Domingo, 15 de janeiro de 2006, 01h54mim – Ponto 0 – Artico.
Robert Chamblers e Augusto Sintra, uma cúpula tecnológica armada no gelo.
Robert Chamblers e Augusto Sintra, uma cúpula tecnológica armada no gelo.
— Então você quer dizer que não há nada na física que explique isso?
Perguntou o severo homem sem patentes com suas sobrancelhas grossas arqueadas. Ele olhou novamente para as fotos e projetos gráficos sobre a mesa fortemente iluminada e voltou o olhar para Robert.
— Sim John. Não há força natural que possa ter posto isso ai embaixo e afirmo que exceto pelo fato de não ser possível manter algum combustível em estado líquido tempo suficiente para sustentar mecanismos de solda, ou a própria NASA construiu isso com tecnologia espacial, também não é possível que isso tenha sido montado ai.
Robert estava suando frio. Quando fora recrutado como reserva para essa missão não possuía a menor idéia do que estava sendo estudado, ficara as cegas nos dois últimos dias recluso em uma tenta maior no lado oeste da cúpula junto de diversas pessoas que também não faziam idéia do que fariam ali, agora, depois que o físico principal entrara em choque supostamente por pressão arterial ele se via obrigado a entender tudo e direcionar hipóteses e soluções para problemas impossíveis de se crer e em tempo recorde.
— Então devo presumir que eu procure realmente acreditar que isso é uma nave alienígena, Robert?
“Professor Chamblers! Seu militar presunçoso!”
Pensou Robert olhando para aquelas irritantes sobrancelhas arqueadas. Por um instante ele se imaginou saltando no pescoço do tal ‘John’ mas a lembrança do filho mais velho que almejava uma carreira militar lhe acalentava a ira. Molhou a garganta com um gole de água da garrafa sobre a mesa e desejou profundamente que ela estivesse um pouco mais quente.
— Os químicos do setor quatorze já enviaram o resultado dos testes com as amostrar retiradas, os metais que formam o objeto são todos ‘terrestres’ por assim dizer, e estipulando que se isso voasse para a terra de quaisquer planeta fora do sistema solar, abrindo mão das possibilidades de algo ficar vagando pelo espaço em uma velocidade comparativa que poderíamos chamar de câmera lenta por mais de mil anos luz sem ser atingido por nenhum fragmento rochoso ou fosse tragado pela órbita de diversos corpos celestes, ou que caso fosse capaz de acelerar-se a velocidades superiores a luz sem que a energia gerada remodelasse a estrutura atômica do objeto, descartaríamos a idéia de que ela tenha vindo do espaço pela inexistência de qualquer ponto ‘derretido’, por assim dizer, que demonstrasse a resistência da atmosfera terrestre em um objeto nada aerodinâmico com esse.
O homem de sobrancelhas irritantes virou as costas para Robert, que pode notar o movimento involuntário das orelhas dele em sinal de desagrado, e caminhou até uma segunda mesa igualmente iluminada em outro canto da tenta principal. Robert não saberia explicar como, mas decidiu que a melhor coisa a fazer era segui-lo.
— Então, Augusto. O que os relatórios dos geólogos mostram?
Augusto Sintra virou-se placidamente para o homem, e com um levíssimo sorriso no rosto, o suficiente para que Robert percebesse, mas provavelmente John não, disse com a voz tenra:
— As camadas de gelo não deixam duvidas Jonh, isso está ai embaixo a aproximadamente mil anos. Segundo os radares o objeto não é maciço e exceto que seja uma revolução da engenharia ou uma anomalia natural de ordem desconhecida não seria capaz de suportar o peso do gelo sobre ele.
Antes que as orelhas de John saltassem da cabeça, Robert e Augusto se entreolharam e com expressões de estranheza. Perceberam que um estava disposto a confirmar as teorias não mencionadas do outro, com recíproca verdadeira. Devido à forma como foram coagidos a colaborar e as desconfianças que cada um tinha sobre os próprios professores, os quais sucediam, eles, mesmo sem se conhecerem, pensaram exatamente a mesma estratégia de seleção de informações oferecidas para que fossem mantidos vivos por utilidade. John olhou severamente para Robert, e este imaginou em sua mente aquelas sobrancelhas irritantes se abrindo com um filme de ficção cientifica e revelando um minúsculo alienígena asqueroso operando um andróide de aparência levemente humana dizendo:
— O que você teria a dizer sobre isso Robert?
Robert respirou fundo, olhou novamente para Augusto e disse para John:
— Devido à aparência que os radares dão para o objeto creio que a pressão externa sendo maior que a interna ‘murchou’ o metal comprimindo o ar dentro dele até que ale atingiu a atual aparência. Provavelmente a pressão interna atual, e imagine um tanque de respiração submarina quando digo isso, é o suficiente para gerar um explosão assustadora. Sugiro que aborte as escavações.
Robert pensou que seria impossível a expressão fácil de John piorar, mas ficou surpreso ao ver a cara que o mesmo fez. Talvez o pequeno aliem dentro da cabeça dele não fosse o clássico homenzinho cinza de cabeça grande, imaginava agora um criatura cheia de tentáculos e gosmas que nem de longe assemelhava-se a qualquer coisa viva na terra.
— Você sugere? Você me sugere algo? Eu em algum momento pedi algum tipo de sugestão Robert? Creio que não. Descubra como aquilo foi parar lá embaixo e porque não havia nenhuma marca na superfície, você tem até o amanhecer.
John saiu da tenta com passos pesados, deixando a sensação de que estivera o tempo todo com uma arma apontada para a cabeça de cada um com quem conversara o tempo todo.
— Augusto, por favor, me diga que há algo sobre gelo próximo ao objeto que eu queira ouvir.
Augusto sorriu divertidamente enquanto procurava determinados relatórios sobre a mesa. Mostrou-os a Robert e apontando determinadas imagens começou seu discurso.
— Sua teoria sobre a remodelagem do objeto me esclareceram isso. Tentei imaginar o que teria criado essa anomalia geológica, mas até então não havia chegado nem perto. Os relatórios apontam que o gelo próximo ao objeto possui realmente composição única, diferente de todas as outras amostras retiradas, em menor profundidade em pontos relativamente distantes do objeto e as amostras padrão do gelo ártico.
Robert folheava os relatórios como se fosse um álbum de figurinhas de sua infância. Pela primeira vez desde que vestira roupas tão pesadas ele sorriu.
— Segundo isso, o gelo entorno do objeto, e principalmente sobre ele foi descongelado e recongelado em um espaço de tempo que remonta mil anos atrás. Com a solidificação de gelo a pressão não se aplicava diretamente ao objeto, e sim sobre o bloco sólido de gelo a sua volta. Com o passar do tempo o objeto afundou cada vez mais devido o descongelamento do gelo mais profundo do continente e a neve relançada na superfície... O que são esses veios distintos nas fotografias das amostras de gelo?
Augusto colocou-se ao lado de Robert e observou as imagens, conferiu a fato nas demais fotografias e procurou referencias nos relatórios, quando as encontrou, explicou a Robert:
— A broca que removeu as amostras causaram as rachaduras no gelo.
Robert observou novamente as imagens, incrédulo. Meses atrás no Canadá os geólogos usaram equipamento semelhante e vangloriavam-se da impossibilidade dos mesmos causarem estragos a composição original do solo, segundo eles seria possível cavar areia no fundo do mar e manter o buraco feito pela broca sem receber um único grão de fora.
— Parece que os geólogos também estão se divertindo ao esconder informação. Observe aqui, os veios, as rachaduras, estão preenchidas de ‘gelo’ diferente. Gelo idêntico a camada superior ao bloco que circunda o objeto. Esses veios foram feitos ao longo dos anos a cada vez que o objeto se remodelou pela pressão e o espaço criado precisava ser preenchido. A neve escorria por entre as rachaduras recriando o bloco que vem se tornando cada vez mais frágil.
Augusto espantou-se, a teoria que lhe veio a mente era assustadora. Ele quase gaguejou:
— Quer dizer que...
Mas Robert não esperou que ele terminasse a frase, virou-se e correu em direção a porta da tenda falando aos gritos:
— Quer dizer que ‘o tanque de oxigênio’ não é o objeto. É o bloco de gelo, as escavações precisam ser detidas quarenta metros antes do previsto...
Mas era tarde demais, quando colocou a cabeça para fora viu apenas o início de um clarão saindo do princípio do túnel e tomando toda a cúpula. Cegou-se e antes que pudesse entrar novamente na tenda, urrou entre os dentes:
— Merda!
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