— Oi, tudo bom? — Disse o rapaz levemente tímido.
— Olá. Estou péssima! — Responde a garota sentada no balcão sem nem ao menos olhar para ele.
— ‘Poxa’, que chato. O que aconteceu? — Continuou o rapaz sem se dar por vencido tão facilmente.
— Já tem dias que estou tentando terminar essa equação biomatemática sobre as epidemias de sarampo e suas vacinações em massa, mas não consigo elaborar plenamente a conta. — Proferiu-a com um ar intelectual para que dessa vez fosse invariavelmente deixada em paz.
— Eu posso dar uma olhada? — Falava enquanto se aproximava e mesmo sem uma resposta percorria os papeis sobre o balcão com um olhar clínico. — Acho que vou precisar de um café para conseguir pensar a respeito. Você aceita um café também? — E novamente antes da resposta ele acenou para a garçonete. — Ei, Amélia, pode me trazer dois cafés expressos com creme, por favor.
— Nossa, você conhece a atendente pelo nome, deve vir muito aqui. — Ela cedera um pouco, mas não deixara de lado a crítica no tom de voz.
— Não muito, só as quintas e sextas depois das aulas. Não joga o cabelo assim! Fica ainda mais bonita! — Um sorriso tomou conta do rosto dele por conversar assim tão pertinho.
— Obrigada. Curioso, são os mesmos dias que venho, acho que o café daqui me ajuda a pensar, o que me parece outra coincidência. — Ela aproveitava para avaliar os traços do rapaz enquanto ele lia suas anotações, ela escrevia de uma forma muito pessoal e duvidava muito que alguém conseguiria entender algo antes de conviver com ela alguns meses.
— Eu sei, venho aqui esses dias porque sei que estará aqui. — Ele lançou um olhar cafajeste por sobre a folha de papel. — Essa sua equação precisa de um pouco de teoria do caos. Sabe, aquela história sobre o bater das asas de uma borboleta alterar o percurso de um furacão a quilômetros de distancia.
— Então, se vem até aqui por minha causa por que nunca conversamos antes? — Arrependeu-se de ter dito aquilo, não gostaria de demonstrar-se interessada tão facilmente, apesar da idéia de um rapaz simpático como aquele rondar-lhe com tanto interesse. — Entendo que as epidemias de sarampo têm a tendência de ocorrer em ciclos que podem ser irregulares, e esse realmente é o ponto ‘x’ da equação. Mas teoria do caos já é demais, não?
— Tentei ser cavalheiro, notei sua dificuldade com seus trabalhos, apesar de que não fazia idéia do que eram. Reprimi meu instinto masculino de ser útil em favor do seu instinto feminino de ser independente. — Ele pegou o lápis sobre a orelha direita dela de forma suave. Começou a esboçar um calculo no papel, a letra dele era grande e bonita, enquanto a dela era pequena e ilegível. — Pense comigo, ‘muitos ratos no campo provocam baixa colheita de grãos, que diminui o número de casamentos de fazendeiros, que aumenta o número de mulheres solteiras, que adoram gatos. Portanto cresce o numero de gatos, que faz cair o numero de ratos e, portanto, melhora a próxima colheita, assim há mais casamentos, menos mulheres solteiras criando gatos, portanto mais ratos no campo diminuindo a colheita... menos casamentos... mais mulheres solteiras que adoram gatos...’ é assim com o vírus do sarampo.
— Realmente. Você merece minha sinceridade, tenho muita dificuldade em aceitar ajuda. — Ela tomou o papel da mão dela da melhor forma possível e comparou as equações. — Sua teoria do caos realmente bate com o fato dos funcionários de saúde e médicos não poderem tirar conclusões apressadas sobre o sucesso de uma vacinação em massa. Mas como eu aplicarei isso?
— Se eu encontrar a equação perfeita você sai comigo essa noite? — Pegou a folha de papel de volta, tomando o cuidado para que sua mão tocasse a dela carinhosamente. — É uma simples equação de segundo grau.
— Se encontrar a equação e responder uma simples pergunta depois disso, sim. Eu saio com você hoje a noite. — Ela elaborou a pergunta infalível em sua mente. — Mas sinceramente duvido muito que uma equação de segundo grau possa responder essa pergunta, principalmente dentro da teoria do caos.
— Ótimo! Está feito! — Ele rabiscou rapidamente o papel e mostrou a ela. — A equação é uma variante do modelo matemático da dinâmica populacional de Verhulst, ‘x=k.p.(1-p)’. Nessa função, ‘k’ representa uma característica da população e ‘p’, cujo valor máximo é 1, representa o percentual, na forma decimal, de indivíduos vivos dessa população. Porem a vacinação faz com que o valor de ‘k’ se altere, descobrimos assim que o caos está, de certa forma, bem lá dentro dessa simples função de segundo grau. Então qual é a pergunta?
— Estou impressionada! Você é um gênio. — Ela quase engasgara com o café enquanto aplicava a equação a suas seqüências de estatísticas biomatemáticas. — A pergunta é, você seria capaz de me dizer alguma coisa, qualquer coisa? Se disser algo que seja verdade, não sairei com você por que só o faria devido a uma promessa. Se disser uma mentira, não sairei por não ser capaz de manter minhas promessas.
— tudo bem, você venceu. Não será capaz de manter sua promessa.
— Aqui está meu endereço e telefone. — Ela entregou-lhe o papel e um beijo no rosto que o fizeram corar. — Te espero as nove horas. — E sai, jogando o cabelo daquele jeito que não devia.
— Me dê uma garrafa de água gelada Amélia! Eu estou precisando!
— Nossa, não entendi essa última pergunta. — Disse Amélia trazendo a água.
— Simples Amélia, eu respondi que ‘ela não será capaz de manter sua promessa’. Se isso for verdade, ela não poderia sair comigo por ser apenas uma promessa, que devido minha afirmação verdadeira, ela quebrará e então sairia comigo por outro motivo. Mas se fosse mentira, ela teria de sair comigo assim mesmo pois se não saísse não manteria a promessa e logo minha afirmação voltaria a ser verdade. — Ele deu um grande gole de água e levantou-se, tirando dinheiro do bolso. — Agora tenho de ir, vou assistir minha aula de direito penal e quem sabe ainda dá tempo de vê-la depois da aula de teoria da música clássica.
— E me diziam que matemática nunca mais seria útil depois de passar no vestibular. — Comentou Amélia, para o vento.
Adorei o conto, um dos melhores que eu já dos seus.
ResponderExcluirBML,
Lucas