10 de março de 2008

O ogro de novo


Citando:

“Vida engraçada. Retorno ao velho alpendre da casa, passo as unhas na tinta do corrimão da escada, saem casquinhas que ficam presas sob as unhas. Recordo-me de outros tempos, a casa iluminada sem janelas e sem portas, lugar onde havia a descoberta do mundo. Meu castelo em ruínas tão próprias, logo ali, vizinho do seu mundo, no meu mundo, sim, ainda o Limbo. Limbo mofado, tão mofado e genuinamente vivo. Você não se encontra em casa, passei por aí e vi. As janelas e portas continuam do mesmo jeito; inexistem. Mundo de outrora, mundo do agora, só meio vazio. Você sempre está lá do mesmo jeito: como-não-está. Pergunto: e a família, vai bem? Não acendo um charuto porquê não me sinto a vontade. Talvez porque o velho vizinho é um novo velho vizinho. Como quem se muda para a mesma casa, sai e volta, entra e sai, cultiva mofos também, retira casquinhas da tinta da parede, chega até a escada, olha e entra. Lá de dentro responde, pela necessidade de resposta, pela pausa do silêncio: vai bem sim, obrigado.

É uma formalidade que incomoda”.

O palácio das memórias parece que fechou para balanço. O dono não gosta mais dos moveis, dos lustres ou das madeiras usadas nas portas. A falta de cuidado com o jardim mestra isso, as últimas esculturas trazidas por ele são muito escuras e assustadoras. As horas que passa lá são em sua maioria, dormidas. Não tem comida na geladeira e nem espanador para o pó.

A estradinha que leva aos umbrais é feita como uma linha do tempo as tiras mais recentes do mosaico da vida são feitas de pedras alugadas. O cachorro já não é visto há semanas, talvez tenha morrido. O palácio que outrora parecia um império agora parece um mausoléu.

O vizinho aparece lá de longe, não parecia tão longe antes, e pergunta pela família. O dono do palácio responde educadamente, mas só quando entra e fecha a porta, na segurança de não poder mais ser ouvido, é que ele completa:

‘E a sua como vai?’.

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