9 de abril de 2009

Primeira lição: Como odiar alguém em três passos.

‘Eu corria. Corria com os pés descalços na terra vermelha. Atrás de mim, me perseguindo, vinham leões. Leoas, caçando comida para sua família. Para seus filhos. Meus pés sangravam, estavam em carne viva, a corrida era minha respiração, a fuga era minha vida.
Não por mim, eu desistira de mim muita terra atrás. Eu corria por meu filho, de pele negra como a minha, já sem forças para chorar, eu corria no coração da áfrica para salvar meu filho da fome, da dele e da dos leões.
A verdade é que não havia para onde correr. Minhas pernas falhariam em breve, mas não havia forças para parar também. Eu não conseguiria olhar para meu bebê sem que eu mesma estivesse a beira da morte por tentar.
Dois tropeços, a distância entre mim e a fome diminuía, mais um e seria o fim. Surgira então a esperança, diante de mim, a uma distância alcançável estava a árvore, como se nascida diante de meus olhos. Frondosa e verdejante, como nenhuma vista nas savanas da África. Ela chamava por mim, me oferecia seus galhos para guardar meu bebê, e foi o que eu fiz.
Escalei-a como se fosse fácil fazê-lo, mesmo com as mordidas dos felinos em minhas pernas, mesmo sangrando para a morte, depositei meu filho no galho mais alto que alcancei, deixe-me alimentar e salvar a vida dos filhos das leoas então. Eu já podia morrer, e esperar, que meu filho encontrasse seu caminho para viver sob a proteção da árvore’.
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‘O som dos monitores de sinais vitais era a música da minha vida. A canção que ouvia já há alguns anos. Meu corpo se tornara um vegetal após um derrame, minha mente recuperara totalmente a lucidez, mas nada me obedecia, não movia meus dedos, não falava por mim boca não direcionava meus olhos. Eu era um vegetal que sustentava o hospital, estava na horta e quanto mais tempo fosse mantida viva, mais dinheiro iria para o bolso dos médicos corruptos.
Eu sempre fui uma mulher boa, acredito. Tive três filhos saudáveis e os criei com todo o amor mesmo depois de me tornar viúva prematuramente. Graças a meu trabalho árduo, ainda pude adotar uma quarta criança e dar-lhe tudo o que dei aos anteriores, educação, carinho e tudo o necessário para garantir suas atuais carreiras promissoras. Todos fazem muito sucesso hoje em dia, vantagens da cidade grande onde lutei para criá-los.
Há sete anos eu sou um vegetal. Há cinco anos não recebo mais nenhuma visita de nenhum dos meus filhos. Parece tranqüilo, na verdade eu nem sinto qualquer tipo de dor, porem esperar a morte dia a dia é um processo extremamente cansativo. Luto diariamente contra a insanidade da solidão absoluta. A dor dos filhos ingratos. O sofrer de ser usada como fonte de renda inescrupulosa. Foi duro viver, nunca esperei que seria ainda mais difícil morrer.
Existe alguém, que não pude ver quem, com coração no mundo. Alguém com princípios o suficiente para matar-me e eu serei eternamente grata a pessoa que sorrateiramente entrou a noite em meu quarto e matou-me. Desligou meus aparelhos e deixou-me sufocar até a morte.
Meu assassino é meu herói. Obrigada por tudo’.
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‘Novamente minha pele é negra e estou correndo. A terra é outra, tem uma cor mais clara. Meus pés, bem menores agora, sou uma criança, não estão sangrando apesar de doloridos. Eu choro e corro, minha mãe mandou-me correr e eu o faço. Mamãe e papai pegaram fogo, atearam fogo neles e eu espero que eles tenham ido para o céu.
Os homens de capuz branco e pontiagudo usam fogo, tiros, espetos e porretes para nos punir por nascer. Eles se dizem membros de uma coisa com um nome estranho, e caçaram papai que tentou me esconder, depois caçaram mamãe que tentou me levar para longe. Agora estou sozinha correndo pelo bosque para viver. Meu pecado foi nascer e não quero paga-lo com a vida.
Não quero morrer queimada.
No bosque eu corro, sem medo de bruxas, fantasmas, monstros ou bichos. Tenho medo do homem e de sua intolerância. Coisa que eu deveria só entender quando fosse grande, mas vivo na pele, na lembrança dos gritos de mamãe, do que é e como funciona o ódio. Eu não os odeio, nem mesmo os entendo, meus sentimentos e minha força estão exclusivamente direcionados para sobreviver a eles. Eu corro pelo bosque, entre raízes e lama, mas minhas pernas são curtas. Quando menos espero eu caio na lama, assustei-me com um deles que viera da direção oposta. A tocha na mão dele refletia em meus olhos, o calor que me levaria até meus pais.
Já não tinham tanto tempo, o espetáculo já ocorrera lá atrás, crianças eram salvas do show, nossa morte era silenciosa e esquecida. Morri com tiros de espingarda, manchando a lama com meu sangue de gente negra.
Eu vi nos olhos do homem de capuz branco todo ódio, raiva e rancor. Eu só pude retribuir-lhe com o olhar de amor que meus pais me fizeram ter, no fim das contas eu não queria viver em um mundo onde meus ‘iguais’ faziam coisas como aquelas. Eu senti a paz no fim, e deixe-me ser levada por ela.
Eu não fugi para a floresta, fui guiada por eles até lá. Mas agora estarei de novo no colo de minha mãe’.
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‘Eu sou linda. Ruiva. Rica e com um excelente casamento em vista. Não só porque ele é de uma família tão importante como a minha, mas também porque eu me apaixonei por ele. Nossas famílias iriam fundir suas empresas e transformas as duas fortunas solidas em um colosso de dinheiro. Cresci nessa casa maravilhosa onde nado dia sim, dia não, a fim de contribuir com a forma física. Confesso que não me esforcei tanto para ser feliz, mas não posso ser culpada por encontrá-la antes do sofrer.
Não sou uma pessoa fútil, me dediquei ao estudo do direito internacional e hoje represento meu pai em quase todos os eventos beneficentes de sua empresa e seus patrocínios as artes e esporte. Lido da melhor forma possível para tornar a vida das pessoas melhor, lido com o que tenho e não o faço pelas aparências.
Estou nadando para não esquecer-me de como é, como é essa segurança da casa de meus pais. Esse casamento é meu último passo para a definitiva vida adulta, quando minhas responsabilidades como pessoa. Depois da lua de mel eu e meu futuro marido iremos planejar o direcionamento do fundo de amparo para os moradores de rua da cidade, não lhes prometo piscinas mas será muito mais que meu irmão faria.
Isso depende do ponto de vista, é claro. Ele é capaz de matar pela empresa do meu pai, capaz de me matar. Quando tentei sair da piscina ele segurou minha cabeça para baixo d’água. Me afogou como um gesto máximo de traição. Conforme meus pulmões se enchiam de água eu via meus sonhos fugirem, via a ajuda aos necessitados ir, via o império de minha família condenado a ganância sem pudor de meu irmão.
A água tentou me acalantar. Tentou sussurrar as canções doces que ouvi no seio familiar daquela casa. Mas eu não quis ouvir, preferi lutar e me debater tentando agarrar meus sonhos, meu futuro, tudo o que eu faria de bom... Tudo que escorreu de meus dedos como se fosse água.
Eu morri pela traição e a avareza por nunca ter usado dos mesmos modos’.
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‘Eu obedeço ao meu rei. O Deus dos deuses. Sou uma serva de Odin e sigo suas ordens sem questões. Sem dúvidas. Com minhas asas de prata e minha lança destruidora sigo as ordens de visitar o mundo sob nós e angariar as almas dos melhores guerreiros mortos em combate. Combate com o tempo ganhou um entendimento diferente do que era em eras douradas.
Algo grande está vindo, algo muito grande, uma guerra silenciosa começa e precisamos de soldados e armas. Eu vou forjar a maior delas.
Descer dos céus é um experiência fantástica. Romper as camadas entre os mundos é refrescante, animador, é mais que tudo do que me recordo da vida mundana. Eu sinto o cheiro dos heróis, sinto o cheiro da morte e este é o norte da minha queda. O tempo não é meu rival, é minha ferramenta, eu o rompo com as asas abertas e ele me mostra o caminho a seguir. Sou uma coletora de almas, mas os homens não me temem.
No coração da áfrica eu busco o sacrifício e o encontro. Seu perfume é forte e amadeirado, meu senhor enviara a árvore da vida para dar sentido a tal morte e eu angariei tua alma para forjar a arma. A nobreza de uma mãe não se questiona, seu legado será a vitória.
Entre as paredes frias de um hospital esquecido em uma grande metrópole dos homens eu busco a solidão e a encontro. Esse perfume é acre e azedo, agradável apenas aos gostos mais refinados, meu senhor enviara seus corvos para recompensá-la pela coragem, eu convido sua eternidade a forjar a arma. Ela jamais estará sozinha novamente.
Na injustiça do preconceito do interior de uma nação eu busco a inocência e a encontro. O odor dos campos e flores claras durante a noite me guia até lá, meu senhor enviara a paz para justificar a dor, a vingança só é descartada pelos mais nobres, eu abro meus braços para a alma que serve de alicerce a arma. Será protegida do mal e não voltará a vê-lo reinar.
Pelas janelas da mansão gigantesca e ostentosa eu vejo a traição em andamento, busco o potencial das virtudes e o encontro. Seu cheiro forte de minério se mistura a algo doce e suave, meu senhor enviara as nereidas sob as águas, portal universal entre os mundos, para apaziguar a morte terrível e fortalecer o espírito ainda não completo, eu roubo sua alma de seu caminho de retorno, ela não tem escolha, mas a arma precisa dela.
Não são almas suficientes. Não para tal arma, falta-lhe a força motriz, o afiamento, o poder inesperado. A última alma que ceifo, sem hesitar, é minha própria. Dentro de mim eu procuro o sentido e o encontro. Atravessada por minha lança vejo meu sangue brilhante escorrer, eis o amalgama primordial. A mistura de almas necessária para equilibrar as forças na guerra. Das mortes nobres forja-se a arma plena.
E essa arma é uma mulher. Nós somos a arma’.
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Ato 2 – O roubo.
Shantel acordou solitária na cama coberta por lençóis de seda. Sua cabeça girava e sua visão demorava mais que o habitual para se adaptar a luz. Sentada em uma cadeira próxima, sua algoz aguardava com um sorriso irritantemente sincero nos lábios. Apesar do sonho complicado, o que Shan realmente gostaria que fosse um sonho não havia sido.
Agora a cantora usava um vestido estranho com muitos babados. Algo que ela nunca usaria a menos que fosse para uma festa a fantasia. Preocupara-se por um instante em quem e como ela foi trocada, nada muito bom lhe veio a mente. Ver aquela mulher olhando para ela era desagradável e constrangedor, mas preocupava-se com seu amado e se ele estaria bem e seguro.
— Onde está Henry? Já fiz o que você queria. Cadê meu telefone? Deixe-me ligar para ele! — Ela esbravejara como uma ordem, queria em seu íntimo adquirir algum controle sobre a situação, a sensação de impotência era extremamente desagradável. — Onde estão minhas roupas, por que estou usando essa coisa ridícula?
— Seu homem está bem. — Disse Archa. — Mas não acabamos por aqui, ainda há algo que você precisa viver para aprender realmente o que significa seu nascimento. — Archa levantou-se e abriu a porta, onde dois seguranças esperavam do lado de fora. — Querida, venha comigo, é hora de você se alimentar antes que a fome lhe torne inconseqüente.
Contra sua vontade, Shantel obedeceu. Saíram do quarto e começaram a seguir o corredor que era ricamente decorado com quadros incríveis e bustos esculpidos em pedras com eficiência histórica. A jovem procurou por algo ali que pudesse ser usado como arma, mas fora frustrada pela ausência das mesmas e o porte ameaçador dos muitos seguranças que surgiam das portas e estavam possivelmente armados.
Archa deteve-se diante de uma nova porta e direcionou o sorriso inquietante novamente a garota. Algo no Olhar da mulher era ainda mais assustador que seu comportamento, a idéia do que ela seria capaz de fazer preocupava muito mais do que o que já havia feito. Shantel entendera a gravidade de sua situação, as formas que a prendiam aquela mulher e tudo o que lhe restava era dedicar-se ao máximo para encontrar uma forma de se livrar.
— Aqui, minha querida, está seu alimento. Já lhe falei sobre a necessidade de usurpar a inspiração humana. Basta repousar as mãos na fronte de seu escolhido e permitir que seu corpo faça o resto. — Ela colocou a mão rapidamente sobre a testa de um dos seguranças e Shantel teve a sensação que filetes de energia elétrica se formaram entre a pele dos dois. — A sensação é uma das melhores coisas de nossa condição.
— Isso ira matar a pessoa? — Shantel perguntou a seco.
— Na maioria das vezes, não. Alguns se tornam vegetais ou doentes mentais, outros simplesmente perdem o impulso de viver, tornam-se autômatos do capitalismo ou tiram suas próprias vidas em desespero. — Archa olhava através da janela no fim do corredor, como se lembrasse das pessoas com quem já fizera isso. — É um preço mínimo para pagar pelas maravilhas que experimentamos.
Shantel não conseguia pensar plenamente. Tudo era confuso e seu corpo estava debilitado, o rancor lhe embebedava e a impotência lhe minava a perseverança. Desenhara um plano mentalmente do qual não se orgulhava completamente, mas era o que tinha e precisava tentar algo, por mais impróprio que parecesse.
— Eu farei. Mas não quero você lá comigo. — Tentou não olhar nos olhos de Archa, era uma espécie de blefe.
— Querida, a última coisa que eu faria nessa vida é invadir sua privacidade. — O cinismo só era percebido pela lógica, as expressões faciais de Archa eram sempre agradáveis e convincentes. — Estarei aqui no corredor esperando por você.
— Eu quero que ele entre comigo. — Shantel insinuou sobre o segurança do qual Archa provara a essência minutos atrás. — Depois disso espero que me mostre que Henry está bem.
— Sem objeções, querida. — Com um menear de cabeça ela ordenou que o guarda seguisse com a convidada para dentro do quarto. — O senhor Tompson está muito bem agora, graças a você.
Shantel entrou no quarto seguida pelo capanga. Lá dentro um homem jovem de cabelos negros, despido da cintura para cima, esperava caído no chão. Amarrado, amordaçado e vendado exatamente como o namorado dela estava na noite anterior. O quarto estava decorado de uma forma muito semelhante ao anterior, muitas almofadas e tecidos de cores vivas que disfarçavam a perversidade do lugar.
A garota ajoelhou-se diante do rapaz caído e tirou-lhe as vendas. Seus olhos demonstravam o pânico que lhe corroia. Ela se levantou novamente e virou-se para o segurança.
— Você está armado?
Ele não respondeu. Então ela se atirou sobre ele no intuito de tomar-lhe uma possível arma debaixo do paletó. Ele reagira e sacara a arma antes dela a tocar, segurando-a apontado para cima e afastando a menina com o outro braço.
— Ótimo, você tem uma arma. Eu quero que você atire na minha cabeça se eu passar do limite com ele. — Ela apontou para o rapaz do chão. — Fará isso?
— Não. — Ele respondeu sem dar muita atenção.
Ela lançou-se sobre ele de novo, tentando tomar-lhe a arma, mas a superioridade física dele era inquestionável. Ele a afastara novamente sem dificuldades, ela caiu de joelhos próxima ao rapaz e lançou um olhar de suplica ao segurança.
— Por favor, mate-me se algo der errado. — E novamente ele não parecia disposta a responder. — Você sabe falar, consegue completar uma frase?
— Só recebo ordens da senhorita Borlins. — Falara como um robô.
— Que bom, você consegue falar. Atirará em mim caso algo saia errado? — Estava a beira de começar a gritar com ele.
— Tudo bem, eu farei. — Não foi convincente, mas era o que Shantel tinha e teria de trabalhar com isso.
Ela colocou dois dedos na testa do rapaz e concentrou-se no que Archa havia dito. Sentia os dedos formigarem e a nuca arrepiar. Tirara os dedos com medo do que estava acontecendo, olhara novamente para o guarda que não demonstrava emoções, ela não queria matar uma pessoa, ou destruir a vida do rapaz de qualquer forma. Mas Henry ainda poderia estar em perigo, não podia confrontar a mulher nessas circunstâncias.
Tocara novamente o rapaz e começava a sentir pequenas ondas de choque percorrerem seu corpo. Era agradável, revigorante, prazeroso. Algumas imagens vinham a sua mente, provavelmente lembranças superficiais do rapaz, ela podia saborear o medo, sentir a familiaridade da casa dele, lembrar-se dos últimos beijos na namorada. Todo seu corpo estava mais forte, sua mente clareara. O poder pulsava por entre seus músculos dando-lhe emoções ainda não conhecidas. Era degustar o prato máximo de um grande chefe, mas fazer isso com o tato.
Então ela resistiu. Retirou a mão da fronte do rapaz que continuara lá, agora com os olhos vítreos e vazios. Seu olhar perdera o brilho e o foco, o vazio daquela mente nunca poderia ser compensando, o poder que Shantel sentia não valia a destruição de uma vida. Um dia o rapaz seria vingado, e Archa seria o alvo dessa vingança.
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Ato 3 – O vidro.
O sobressalto da usurpação permanecia em seu corpo e agora ela sentia-se forte o suficiente para fugir dali. Quando deparou-se novamente com Archa teve dificuldades em impedir os impulsos e saltar na garganta dela. Não queria mais ser um brinquedo, não queria mais olhar para aquela mulher, linda para todos, que era um monstro para seus olhos.
— Ou você me deixa falar com Henry agora ou eu vou embora daqui, mesmo que em um saco plástico preto. — Disse projetando-se sobre sua agressora.
— Querida, não se exalte, já devolvi Henry em casa há um bom tempo. Seja uma boa garota e venha comigo, já estamos prestes a terminar por hoje. — Aquele sorriso, aquela mesma curvatura de lábios que despertava um ódio primitivo no peito de Shantel. — Não queremos que sua educação seja comprometida logo no princípio.
— Chega, eu estou fora. — Ela disse e virou-se, caminhando em direção as escadas que possivelmente a levariam para o andar de baixo e então para fora da mansão, a menos que fosse arrastada de volta ou levasse um tiro. — Procure outra para torturar, isso já foi longe demais.
Ela pode andar metade do corredor, nenhum segurança foi até ela, nada a impediu até chegar próxima aos degraus, e quando por um instante sentiu-se livre, quando percebeu que talvez tenha sido só isso, só uma noite ruim que terminaria com um simples ultimato, Archa a chamou de volta.
— Shantel, minha querida. Como pretende ir embora assim, simplesmente... — O Barulho de um tiro ecoou pelo corredor. —... Se acaba de matar um homem?
Ela virou-se a tempo de ver o corpo do segurança com quem conversara cair aos pés da anfitriã, o sangue espirrado na parede. No rosto da assassina aquele mesmo sorriso, aquela mesma fronte sem marcas de expressão.
— Você é completamente louca. — Shantel não teve ao menos tempo de perceber o quão responsável ela era pela vida perdida, sua confiança recém adquirida escorreu para longe. — Mas não é simples assim, eu não tenho pólvora nas mãos.
— Criança, já não lhe disse para não insultar meu intelecto? Não seria obvio que eu tenho total domínio da situação? Enquanto você dormia eu deixei tudo pronto em todos os detalhes, você não pode escapar do seu destino. — Archa guardou então a arma que ostentara como uma taça em sua pequena bolsa de mão, que um segurança servilmente lhe entregara, e virou-se para caminhar até o fim oposto do corredor. — Vejo que se cansou, prometo-lhe que essa será a última lição de hoje. — Ela abriu as portas e uma luz azulada cobriu seu corpo enquanto esperava pela cantora.
Shantel foi até lá. O que mais poderia fazer? Ela pensava. Dentro da última sala do andar existia um ambiente circular revestido de mármore branca. Da metade da parede oposta a porta até o alto do teto encontrava-se um vitral de só duas cores, o que seria branco e vidro limpo, mas devido a noite lá fora fazia um complexo jogo de preto e branco desenhando um grande anjo de traços femininos com as asas abertas como se debruçasse-se sobre o centro da sala. Centro no qual encontrava-se um pequeno pedestal também em mármore que sustentava uma bacia dourada com marcas de cunho.
Archa aproximou-se da bacia e móvel seus dedos vertiginosamente sobre ela, a luz azulada parecia vir de dentro da bacia, dando um toque espectral as duas mulheres e a todo o lugar.
— Essas são minhas águas de Oráculo. Aproxime-se delas, minha querida. — E a anfitriã se afastou, observando sua aprendiz do local distante, fora da luz.
— E o que devo fazer? — Shantel disse enquanto observava o liquido azulado que brilhava no fundo da bacia. Não era ralo como a água, mas não chegava a se tornar algo viscoso. — Com isso aqui que você faz aquele chá?
— Observe as águas. Você saberá o que fazer. — Archa recostou-se na parede de mármore e assumiu um semblante distante, para ela aquele era o ponto que findava a rebeldia de sua afilhada, naquela água estava a lealdade, e o instinto faria Shantel bebê-la. — Siga seu coração, querida.
Shan observou a água. Bateu na bacia para ver o liquido ondular. Aquilo parecia ter vida, parecia mover-se de forma contraria a física coerente. Sentia vontade de lavar o rosto com ela, sentia vontade de bebê-la. A água transmitia calma, paz como aquela que recusara quando se afogou pelas mãos do irmão. Talvez fosse hora de aceitar, um pouco de paz era tudo do que precisava. Ela juntou as mãos em concha e levou-as a boca.
Antes de beber o teto caiu em uma infinidade de cacos de vidro.
O anjo debruçou-se de verdade, e através dele um homem grande com movimentos rápidos caiu no centro da sala. O pedestal partiu-se, a bacia voou e tilintou no chão, a água se perdeu. O homem de calças e camiseta preta usava uma jaqueta de couro marro bem surrada, ele tinha a barba por fazer e um olhar de brutalidade. Muito musculoso e bem mais alto que a maioria, ele assustou Shantel por um instante, só até Archa Borlins começar a gritar, e aquela gritaria era como sinfonia para Shan.
— Não! Você não pode vir aqui! Não você! — Ela sacou a arma da bolsinha e brandiu-a na direção do invasor. – Saia daqui agora! Saia! Saia!
— Cala a boca. — Ele disse com indiferença, quase que com tom cômico.
O invasor colocou uma perna para trás e gingou o corpo, como se fizesse alongamento para as costas, quando retornou a torção e tirou a perna do lugar, projetou todo o corpo e o peso do mesmo em um murro direto na boca de Archa. O sangue espirrou e a mulher foi ao chão inconsciente. Nariz e dentes quebrados. A arma e a bolsa caíram no chão, e rapidamente Shantel as recolheu e prendeu-as ao corpo.
O invasor estendeu a mão para a jovem e ajudou-a a chegar a porta. Não era exatamente um cavaleiro de armadura brilhante, mas a salvação veio muito bem a calhar.
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Ato 4 – O bueiro.
‘Sabe, não é bem a minha cara sair por ai salvando garotinhas indefesas. Mas, cara! Como valeu a pena dar uma bífa na cara da vagabunda.
A pirralha perguntava todo tipo de coisa enquanto a tirava do casarão. Puts, alguém devia ensinar essas mulheres que gratidão se paga com silêncio. No fim tudo deu certo, como Peter disse, derrubando a cafetina os cãezinhos todos ficaram atordoados pela quebra do glamour, por tempo suficiente para eu chegar no muro. Eu não podia perder a chance.
— E ai, sabe voar?
Eu queria muito uma resposta tão fresca como a bonequinha.
“— Não”.
Dã. Se soubesse não precisava de mim e eu podia ter ficado bebendo e paquerando.
— Pois vai ter de aprender.
Eu a segurei pelo vestido na nuca, não noto muito as roupas delas, eu realmente prefiro-as sem elas, mas aquele vestido era realmente ridículo. Onde mesmo que Archa achou esse, no circo? Pus a outra mão entre as pernas dela, e na hora não tive a maldade, na próxima presto mais atenção. Joguei ela por sobre o muro. Pulei em seguida. Por que será que isso não me parece exatamente o que a maioria das pessoas faria?
Como assim, jogou ela por sobre o muro? Ora, a taumaturgia tem suas vantagens. Não sou bom com aquelas viadagens que a Archa faz, mas se tem algo que me da a vantagem nessa coisa toda e o ferver do sangue. Força, resistência, velocidade... Dói pra burro manter isso por muito tempo, mas ver a Archa cair valeu a pena.
Isso ta repetitivo, né?
Isso tem que estar repetitivo! Vou contar isso pra todo mundo pro resto da vida! Socar a Archa deve ser a fantasia sexual de metade do domínio.
Descemos a rua, quando escondi a garota atrás de uma parede, percebi que ela esfregava o braço. É, tenho de me lembrar de ser mais gentil com a porcelana. E como não podia me dar ao luxo de deixá-la correr sozinha em céu aberto, hora de um passeio turístico diferenciado.
Arrancar a tampa do bueiro. Será que ela ficou impressionada? Eu ficaria. Será que ainda vou me dar bem no fim da noite? Hora do trocadilho, não posso resistir.
— Sente-se livre da merda toda?
Tá, não ia esperar ela responder dessa vez. Empurrei ela nos esgotos. Depois disso acho que ela não vai mais quebrar meu galho no fim da noite. Correr na merda é algo realmente desagradável. Se essa pirralha não der conta do recado eu juro que mando ela de volta pra Archa com uma fita vermelha amarrada nos peitinhos.
Ela esfregou a arma da Archa com merda. Tirar digitais? Bobinha não? Ela vai aprender sobre a mamãe a duras penas, bom assim, forjar uma guerreira na dor impede que a próxima geração tenha uma Archinha. Ou duas Archinhas.
Blá-blá-blá meu namorado. Blá-blá-blá eu quero dar pro meu namorado. Blá-blá-blá precisa saber se ele está bem. Garota chata.
— Eu dou conta dele também.
Acho que me expressei mal. Ela pulou sobre mim, o que ela queria, me bater? Deu de cara na merda. Me abaixei perto dela, alguém que tenta me bater merece meu respeito.
— Eu quis dizer que, eu dou conta de salva ele também. ‘Querida’.
Ela jogou merda na minha cara. ELA JOGOU MERDA NA MINHA CARA! Eu ri, essa é das minhas. Seremos muito felizes em nossos futuros encontros. Levantar, correr, a fervura do sangue não duraria muito mais tempo.
Blá-blá-blá meu namorado bate em você. Sério? Olá, cara que arranca bueiros aqui! Mas deixa, não é o objetivo aterrorizar a menina. Hora da lição.
— Escuta, eu não sou seu amigo. Não sou seu herói, e o contato mais próximo que vamos ter é sexo se você tiver afim. Tá, eu posso não estar muito sexy coberto de merda, mas olha só você!
Direto ao assunto, vamos ao assunto.
— Archa não é uma líder de torcida magoada, ouviu bem? Ela vai fazer muito mal a qualquer um próximo a você se não jogar com as regras dela. Esse seu namoradinho, sua família, seus amigos, todos vão estar na mira dele, e tu já deve ter visto que a noção de prejudicar que ela tem ta muito além de fazer alguém perder o emprego. Acho que tu mora por aqui...
Arrebentar novo bueiro, sangue esfriando, bem mais difícil agora. Mas deu pra fazer.
— Faça o que ela quer, aprenda tudo o que puder com ela, conhecendo os truques da bruxa você aprenderá a se defender deles. Me ajuda e eu te ajudo, ela anda tendo negócios com uns alemães, e garota, eu odeio alemães. Eu te acho de novo, me diz o que tu descobrir que eu me esforço para manter teu queridinho a salvo.
“— E qual é seu nome?”
Por que sempre precisam de um nome? Lá se vai minha vantagem de ‘cara gostosão e misterioso que salvou minha vida’.
— Miguel.
Eu aprendi a gostar desse nome. Vale pra todo lugar.
— Agora sobe ai, ta em casa.
“— Você tem de consertar esse bueiro.”
É?
— Chama a prefeitura.
Agora é deixar os minutos correrem e subir no prédio do lado para vê-la tomar vários banhos. Afinal eu tenho de ter certeza que ela ficara bem... Claro’.

2 comentários:

  1. Já estava com saudades da tua escrita =$
    Tens tanto dentro de ti, és como uma pequena caixa de Pandôra :)
    É o mistério por um lado, a sinceridade por outro.. é lindo isso.
    Gosto mesmo como escreves.
    Beijinhos :*

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  2. Olá =)

    Tenho que informar que o meu blog (Snoopy eats cheese) está apenas disponível para autores convidados. Se quiseres continuar a segui-lo vai a este link (http://yeacklimon.blogspot.com/) e deixa o teu mail como comentário para eu te adicionar no Snoopy. Eu não publico o mail, fica descansado :) É apenas para conseguires seguir e ler o blog (Snoopy eats cheese). Obrigada e desculpa pelo trabalho :$
    Tive que mete-lo mesmo como "privado" :$

    Beijinhos**

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