E o isqueiro não queria acender.
Acender? Ascender? Era o fogo que não começava ou o calor que não guiava para o plano superior?
Esse era o dilema do fogo. E o fumante, ao menos aquele fumante, pensava nele varias vezes ao dia. Cada vez que chamava a fumaça de seu vício para chacinar seus pulmões. Era ao acender o isqueiro, da primeira a última vez, que ele se lembrava da liberdade.
A liberdade de fumar? Não, por favor. Não julgue por tão pouco. Sempre era sobre a liberdade de pensar. De ser.
O dilema do fogo era simples. Esse era o elemento chave da ambigüidade. O fogo que é ao mesmo tempo atribuído ao ‘queimar de ódio’ e as ‘chamas de paixão’. O fogo que nos assusta em um incêndio e nos fascina em uma lareira. O fogo purificador de uma espada dos anjos. O fogo para arder no inferno.
Era por isso que o fumante, ao menos esse, não sentia-se bem com o isqueiro alheio. Nem com os fósforos. Ele sempre carregara seu próprio isqueiro, e vez ou outra se comportava paranoicamente com a idéia de perdê-lo. O que acontecia a muitos de seus amigos, outros fumantes, em rodas de filosofia alternativa, vulgarmente chamadas de conversa de buteco.
O fumante tinha o fogo. Ele carregava o fogo. Era como se fosse o próprio prometeu que roubara-lhe do céu e entregara aos homens. Era ao fim da vida de cada um dos isqueiros que carregara um velório, e um parto ao trocar as moedas por um companheiro novo. Era na ausência desse instrumento de poderes químicos que o fumante se sentia nu. Só. Desprotegido.
O que esse fumante, tão íntimo de sua espada, o isqueiro, deveria responder quando lhe perguntassem...
Tem fogo?
Ele não sabia a resposta. Até aqueles dias, não sabia. Mas agora sim, ele diria:
‘Eu tenho, e sei para quem quero o dar. O fogo caminha comigo’.
Foi quando o isqueiro voltou a funcionar.

^^
ResponderExcluirBem legal o texto...
Bem legal e ambíguo... Hoje de manhã eu estava pensando sobre ele... Gostei!
Bela metáfora!
;)
Beijinhos!!
O fumante se enche de nicotina que serpenteia até o SNC. É no límbico que ela sussurra: vc quer mais.
ResponderExcluirÉ vício, como mancha de caneta impregnada em plástico; não sai.