18 de abril de 2008

Deboche dos de vinte (10).

O romantismo, movimento artístico e filosófico, surgiu ainda no final do século XVIII e perdurou por grande parte do século XIX. Este movimento estético retratava o drama, os amores trágicos, os ideais utópicos e os desejos de escapismo.

Porem teimam em pensar que, essencialmente, o homem romântico atual é sensível, apaixonado, responsável, atencioso e fiel. Embora seja o tipo que grande parte das mulheres gostaria de ter como parceiro, a ausência dessas qualidades aumenta ainda mais a atração entre o casal além de deixar o relacionamento ainda mais divertido. Divertido nesse caso é um adjetivo curioso, praticamente um poder de Kiwi. Já que no fim das contas as historinhas de entretenimento romântico são repetitivas e enfadonhas.

Certamente toda frase ou idéia romântica é bem sucedida em novelas ou filmes. Uma resposta bem humorada, cínica ou sarcástica é sempre encarada com um sorriso e um beijo na ficção. No mundo real a ordem é um pouco diferente. Mas não imprevisível, já que o romantismo clássico, a classificação de seu período artístico, já informava o navegante que aquela seria uma história de tragédia e lagrimas. Romantismo não é uma coisa adorável, pelo contrário, é o princípio do pensamento de que “se alguém é pior que eu, logo sou um pouco melhor que nada”.

Já há alguns anos aproveitei o momento com uma pessoa convidada para criar a oportunidade de nos beijarmos. Depois do segundo beijo, ainda tocando os narizes, essa pessoa diz:

“— Não foi ótimo? Eu adorei!”

Eu romanticamente respondi com a respiração rápida e a voz mais doce que me veio a boca em uma situação daquelas.

“— Foi incrível. Seu bigode me espetou só na primeira vez.”

Sem dúvida eu estava esperando uma cena clássica dos filmes de comédia romântica. Ela notaria meu sorriso, iria rir e me abraçar para então nos beijaríamos novamente. E nesse momento, faltando pouquíssimos decibéis para um tapa na cara, eu percebi que devemos ‘disfarçar nossas inclinações e empregar a hipocrisia sempre que necessário’. E dizem por ai com freqüência que valorizam o senso de humor em um relacionamento!

Freqüentemente mulheres de vinte reclamam sobre a falta de atitude de alguns homens. Num momento como decidir a hora certa de beijar, algumas situações podem ser um completo romance ou um fracasso. Elas se apóiam em um discurso sobre a emoção e os sentimentos a flor da pela para subsidiar essa esperança ao príncipe encantado. Os homens por sua vez reclamam da inconstância e oscilação de humor das mulheres, da dificuldade em entende-las. Vamos ao exemplo: durante uma festa com alguns amigos, um deles se afastou com uma menina. De súbito, ele se aproximou do rosto dela e então se beijaram. Cinicamente, ele perguntou:


“— Gostou, não é?”

Uma linda história poderia surgir nesse momento, salvo se ela não decidisse lhe bater. Sob efeito do tapa no rosto e do álcool ingerido, ele voltou a olhar para ela e de uma forma ainda mais sarcástica, comentou bem lentamente, usando a tradicional expressão facial de dragãozinho:

“— Você é selvagem!”

Embora sejam demonstrações incríveis da falta de romantismo, durante um namoro é possível encontrar muitas chances de cometer gafes. Na sua imaginação seria uma cena perfeita, com trilha sonora e uma platéia se emocionando. A ex-namorada de um amigo chamou a atenção dele para ganhar um elogio. Levantando uma perna, ela perguntou feliz:

“— Querido, olha o quanto meu pé é bonitinho.”

Por um impulso inconsciente do rapaz de vinte que tenta sem sucesso entender os motivos escusos por trás daquela carência sem sentido de um elogio que não fará diferença em suas vidas, salta-lhe da boca quase instantaneamente:

“— É mesmo,muito bonito, mas de onde vem esse cheiro de Fandangos?”

Claro que uma em cada sete mil mulheres tem o senso se humor apurado para sobreviver feliz a um evento desses e ainda vingar-se, porque mulheres vão se tornando vingativas com o tempo e aos vinte esse sentimento pequeno já está enorme por lá, ensinando-o a pensar com mais carinho antes de proferir uma bobagem dessas.

A perspectiva talvez fosse fazer uma piada baseada em nada. Assim como a brincadeira do bigode, houve uma tempestade pouco depois. Esse tipo de piada se assemelha bastante à várias outras durante um namoro padrão. Dentro do núcleo que inspira os exemplos, durante uma clássica discussão, fui perguntado uma vez:

“— Amor, por que você não olha mais pra mim?”

Resposta impulsiva imediata:

“— É claro que eu olho. Toda vez que vejo você chegando... eu corro.”

Está claro que não preciso dizer o que se desencadeou depois. Apesar de ter explicado aos meus amigos a estrutura do problema, um deles arriscou uma última vez uma resposta diferente e nada romântica. Depois de sairem do cinema, ela o perguntou:

“— Você me ama?”

Ele responde sinceramente:

“— Claro!”

Ela toda sorridente e quase se derretendo no colo do rapaz, pede com a gentileza de uma pluma:

“— Então diga uma coisa gostosa e doce no meu ouvido...”

“— Sorvete de chocolate.”

Ao contrário das outras vezes, essa caiu na gargalhada.

Em síntese, as situações onde uma resposta nada romântica podem ser acionadas são ilimitadas. O resultado quase sempre será o mesmo: uma discussão. Embora seja o padrão, determinar o seu tipo de companhia pode alterar a resposta final. Escolher pessoas bem humoradas é um ótimo começo, apesar de uma missão com alto nível de dificuldade.

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