e o cheiro de um lençol. O cheiro, como era bom sentir o cheiro de algo que não provocasse náuseas. Então eu descansei, morrer é muito cansativo.
Algumas horas depois eu me sentia forte como não lembrava que era possível ser. Pensava melhor, entendia melhor. Eu estava em um hospital, as paredes brancas, o sol entrando pela janela, as ataduras cobrindo meus ferimentos, o que me fazia sentir-me uma múmia, e a sensação de satisfação alimentar de estar ligada ao soro. Eu acordei e não vi meus pais. Não é egoísmo meu, mas eu sempre imaginei se eu vivesse o que eles viveram não sairia do lado do leito de minha filha até vê-la acordar, até ter certeza que não iria perdê-la de novo. Eles não estavam lá.
William não estava lá.
Por que ele estaria? Se é que ele realmente não tinha nada a ver como meu seqüestro. Talvez tivesse, ele era criminoso, conhecia os guetos da cidade. Se não estivesse envolvido teria me procurado e encontrado. Sabia onde perguntar, eu chamei por ele tantas noites que ele deveria ter escutado. Mas não tinha ninguém lá. Quando a enfermeira entrou, eu estranhei sua aparência, não usava branco e não parecia distante. Não aquele ar que enfermeiras tem por fazer aquilo todos os dias e olhar para nós como se fossemos só mais um carro na oficina. Ela olhou para mim como se eu fosse exclusivamente responsabilidade dela. Eu não consegui falar, já nem lembrava como fazer. Ela me medicou e eu voltei a dormir.
Isso foi o que aconteceu durante algum tempo. Acho que dias. Eu acordava, entendia o mundo um pouco melhor e voltava a dormir. Me sentia melhor a casa vez. Nenhuma delas meus pais ou William estavam lá. Algumas noites, quando eu já conseguia notar diferença entre elas e os dias, eu tinha a sensação de ter um homem desconhecido sentado ao lado da cama e ele ler para mim. Contos de fada, reconheci algo dos irmãos Grimm, recordo-me de passagens do Ganso de ouro.
Eu voltei a falar e questionei a não-enfermeira sobre onde estava, onde estavam meus pais. Ela não me disse muito, só que o chefe dela logo me esclareceria tudo. Eu não me importei, sentia-me segura ali, tinha medo de sair.
Quando estava realmente bem ela me trouxe um espelho e disse que era hora de retirar as ataduras de meu rosto, as últimas restantes, e que talvez eu gostaria de me ver novamente depois de tanto tempo. Eu fixei meus olhos na superfície refletora enquanto cada faixa ia embora, cada esparadrapo era arrancado, aos poucos eu me vi. Eu não me reconhecia. Não, eu não estava coberta por cicatrizes horríveis, ao contrário, minhas faces estavam lisas e perfeitas, frutos de uma nítida cirurgia plástica. Mas não era eu, não totalmente. Não só pela fome, não só por eu ter me esquecido, não só pela plástica corretiva. Aquele reflexo não era mais o da jovem colegial com sonhos fantásticos e relações rebeldes. Aquele era o rosto de uma mulher feita na dor. O reflexo de alguém que sobreviveu a tudo aquilo e por isso seria capaz de sobreviver a qualquer outra coisa.
Eu me levantei e voltei a andar. Alguns dias de fisioterapia para assumir todos meus movimentos, e a surpresa de não estar em um hospital, somente um quarto muito bem preparado em uma casa enorme e linda, que não era de meus pais. Todos os dias minha enfermeira dizia que em breve “Ele” viria falar comigo. “Ele” sempre estava para chegar, e eu já não conseguia me conter de expectativa.
Por isso eu me lembrei de tudo, por isso agora eu revivi mentalmente tudo o que houve, porque finalmente, o dia de vê-lo é hoje’.
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Ato 4 – O benfeitor.
‘Eu estava sentada no escritório ‘Dele’. Não adiantava, eu já havia procurado por fotografias na casa toda, ao menos em todos os cômodos que não estavam trancados. Não consegui vê-lo, nem associar qualquer nome que li a algo que fizesse ser o dele. Meu misterioso benfeitor, meu salvador, aquele que me trouxe de volta a vida.
A enfermeira, que agora parecia uma espécie de governanta muito competente, me pediu para esperar por ele no escritório. Eu ouvi o carro chegar, tentei ver pela janela, mas não tinha um ângulo muito bom. Sentei-me, o melhor era esperar. A governanta me dera roupas bonitas, e eu me preparei da melhor forma possível para vê-lo, ela me disse que foi ‘Ele’ mesmo quem havia escolhido os vestidos a última vez que estivera lá. Eu acho que era ele quem lia para mim, e mesmo sem saber mais, eu me sentia apaixonada de uma forma esquisita por ele. Seja quem fosse.
Ouvi os passos no corredor e meu coração acelerou. Quando a maçaneta moveu-se eu pensei que o chão fosse se abrir sob meus pés.
“— Olá, Melissa, perdão por fazê-la esperar todos esses dias. Vim o mais rápido que pude assim que tive notícias de sua recuperação. Está se sentindo bem? Ainda há algo que devamos fazer a respeito?”
Meus Deus, como você é lindo! Eu não conseguia falar.
“— Está se sentindo bem, Melissa? Quer que conversemos em outra hora?”
Por favor, me beije! Essa é a hora que você deveria me proibir de falar, me pegar em seus braços e me beijar da forma mais doce que uma mulher pode ser beijada.
É, eu sei, estava parecendo uma criança com paixonite. Ele é mais velho que eu, uns dez anos, eu imagino. Cabelos muito negros, não muito curtos, barba espessa, não parecendo um velho, e olhar brilhante, como o de um garoto. Usava um terno preto que dava vontade de dançar valsa com ele.
“— Melissa?”
Certo, eu tenho que conseguir falar com ele.
— Eu estou bem, desculpe. É que... Eu queria muito lhe ver.
Ele atravessou a sala, só então percebi que ele carregava uma bengala, mancava dolorosamente da perna esquerda. Pensei que se sentaria atrás da mesa grande, como um presidente, mas não, ele arrastou uma cadeira menor para perto da mim e sentou-se diante de mim, tomando minha mão e sorrindo. Ficava ainda mais bonito quando sorria, não conseguia deixar de notar.
“— Eu também estou muito feliz em lhe ver. Queria muito ter ficado aqui todo esse tempo, mas haviam coisas a ser feitas pela segurança de todos nós.” Ele afastou uma mecha de cabelo do meu rosto, carinhosamente. “— E gostaria de saber se esta bem o suficiente para irmos direto a alguns assuntos dolorosos”.
Não se preocupe, já me torturei com meu sofrimento sozinha antes de você chegar. Tudo o que me disser será apenas confortante, só não vá embora. Não me deixe novamente.
Claro que não disse isso, mesmo querendo. Apenas concordei com a cabeça. Enquanto sentia seu perfume, ele tinha um cheiro ótimo, cheiro de homem. Cheiro de proteção.
“— Melissa, preciso que você saiba que para o mundo você está morta. Todos pensam isso. Os jornais noticiaram as constatações do polícia há meses e até mesmo um corpo identificado como o seu foi encontrado. Por isso seus pais não vieram aqui, eles não sabem que está bem”.
— Por que? Por que não contou a eles?
“— Escute-me, isso é muito importante. Quando lhe salvei, não pretendia devolver-lhe apenas a liberdade que lhe foi tirada. Eu lhe dei mais liberdade que qualquer pessoa pode ter. Está agora livre de tudo. De todos. Pode fazer o que desejar”.
Eu sentia isso. Conforme ele falava, eu sentia isso. Se estava morta, não voltaria a vida regrada por meus pais. Eu sentia que estava preparada para algo muito maior, e que seria aquele homem a me guiar para essa nova jornada.
— Eu entendo. Sinto-me livre. Obrigada.
Eu teria de agradecer para sempre.
— Obrigada.
Meus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Muito obrigada.
Eu deixe-me cair com os joelhos no chão, abraçando as pernas dele e chorando. Um pouco de choro de dor reprimido por tanto tempo, um pouco de choro de alegria por entender o que estava por vir. Alegria por estar ao lado “Dele”.
Naquele dia eu não perguntei-o como se chamava. Não era importante. Afinal, meu nome também não era Melissa’.
Eu gostei particularmente desse. :-)
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ResponderExcluirahahah, eu ri-me contigo agora :)
Eu troquei de endereço (oreosdebaunilha) porque quando iniciei com o meu blog tinha uma ideia totalmente diferente acerca do que deveria escrever e de como me deveria expressar.. agora mudei o URL porque o blog ficou mesmo 'Snoopy eats cheese' e não 'Oreos de Baunilha' :p
Gostei do texto ;D
Beijocas ^^