Augusto Sintra e Donovan Staique, o apartamento estéril de Donovan.
O barulho da campainha ininterrupta atravessava os ouvidos de ‘Dolly’ como se fosse uma seqüência de marretadas. Acabara de falar com o porteiro que o amigo de infância podia subir, pregar o dedo no botão negro ao lado da porta era um comportamento que ele esperava dos outros dois amigos, mas não do Augusto.
— Calma, rapaz! O mundo não esta acabando. — Dizia enquanto girava a maçaneta cromada da porta. — Se isso tudo é ânsia para me contar que sonhou o mesmo que nós, de novo, fique desapontado, pois Amanda já me ligou. — Só quando acabou de falar, Donovan percebeu o semblante enjoado do amigo. Os lábios brancos e secos, a pele pálida e os olhos perdendo o foco, com as pupilas muito dilatadas. Augusto estava tendo dificuldades para se manter de pé.
— Escaravelho... — Disse Augusto, como um sussurro.
Então o português caiu nos braços do amigo e desacordou. Donovan levou-o para a cama e começou a preparar mentalmente todas as formas de exames e medicamentos que tinha acesso em casa e tudo o que um telefonema poderia trazer até ele.
— Você não tá acostumado com essas coisas, Augusto, não devia ficar tomando as coisas que Amanda te oferece.
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Sexta-feira, 13 de janeiro de 2006, 00h22mim – Belo Horizonte – Brasil.
Amanda Bourbon e Gabriel Dantes, Avenida Raja Gabaglia, um carro velho em alta velocidade.
— Às vezes eu me esqueço porque o ‘Dolly’ sempre repete os motivos pelos quais nós não devemos em hipótese alguma andar de carro com você dirigindo. — Falou o exacerbado Gabriel agarrando-se com força a alça sob sua cabeça com a mão direita e no painel do carro com a esquerda, como se quisesse mantê-lo longe.
— Não seja frouxo, ‘Bibi’. — Cantarolou Amanda enquanto acelerava cada vez mais. A cabeça sacudia no ritmo da música psicodélica que o rádio do carro emitia com chiados. — Nós só vamos morrer quando for a hora.
O policial engoliu seco. A amiga querida era de certa forma muito irresponsável, em sua memória ele via várias ocasiões em que os amigos tiveram de ir lhe prestar socorro após acidentes de carro. Talvez fosse a época de procurar o incompetente do avaliador que permitiu aquela maluca tirar a carteira de motorista e dar-lhe um murro na cara.
— É, pelo visto você tem muita pressa para que cheguemos logo a essa hora. — Ele apertou ainda mais forte a alça quando ela passou por um quebra-molas que fez o carro parecer que ia desmanchar. — Você faz isso em horário de tráfego?
— Claro que não! Eu não quero matar ninguém. — Ela continuava dançando com a cabeça. — Eu só tive o pressentimento que deveríamos chegar bem rápido a casa do ‘Dolly’. Uma coisa meio intuição feminina eu acho.
“Ninguém? E eu? Não conto?”
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Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006, 23h47mim – Cambridge – EUA.
Robert Chambers, Sua casa colonial em um pacato bairro da cidade.
Robert acalmara a esposa deitada na cama e desceu as escadas enquanto enrolava o roupão sobre o pijama. Era muito raro alguém bater-lhe a porta em horário tão inapropriado, mas fazia parte de sua carreira estar sempre disponível para as necessidades de Harvard. Ele abriu a primeira porta e surpreendeu-se ao ver três homens com fardas militares parados em sua varanda.
— Doutor Robert Chambers? — Disse o mais alto dos homens. Robert procurou por alguma indicação de patente nas roupas do militar, mas não conseguiu identificar o posto. — O senhor é Robert Chambers? — Repetiu impaciente o militar.
— Sim, sou eu. Em que posso ajudar? — O raciocínio do Físico ainda estava lento devido o sono, lembrava-se de já ter revisado alguns estudos para as forças aéreas americanas, mas nada parecia tão importante a ponto de acordá-lo há essa hora.
— O doutor foi recrutado para uma missão de campo em nome da segurança nacional. — Falou o segundo homem parado do lado oposto ao primeiro, estendeu então uma carta ao professor de Harvard. — Seu país precisa de você.
Robert leu a carta duas vezes antes de voltar os olhos para os estranhos a sua frente. Preocupava-se ao tentar imaginar o que exigiria a aplicação de seu próprio conhecimento nos planos das forças armadas. Nada muito menor que radioatividade ou explosão nuclear vinha a sua mente.
— Bem, vou arrumar a mala e despedir-me de minha família. Vocês querem entrar e sentarem? — Em sua imaginação ele viu três cães pastores alemães entrarem e sentarem no tapete com os olhos fixos no cãozinho de uma raça mais frágil que o dono acabara de adotar. — Um minuto por favor.
No topo das escadas, fora da vista dos visitantes, ele colocou a testa na parede e respirou fundo. Nos últimos meses Robert pensava apenas em tirar boas férias e viajar com a família para esquiar, pescar ou navegar. Olhou para as portas dos quartos de seus dois filhos e sentiu saudades de antemão, sabia que já tinha uma mala pronta dentro do armário sob as escadas e por isso tinha um pouco mais de tempo para despedir-se. Abriu a porta do quarto do filho, com todos seus dinossauros e naves espaciais, entrou lentamente para não pisar em nada e manter o garoto dormindo.
— Boa noite, Cabbot, papai ama muito você. Sempre. — E então beijou-lhe a cabeça.
O próximo quarto era o seu próprio. Onde sua esposa provavelmente aguardava sentada na cama com a mesma expressão de desapontamento que fazia sempre que ele precisava sair durante a noite para resolver os tão discutidos assuntos vitais. Ele esperava que ao menos uma convocação das forças armadas pudessem convencê-la da urgência da situação.
— Querida... — Ele entregou-lhe a carta e um beijo estalado na bochecha. — Parece que terei de ficar fora uns três dias, mas dessa vez eu prometo que viajaremos assim que eu voltar. — Ele sorriu tentando transmitir confiança.
— Amor, ação de campo? Você não consegue nem correr atrás do Cabbot. — Ela lançou-lhe aquele olhar fatal que ele não queria ver, aqueles olhos que diziam: ‘não vai dar certo’. E sempre tinham razão. — Prometa-me que não fará nada que coloque você em risco!
— Claro querida, eu prometo. — Ele falou enquanto trocava o pijama por um roupa formal. Como um civil deveria se apresentar a uma missão militar? — Deve ser só mais alguma revisão de projetos.
Trocaram muitas outras recomendações e carinhos, ela até já estava com um leve sorriso quando ajudou-o a apertar a gravata, ao menos era confortante pensar que estava servindo corretamente seu país, era recompensador perceber que o conhecimento que acumulara durante tantos anos seria aplicado em favor da humanidade.
Na saída, deteve-se diante da porta de sua filha, entrou ainda mais cauteloso do que fizera com o filho, ela era mais velha e teria perguntas mais embaraçosas. Ela sempre preferia um tom levemente arroxeado ao invés do padrão do rosa claro. Ele sentou-se na cama e repousou a mão sobre os cabelos negros dela. A princesinha do papai. E ao dar o beijo de despedida em Larrisa, ele teve a terrível sensação de que seria o último. Torceu que fosse um mau estar provocado pelos augúrios da mulher, nada demais.
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 01h03mim – Belo Horizonte – Brasil.
Augusto Sintra, Donovan Staique, Amanda Bourbon e Gabriel Dantes, o apartamento estéril de Donovan.
— E foi tudo o que ele disse quando esteve lúcido da última vez. — Donovan acabara de contar todos os acontecimentos desde a chegada de Augusto a sua casa. — Aceitam mais um pouco de bebida alcoólica?
Amanda levantou-se, pegou o copo da mão de Gabriel que escornara-se pensativo no sofá e foi até o balcão da cozinha americana onde o dono do apartamento estava se servindo de whisky. Depositou os dois copos que carregava e direcionou-se então para a geladeira.
— Dolly, você não tem nada de comer aqui não é? — Disse ao perceber que dentro do eletrodoméstico só tinha água e algumas caixas de isopor que provavelmente contém aquelas coisas esquisitas das experiências químicas do excêntrico amigo cientista louco. — Posso pedir uma pizza? Você paga?
— E mamar na vaca, você não quer, não é? — Donovan disse e entregou-a o copo de gim.
— Credo, ‘Dolly’, você é o mais riquinho de nós, tem de ser mais solidário. — Ela tomou a garrafa de cerveja da mão dele e levou-a para Gabriel, o amigo dispensava copos com freqüência. Pegou o telefone e procurou pelo numero da pizzaria.
— O Augusto também tem dinheiro. Pega a carteira dele. Drogado como ele está não vai nem dar falta quando acordar. — Ele sentou em frente ao amigo calado que dava goladas curtas em sua cerveja muito gelada.
— Eu já disse que ele não tá drogado. Não é assim que a gente fica. — E quando ela terminou de dizer isso os dois amigos olharam para ela com aprovação do fato de que se alguém entendia do assunto, seria ela. — Me dá logo o dinheiro! — Ele estendeu a carteira.
— Acho que deveríamos levá-lo para o hospital. O Augusto consegue ser mais careta com drogas que eu e mais preocupado com a saúde que você. — Disse para Donovan. — E enquanto isso eu vou até a universidade ver se descubro o que é que aconteceu.
Amanda caminhava de um lado para o outro por trás do Donovan, enquanto fazia o pedido da pizza. Olhava para o quarto onde Augusto repousava na cama e preocupava-se muito com o amigo, por mais que tentava não transparecer isso, mas sabia que um hospital provavelmente iria tratá-lo como um drogado. Donovan tinha contado que o amigo doente falara sobre os planos do Professor Leonel, e isso fazia conexões em sua mente com todos os elementos que a Rainha vermelha vinha combinando, existia uma possibilidade de Leonel ter percebido que Augusto não estava realmente tão disposto a ajudar e colocado algum tipo de veneno nas cinzas que enviou ao aluno.
A pizza chegaria em meia hora, era o tempo que ela tinha para convencer Dolly a fazer os exames nos laboratórios de sua empresa e Gabriel visitar Leonel em casa e arrancar de formar menos ortodoxas as informações que precisavam. Parecia que tudo finalmente tinha começado. Parecia que tinha uma guerra por vir, e Amanda, ou Ísis, dependendo do momento, estava disposta a enfrentar uma corte marcial no final se fosse necessário.
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 04h07mim – Inverness – Escócia.
Gale Star, Pátio da Catedral de São Andres, orla do lago Ness.
Fazia muito frio perto do lago, mais frio que o que Gale sentia em casa ou no caminhar da rua. O frio que parecia relembrar sua alma da falta que sua família fazia. Era o frio que sobrara para ele depois que pais e irmãs morreram. Muito trabalho, muita saudade e muito frio. No leito de morte da mãe ele prometera que seria um bom homem, que seria o melhor de todos, por assim dizer. Prometeu que seria temente a Deus e que não se casaria com uma estrangeira. Prometeu até que usaria sempre bons agasalhos para sair durante a noite. Ele usava bons agasalhos, mas ainda sentia todo aquele frio.
Olhar o lago o acalmava, mesmo com a fraca luz que lhe servia ali. Não fora a missa naquele dia e tentava se redimir disso ficando um pouco mais ao lado da igreja, Deus iria entender, afinal fazia quase duzentos anos que sua família ia à missa naquela mesma igreja. Quase duzentos anos de uma família que terminava em Gale, que estava ficando mais velho naquele dia e nem mesmo tinha uma namorada, quem diria então uma futura mãe para perpetuar o sobrenome. A mãe disse que Deus era muito bom por deixá-lo viver, mas ele não conseguia resistir a pensar no motivo pelo qual Deus levara embora todos aqueles que ele amava.
— Vinte e oito anos. E não existe ninguém para me dar um presente. — Ele disse para o lago, então tirou do bolso do casaco uma pequena caixa embrulhada em papel de presente vermelho e fitas douradas muito bem amarradas.
Ele sentou na grama e colocou a caixa a sua frente. Começou a cantarolar o hino ‘Scotland the Brave’. Conforme a canção progredia e suas frases preferidas viam a tona ele sacudia o braço como um maestro. No ápice, ele se levantou e começou a cantar aos gritos, como se o lago pudesse ouvi-lo. Mas a canção acabou e essa seria a situação mais próxima de uma comemoração de aniversário que ele poderia ter.
Voltou à caixa de presente no chão e abriu-a. Lá estava o soco inglês que comprara para si mesmo. Experimentou-o no punho e simulou socos no ar.
— Eu sou um homem bom, mamãe. Mas existem alguns outros por ai que precisam de um incentivo para melhorar. — Ele virou-se para a catedral e com a mão munida da arma fez o sinal da cruz. — Eu serei o melhor de todos.
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 01h47mim – Belo Horizonte – Brasil.
Augusto Sintra e Amanda Bourbon, o apartamento estéril de Donovan.
Amanda abriu o Note-book e conectou-se a Rainha vermelha. Encontrou entre alguns dos indivíduos monitorados pelo sistema, relatos que insinuavam que também tiveram o mesmo sonho que eles. Augusto parecia um pouco melhor na cama, começava a recuperar a cor.
Ao ‘escanear’ as anotações de Augusto e traduzir o que ele escreveu em outros idiomas ela teve uma visão mais ampla do que o amigo pretendia. O melhor que ela tinha a fazer agora era ajudar. Ela conectou seu sistema de voz e chamou por Papilon.
— Papillon, você esta ai? — Disse em voz baixa no microfone, para não incomodar o amigo acamado.
— Sempre. — Disse a jovem voz do outro lado.
— Imputei novas informações vitais na Rainha, chegou à hora de agir. Preciso que você use suas habilidades para apagar uma pessoa do mapa.
— Já entendi, Ísis. O arqueólogo nunca nasceu. Mas as pessoas vão continuar a se lembrar dele, o que pretende fazer a respeito?
— Não farei nada. Mas tenho a sensação de que de uma forma ou de outra ninguém vai se lembrar dele realmente. Crie uma nova identidade para que ele possa transitar entre paises e acessar contas bancárias. Crie uma, preciso fazer uma transferência. — E os olhos de Amanda demoram um tempo para distinguir quantos Zeros existiam no deposito feito na conta de Augusto.
— Certo. Te mantenho informada. – A jovem desligou o programa.
“Espero que os outros não me condenem por te ajudar nisso, Augusto. De certa forma eu estou fazendo uma grande força para perder para sempre um dos meus melhores amigos”.
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 01h48mim – Belo Horizonte – Brasil.
Gabriel Dantes, Laboratório de Historia da Universidade Federal de Minas Gerais.
Pelo que Donovan dissera, Augusto desmaiou na sala e derrubou muita coisa, mas a sala agora estava impecavelmente arrumada. Mesmo utilizando de seu status como policial Gabriel não conseguiu acesso as câmeras de segurança, que segundo os responsáveis, só são feitas exibições ao vivo no turno da noite dentro dos prédios. Gabriel não acreditou, mas não tinha argumentos para levantar um mandato.
Enquanto olhava melhor na sala, procurando pelas ânforas ou por mais anotações, o celular de Gabriel tocou, e devido o nível de concentração que estava, levou um belo susto.
— Que merda Donovan! Quer me matar do coração!? — Atendeu exasperado.
— Que isso, amigão, eu localizei um tipo de veneno dentro do escaravelho sim. Reconheci substancias alucinógenas e outras um pouco mais letais para o cérebro, principalmente a memória. Mas a quantidade inalada pelo Augusto foi pouca e logo ele estará bem.
— Ótimo, menos uma coisa para nos preocuparmos. Eu vou pegar um táxi aqui, encontro você na porta da casa do Leonel. Ele precisa entender que não se deve sair envenenando o amigo dos outros assim. Até mais.
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 05h47mim – Paris – França.
Archa Borlins, Atelier Brancusi dentro do Centro Georges Pompidou.
Ela caminhou elegantemente em seu vestido de gala negro até a próxima escultura de Constantin Brancusi. Com certeza seu escultor Romeno preferido. Ver aquelas peças de arte faziam com ela tivesse ainda mais vontade de conhecer a escola de arte de Bucareste, ela vivia para a arte, mesmo sendo arrogante ao ponto de pensar que era a arte que viva para ela. O primeiro ministro da frança, com quem ela estava sozinha naquele lugar, aproximou-se dela e disse como se entedesse algo do assunto:
— Bonito, não?
Ela lançou-lhe um olhar severo rapidamente, depois voltou a sua expressão agradabilíssima de costume e teceu no melhor tom de voz a resposta apropriada.
— Na literatura, querido Ministro, existe uma passagem que começa com sua frase. — Ela contornou a estatua, deixando um rastro com seu vestido que parecia abraçar o pedestal. — Mas termina com diabo sussurrando: ‘Bonito, mas é arte?’.
— Se o que está aqui reunido aqui no Pompidou, não for arte, eu não saberia o que mais poderia ser. — Disse o Ministro que não resistira a chance de perceber as curvas da mulher maravilhosa a sua frente, como se fosse emoldurada pelo lugar.
— Não ministro, isso não é arte. Isso foi. Agora tudo o que está dentro do Pompidou e o incluindo nisso, pois esse lugar é um brilhante trabalho dos arquitetos Renzo Piano e Richard Rogers , não passa de história da arte. E infelizmente é tudo o que tenho para me contentar, já não se vê por ai artistas como os dessa época.
— Exceto, por você. A melhor artista deste século.
Ela virou as costas a ele e voltou a andar para a próxima escultura. As costas abertas do vestido mostravam sua pele perfeita e suas curvas sensuais. Lançou-lhe um olhar por sobre o ombro que o fez apertar a mão esquerda como se fosse capaz de fazer a aliança e tudo o que ela significava desaparecer como mágica.
— Eu não sou uma artista como os da época dele, Ministro. Eu sou muito melhor. — E ela distraiu-se por um instante observando a expressiva estatueta a sua frente.
O Ministro retirou o lenço do bolso do paletó e molhou-o com o frasco que carregava no bolso interno. Aproximou-se das costas da mulher, e abraçando-a pela cintura e pelo pescoço como qualquer homem desejaria fazer com ela, levou o lenço para tapar a boca e o nariz da colecionadora.
— Você é muito melhor realmente. A melhor das obras egípcias. — E então, ela desacordou nos braços de um dos homens mais poderosos da Europa.
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 02h26mim – Belo Horizonte – Brasil.
Gabriel Dantes e Donovan Staique, a mansão com vista para toda a cidade de Leonel Hamburgo.
Com a ajuda remota de Amanda, Donovan conseguiu desligar os alarmes da casa. Depois de rever Victoria tudo começou a parecer mais aceitável em sua vida, a idéia de carregar uma arma, aprender a lutar com facas, invadir propriedades alheias e por ai vai. Mesmo não entendendo exatamente o que tudo aquilo representava, estava começando a gostar da aventura contra conspirações e mistérios. Quem sabe o que os aguardava no final?
Gabriel então desligou a energia elétrica do lugar e arrombou o portão. Atravessaram os jardins e felizmente notaram que a casa tinha muitas janelas, e todas elas muito grandes, o que facilitaria a observação interna sem necessariamente precisarem arrombar mais alguma coisa. Obviamente Leonel não estava, Amanda já avisara que encontra passagens aéreas dele com destino ao Canadá. Pelas janelas notaram que as roupas não estava no armário, e não precisavam pensar muito para deduzir que o professor não seria estúpido o suficiente para largar o veneno em casa.
No impulso, Gabriel arrombou a porta dos fundos da casa também. Percorrendo com a lanterna os muitos aparadores cheios de suvenir que tornavam a casa difícil de atravessar. Donovan acompanhou-o, sem entender exatamente o que poderia encontrar ali.
— Procure por note-books, palm-tops, disquetes ou CDS que possamos levar para Amanda vasculhar. — Ordenou Gabriel.
— Pen Drive. — Donovam disse calmamente.
— O que?
— O Pen Drive.
— O que é um Pen Drive? — E ‘Dolly’ mal acreditara que o amigo realmente perguntou aquilo.
— Isso é um Pen Drive. — Donovan Pegou o objeto sobre o aparador mais próximo da porta. — Você encaixa em um computador e pode transferir arquivos. Muito mais modernos que disquetes.
— Ok, certo... Bem... Vamos levar isso então. — Constatou o constrangido Gabriel. — Vamos dar o fora daqui.
Antes de sair Gabriel notou que ao lado de onde estava o tal Pen Drive, existia uma um porta-retratos com a foto de Alice, a namorada de Augusto. Ele sabia que ela também fora aluna do Professor Leonel, mas achou inconveniente que o mesmo tivesse uma foto dela na sala de estar. Será que o professor teria outros motivos para querer Augusto fora da jogada?
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 00h02mim – Nova Iorque – EUA.
Alfred Ausbury, Phillip Cliff e Peter Marana, um grande arranha céu na parte baixa de Manhattan.
— Então é essa a noite em que a Chess vai entrar para a história, sr. Ausbury? — Perguntou o Diretor da companhia, Phillip Cliff. — Você pretende comprar ações, ou propor a fusão de todas as empresas do prospecto de uma só vez?
Na cabeceira da mesa de reuniões o poderoso empresário juntou as mãos diante de si, apoiando os cotovelos na mesa e olhando para além das janelas atrás de Cliff. Era possível ver uma grande porção da cidade dali, com tantas luzes e tanto dinheiro correndo de um lado para outro sem notar os grandes negócios que podem mudar a vida de tantas pessoas, como aquele que era arquitetado naquela sala.
Peter Marana era o diretor de tecnologia da empresa, e diante dele estava a pasta com as informações mais vitais para que Phillip, diretor comercial, pudesse colocar tudo em prática em poucas horas. Ter acesso a uma cidade que não dorme tinha essa vantagem, não existia hora para dominar o mundo.
— Por favor, Marana, explique a Cliff o motivo de tudo isso acontecer essa noite. — Alfred fez um leve sinal para a pasta diante do gênio da informática. — Nos próximos dois dias nossos principais adversários na campanha para unificação de tecnologia naval e aeroespacial em três paises diferentes vão estar fora de circulação por motivos adversos. E é ai que nós partimos para dominar o território.
Peter empurrou a pasta para o outro diretor e levantou-se. Contornou a mesa e posicionou-se diante da janela. Respirou fundo, pegou um cigarro do maço, claro que era algo que só um diretor poderia fazer naquela sala, e começou a fumar.
— Cliff, nossa empresa fundamentalmente só absorve os recursos materiais dessas empresas. Se não formos seus clientes, eles terão uma provável chance de falência. Ao ofertarmos exatamente o valor que a empresa vale, publicamente, e não existir nenhuma contra proposta, eles vão perceber que no mínimo nós temos dinheiro para abrir uma empresa que possa fazer exatamente o que eles fazem. — Deu então uma grande tragada no cigarro. — Claro que, isso não seria interessante. Para comprá-las nós vamos descobrir nosso fundo de caixa, ficaremos seis meses sem qualquer margem de lucro, porém nossa lucratividade posterior será o dobro da atual.
— Mas isso é muito arriscado. — Cliff virou a cadeira de forma a ter ambos os homens em sua visão . — Nossa empresa ficará extremamente vulnerável a grandes jogadas dos concorrentes.
— Não, não vai. Ao adquirirmos essas empresas as principais fontes de recursos materiais serão nossas. O fornecimento para nossos concorrentes será controlado por nós. — Alfred interrompeu-o.
Phillip parou para pensar e mergulhou em sua própria mente enquanto passava calmamente as paginas da pasta. Alfred fora inescrupuloso em tal projeto, isso era surpresa para Phillip que via o chefe como um dos mais leais empresários que já existiu. Alguém provavelmente o desafiara no mundo dos negócios de forma a levá-lo aquilo, e seja lá quem for, vai se arrepender amargamente de cruzar o caminho de um homem tão determinado.
A reunião se estenderia por muitas horas depois daquela analise superficial. Ainda existiam alguns poucos tramites jurídicos para assegurar a idoneidade da empresa e depois o mundo seria dos mais espertos.
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 04h51mim – Belo Horizonte – Brasil.
Gabriel Dantes, Donovan Staique, Amanda Bourbon e Augusto Sintra, O Café preferido do quarteto, escondido atrás de muitas fachadas.
Augusto ainda não estava totalmente recuperado, mas comer um pouco pareceu uma excelente ideia para todos. Era ali, no café, onde as mais brilhantes conversas entre os amigos acontecia. Onde planejavam aniversários e viagens, hoje não era diferente.
Eles eram os melhores amigos de todo o mundo. Bem, isso antes de começarem os segredos obscuros. Augusto envolvera-se em uma seita secreta com planos para o fim do mundo, Amanda se aliara a um grupo de hackers criminosos, Donovan seguia instruções de uma bruxa pela qual é apaixonado desde criança, e Gabriel ocultava o incidente em que dera o próprio sangue para um grupo satanista com objetivos escusos. E essa paz artificial que produziam quando estavam juntos é o fruto do mistério que cada um gostaria de manter enterrado, mesmo diante das pessoas mais aptas a desvendá-los.
— Pelo que pude descobrir com esse pen drive, Leonel fez um deposito gordo na conta de Augusto. — E boa parte dessa afirmativa era mentira, a origem das informações era o eficiente programa Rainha Vermelha. — Deixou também instruções claras de como Augusto deve chegar até um ponto no meio do gelo do Ártico.
Donovan já sabia nessa altura do dialogo que os outros três estavam incluídos no pacote de viagens. Victoria alertara-o sobre isso, alguma coisa sobre deus antigos e tecnologia fantástica. A curiosidade o impulsionava, o desejo da verdade lhe esclarecia os objetivos e a amizade abalada lhe garantia o desejo de fazer aquilo junto aos amigos.
— Seja lá o que nos espera nesse lugar, estou disposto a não deixar que o Augusto faça-o sozinho. — Dolly disse categoricamente. — Vou providenciar todo e qualquer equipamento que por ventura iremos precisar.
— Nos encontramos no shopping próximo ao aeroporto da Pampulha assim que cada um completar suas tarefas. Augusto, vá a universidade e reúna suas ferramentas e anotações, Amanda vem comigo e continua levantando informações pelo computador. — Gabriel assumira nesse momento a liderança de uma operação, como se seus amigos fosse militares de inteligência desvendando um crime muito complexo. — Eu vou direto para o aeroporto averiguar se as instruções que nos deram são seguras.
Os amigos concordaram e partiram para seus destinos, estava prestes a experimentar as últimas horas em que permaneceriam sendo um quarteto.
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 09h09mim – Sobre o mar de barents – Ao norte da Noruega.
Gale Star, Archa Borlins e Peter Marana, o compartimento de carga de um avião.
Gale acordou lentamente, com enjôo e fraqueza nos músculos. Começava a se lembrar do combate com dois brutamontes que falavam um péssimo inglês e recebiam ordens de uma mulherzinha que ele não soube dizer em que idioma estava falando. Percebera então que suas mãos estava amarradas atrás dos braços.
“Que merda, ganhei um seqüestro de presente de aniversário.” Seus olhos começavam a se acostumar com a escuridão e aos poucos notava a silhueta da mulher deitada a sua frente. Parecia usar um vestido longo e negro que se confundia com as trevas. Em um outro canto da sala tinha um homem loiro também desacordado. Eles também estavam amarrados. “Eles atacaram uma mulher!? Além de desleais ao combate do ‘mano a mano’ eles desacordaram uma mulher! Quando eu pegar esses caras...” Seus pensamentos pararam quando ele percebeu o símbolo pintado na parede atrás da mulher, uma pirâmide com um olho em sua extremidade superior e brumas, como as londrinas, ocultando o pé da edificação. Ele já vira aquele sinal antes, era diferente do encontrado no dólar americano, a pirâmide não tinha a ponta separada e o olho era como aqueles traçados do Egito com uma lagrima escorrendo. Olho de Ísis pelo que lhe constava. Aquele sinal era o mesmo do selo na carta no bolso do cadáver de seu pai.
Ele gritou de ódio. Um grito forte e longo que lembrava uma locomotiva. Forçou as cordas em seus punhos até sentir o máximo de dor possível. Ajoelhou-se e voltou a gritar, tinha vontade de socar coisas, de socar pessoas, de destruir tudo o que estivesse em seu caminho até descobrir e trucidar tudo o que estivesse por trás daquele símbolo.
Uma porta abriu-se, e não havia luz atrás dela também, dois homens entraram conversando naquela língua que Gale não entendia. Mas antes de chegarem perto o suficiente o escocês lançou o peso do corpo contra eles, derrubando o primeiro e fazendo o segundo trombar na parede. Ele apoiou o joelho com violência na barriga do homem no chão e atingiu seu nariz com a própria testa, viu o sangue escurecer a face do homem e então repetiu o golpe. Aquele não seria mais incomodo.
Virou-se para o outro homem rapidamente e deparara-se com o mesmo segurando uma faca diante do pescoço da mulher desacordada. Gale queria muito ser um bom homem, seus princípios o faziam prezar pela vida da mulher por mais que o ódio que sentia lhe dizia para atacar como for possível. Então ele reconheceu que aquele era um dos homens com que lutara em Inverness, o ódio borbulhou em seu âmago ainda mais.
Então veio a dor. A dor elétrica. Quando caiu no chão conseguiu ainda ver a mulherzinha com roupas de couro aplicar-lhe a varinha de ferir o gado. Tentou chutar-lhe a perta, mas os músculos não respondiam devido à alta carga, já sentia seus ouvidos sangrarem. Antes de desacordar-se novamente ele bradou em gaélico escocês:
— Vou abrir algumas excessos para você, vagabunda.
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006, 07h51mim – Sobre o oceano Atlântico – A nordeste do Brasil.
Gabriel Dantes, Donovan Staique, Amanda Bourbon e Augusto Sintra, acomodados em um pequeno avião de passageiros das Força Aérea Brasileiras.
O piloto avisara-os para colocar as máscaras de oxigênio pois atingiriam uma velocidade vertiginosa. Obedeceram sem suspeitas, tudo parecia-se com uma aventura de livros vitorianos. E essa falta de paranóia foi o erro de todos. Pelos tubos de oxigênio pressurizado veio uma onda de gás carregado de um pó lancinante aos pulmões. Eles não tiveram tempo de remover a máscara, estavam desacordados em tempo recorde.
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* A expressão bad do título desse conto é referencia a gíria que os jovens usam para descrever a ‘viagem ruim’ que vez por outra acontece durante o consumo de LSD e ecstasy.
Véio. Curti demais. Tanto o layout do seu blog como o conto. Realmente impressionate, pode até ser longo, mas excelente. É um tipo de conto que terá continuação ou não?
ResponderExcluirAbs
Brincar? Rs...
ResponderExcluirdepende do sentido que vc está falando!
Como disse daquele desvaneio ridículo meu... não ando conseguindo escrever... até começei uma nova parte da história da Soturna, mas agarrei... e tb tive algumas idéias orientais... e também agarrei...
Estou estudando muito para vários concursos públicos e ainda tem a faculdade... to ficando doidinha... sem contar os meus "problemas" com a srta comida...
emfim...estou sem estímulo...
quem sabe de uma hora para outra não surge novas idéias...