30 de outubro de 2007

Física íntima

Engraçado, parece que eu sumo, quando decido sumir. É engraçado ficar assustado quando não me vejo no espelho, outrora isso era algo bem corriqueiro. Parece-me que as bolhas azuis estão de volta, dá ate vontade de voltar a falar dos ‘ds’. Mas não é o tempo, é só uma sensação. Acho que assustei eu mesmo, com a ausência, com o vazio sob cada um dos degraus metálicos da ponte. Tudo por culpa do silêncio que crio quando fecho os portões enferrujados dos jardins da mansão Imperia, aqueles jardins longos e labirínticos cheios de flores que nunca morrem, mesmo não sendo de plástico. Gosto das reinvenções literárias, menos quando não me percebo nelas, se estou perto de algo que muda, e mudança me fascina, fico emburrado e chato por não ser o cerne de tal façanha. Primatas! Queria não ser um tão sentimental. Muito vagabunda aquela mulher, a tal de Danni Carlos, resolveu cantar uma música que me descreve, e vez por outra, ter o mundo fechado para visitações assusta quem não devia ser mantido do lado de fora dos portões. Agora a relação com a música ‘coisas que eu sei’ passou para o patamar irrevogável do amor e cólera. Embaralhado e sem coringa.
Volta, vem de novo ser um pouquinho de mim. Faz frio aqui sozinho, gosto muito da minha companhia.
E, desculpe, sei que tudo pareceu publicidade barata, talvez uma tentativa cega de valorizar um produto sem atrativos reais. Depois que a embalagem nova perde o charme, fica difícil obrigar o consumidor a gostar do gosto que não gosta de gostar. Mas atenção! Eu gosto muito. Do eu, do mim, do nós. Adoro mel também.
Tive vontade de atirar o maço de cigarros no chão. Ele me lembrou o que deveria ter sido. Poderia tê-lo jogado pela janela, ainda mais se estivesse fechada, assim as lâminas da persiana triturariam os círculos de papel incongruentes, as sensações, calmas, desejos, momentos se despedaçariam de tal forma que jamais poderia recompor-se em lembranças; eu poderia arremessá-lo através do vidro, melhor ainda se este fosse do tipo inquebrável, porque ai os cigarros seriam reduzidos a fótons, vibrações ondulantes, espectros polarizados; ou através da parede, para que ele se esmigalhasse em moléculas e átomos, passando entre os átomos do concreto armado, decompondo-se em elétrons, nêutrons, neutrinos, partículas elementares cada vez menores; ou ainda através do cabo da internet, para que se reduzisse a impulsos eletrônicos, a fluxo de informação, abalado por redundâncias e ruídos, e se degradassem numa entropia (adoro essa palavra) frenética. Eu gostaria de arremessá-lo para fora de mim, da casa, do quarteirão, do bairro, do perímetro urbano, da administração provincial, do território nacional, do Mercado Comum, da cultura ocidental, da placa continental, da atmosfera, da biosfera, da estratosfera, do campo gravitacional, do sistema solar, da galáxia, do conjunto de galáxias, eu gostaria de arremessar os cigarros e todo o eu atrelado a ele para além do ponto-limite da expansão das galáxias, aonde o espaço-tempo ainda não chegou, onde esse conjunto de erros seria acolhido pelo não ser e pelo não-ter-sido, sem antes nem depois, e se perderia na negatividade mais absoluta, garantida e inegável. Exatamente o que mereço, sem mais nem menos.
Mas eu não fiz nada disso, eu o recolho do chão, sacudo a poeira com toques gentis e as providencias que tomo são mais amenas. Só permito-me amar, e temo e creio que todo longo tempo curto seja para dizer tudo. Eu gosto da escuridão das profundezas dos oceanos que se pode ver ao longe nos meus olhos refletidos nos espelhos, mesmo que ainda distante da superfície do portão enferrujado...

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