Esse será só mais um monólogo sobre aniversário. Só mais um aniversário ‘crash-boom-bang’. Provavelmente vou acabar enchendo as linhas com blá-blá-blás repetitivos e brincar com as mesmas e velhas frases favoritas dessa vidinha curiosa. Ao menos vou me concentrar, e deixar claro desde já, que não tenho intenções de auto-ajuda, auto-demagogia ou auto-qualquer-outra-coisa. É só mais uma coleção de palavras.
Apesar da idéia da arte aparecer sempre que as frases vão formando literatura, minha vida de expressão tem o intuito é de desencantar. Desintoxicar. Arquivando e publicando minha busca pelo auto-conhecimento (Opa! Tem um auto-hífen aqui!) eu tenho algumas vantagens claras como a oportunidade de me reler mais de um ano depois e perceber como melhorei. Normalmente no momento em que escrevo penso que sei o que digo, e por isso mereço ser ouvido. Nem sempre isso aplica-se ao passado. Melhor agora, ainda melhor amanhã e essa é a função de envelhecer e amadurecer. Crescer, me tornar maior, chegar mais perto da grandiosidade.
No entanto a escolha das palavras é perigosa. Prefiro formar parágrafos aparentemente belos, contundentes, com termos fortes que chamem a atenção, como ‘destino’, ‘paradoxos’ e ‘verdade’, Só que isso tudo não funciona bem, tenho a impressão que os leitores deixam o texto para trás só com essa sensação, que tudo foi belo. E esse é o ponto em que minha literatura se emparelha com a minha vida, sinto que as pessoas passam por mim e levam apenas uma vaga lembrança superficial. Talvez de um rapaz inteligente, ou engraçado, vez por outra intrigante ou versado, fica tudo no ‘por isso mesmo’, e ano a ano tenho mais e mais esperança de quem alguém se interesse em ‘ler’ o Rafael um pouco mais a fundo, não só as duas primeiras paginas.
Senão, veja só. Se a vida não é arte, então o que é? Damos pinceladas, retoques de esmeril e paços largos de coreografia em todos os grandes momentos de nossas vidas na esperança que um deles seja suficientemente perfeito para mudar a visão de alguém. De marcar tantas memórias a ponto de ser um icone. Qual o elemento torna a vida, a evolução, interessante a todos nós se não a arte? Os gestos e idéias se unem e na percepção da arte... Não, não é isso. Estou me repetindo. Não tão repetitivo quanto expressões que leitores novatos não entenderiam, como “bolhas azuis”, “linha amarela” ou a responsabilidade pelo descongelamento. De propósito, a repetição é um dos melhores recursos para se escrever, testei isso recentemente. O problema reside na prática da repetição na vida cotidiana. O escritor repete-se, vai repetindo-se e repetindo sem preocupações, é a fixação do que é dito, da mensagem que se pretende passar. Na vida já basta nossa sádica memória para garantir essa etapa da estratégia. O autor repete-se sem piedade, e por acaso ou provavelmente por querer guia finalmente o leitor para onde queria. Esse é um risco que o tal destino representa para nós, a vida se repete ano após ano para te guiar até onde ela quer.
Resumimos-nos a isso? A personagens com roteiros definidos? Onde há aqui o traço de lápis? A oportunidade de redesenhar? Encontra-se na não repetição da vida, que é completa demais para lermos sempre as mesmas duas paginas.
Porem, entretanto, todavia, é aqui nessa conclusão de liberdade ‘paradoxal’ que encontramos o maior dos riscos da metáfora da vida igual à arte. Outra das melhores estratégias do destino, quero dizer do escritor, é levá-lo a pensar: ‘é óbvio! Estava na cara. Era exatamente isso que eu deveria fazer.’ Essa é a grande arte do escritor de se apagar de tal forma, que o leitor pensa estar descobrindo a ‘verdade’, controlando o ‘destino’ e decifrando o ‘paradoxo’. Para me ater aos termos fortes de uma escrita com o intuito de ser apenas bonita.
Vou sem pressa agora, eu falo da arte de viver. Não em uma simples pincelada para dar apenas mais uma impressão fugaz ao observador, mas com a consciência (e á presunção) de quem escreve o próprio destino a lápis, na medida do possível me explicando, essas palavras se encontram, se estranham ou se beijam, copulam, sim como se fosse um ato carnal e acontece a arte: nasce o filho. A imagem, o inusitado, o milagre, a epifania, a revelação, uma faísca, um relâmpago. Você se escreve, eu me escrevo, conhecemos a nós mesmos e descobrimos que podemos estremecer o mundo, ouvir a canção secreta que já nos acompanha desde o dia que nascemos, nos libertamos de nós mesmos inventados pelo homem e conhecemos o ‘eu’ original e potente. Você não chamaria esse processo de arte? Não acabamos de pensar e repensar na dominação do próprio destino? Quer maior liberdade que a arte? A de viver, ser ou fazer? O artista da própria vida não é um iluminado, um emissário do transcendental, mas um operário, um mágico da prestidigitação, especialista em enganar, em fingir. O artista é um fingidor, que engana o diretor da realidade e se permite improvisar.
Já admitimos o paradoxo, certo? Oras, a arte é uma iluminação. A estratégia da contra-estratégia da vida. A palavra se transfigura. O comportamento também o pode. A palavra torna-se imagem e nós também podemos transmitir esse sentido extra, essa percepção especial do mundo. Essa arte te faz viver livre, ano após ano, tira-lhe o sentido banal de duas paginas, te potencializa em um salto no escuro, para uma outra realidade, um teatro livre, onde o fingimento é o que te garante chegar a verdade. Onde sabemos que a verdade absoluta e a mentira perfeita não tem diferença. Toda arte é surrealista, transcende a realidade, o senso comum, a fé e a ciência. O verbo do destino guia o mundo no livro, o nosso nos liberta em poesia. O verbo do liberto, esse artista do fingimento que chega perto da verdade, recria a realidade enfadonha. Fazemos algo melhor que esse mundo do pão é pão e pedra e pedra, melhor mesmo que a realidade em que o pão deixa de pão e pedra deixa de ser pedra, estranho mais pode acontecer. O liberto refaz o mundo onde o pão é mais que o pão, da pedra que é mais do que a pedra. A palavra, do nosso lápis, não é o pão nem a pedra, é mais que isso: é absoluto. É liberdade.
A arte é a imagem que o destino cria e que cria o destino. Por que não chamar de vida esse processo, se o chamados de ‘verdade’?
Posto isso vou ao fato ainda mais grave. Onde está essa verdade? Em criar a liberdade, em iluminar, na revelação súbita de um dado do inconsciente, do real mais forte o real, o mais que perfeito, de um outro real feito de imaginação palpável, ou apenas, simplesmente, ver o obvio real-real? Não, a verdade está em dizer a mentira. A arte é um fingimento que mostra a verdade. Arte, vida, verdade e mentira são sinônimos. Mas teríamos de ser iluminados com muitos ‘wats’ para entender isso prontamente, logo, não vale a explicação. Só se fossemos cavalos que pastam o sonho ou comemos o capim da sabedoria absoluta. O difícil é para os comuns, os ainda cativos, afirmar que a arte é o que guia para o amadurecimento valido, que independe do tempo, que nos mostra que verdade e mentira são estados irmãos assim como bem e mal, são conceitos filosóficos que existem para simplificar o incompreensível para os comuns, a verdade é exatamente o que nos impede de vê-la. Logo, o que é a verdade? A emoção da liberdade deve ser autêntica, os dados que devem ser lançados ao acaso ou estruturados com o labor do artífice, esses dados, esses dados, como acabei de dizer, foram manipulados pelo destino (acaso) ou pelo artista. Sempre ache o destino um deus muito pobre, muito pouco deus, então fico com o artista, pobre, mas, enquanto artista, se não um deus criador, um bom manipulador. E essa é a verdade, a imagem criada pelo mundo, manipulada pelo artista e entendida pelo liberto, esse último que finge e engana para explicar a verdade aos que ainda estão presos.
Desencantar e desintoxicar a verdade do destino da arte. Perfeito, mais uma para a coleção.
Um novo ano, uma nova arte meio crash-boom-bang.
Vô te fala - O Layout táh incrível - o blog tbm!
ResponderExcluirSó tem um problema - tenta resumi mais os posts e coloca umas imagens neles,ok?
Fora isso o seu blog tá excelente!
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http://semtosquices.blogspot.com
texto interessante!
ResponderExcluirvc escreve muito bem!
abraço