16 de outubro de 2009

Guimbas


E o isqueiro não queria acender.

Acender? Ascender? Era o fogo que não começava ou o calor que não guiava para o plano superior?

Esse era o dilema do fogo. E o fumante, ao menos aquele fumante, pensava nele varias vezes ao dia. Cada vez que chamava a fumaça de seu vício para chacinar seus pulmões. Era ao acender o isqueiro, da primeira a última vez, que ele se lembrava da liberdade.

A liberdade de fumar? Não, por favor. Não julgue por tão pouco. Sempre era sobre a liberdade de pensar. De ser.

O dilema do fogo era simples. Esse era o elemento chave da ambigüidade. O fogo que é ao mesmo tempo atribuído ao ‘queimar de ódio’ e as ‘chamas de paixão’. O fogo que nos assusta em um incêndio e nos fascina em uma lareira. O fogo purificador de uma espada dos anjos. O fogo para arder no inferno.

Era por isso que o fumante, ao menos esse, não sentia-se bem com o isqueiro alheio. Nem com os fósforos. Ele sempre carregara seu próprio isqueiro, e vez ou outra se comportava paranoicamente com a idéia de perdê-lo. O que acontecia a muitos de seus amigos, outros fumantes, em rodas de filosofia alternativa, vulgarmente chamadas de conversa de buteco.

O fumante tinha o fogo. Ele carregava o fogo. Era como se fosse o próprio prometeu que roubara-lhe do céu e entregara aos homens. Era ao fim da vida de cada um dos isqueiros que carregara um velório, e um parto ao trocar as moedas por um companheiro novo. Era na ausência desse instrumento de poderes químicos que o fumante se sentia nu. Só. Desprotegido.

O que esse fumante, tão íntimo de sua espada, o isqueiro, deveria responder quando lhe perguntassem...

Tem fogo?

Ele não sabia a resposta. Até aqueles dias, não sabia. Mas agora sim, ele diria:

‘Eu tenho, e sei para quem quero o dar. O fogo caminha comigo’.

Foi quando o isqueiro voltou a funcionar.

2 comentários:

  1. ^^

    Bem legal o texto...
    Bem legal e ambíguo... Hoje de manhã eu estava pensando sobre ele... Gostei!
    Bela metáfora!
    ;)

    Beijinhos!!

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  2. O fumante se enche de nicotina que serpenteia até o SNC. É no límbico que ela sussurra: vc quer mais.

    É vício, como mancha de caneta impregnada em plástico; não sai.

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