27 de maio de 2008

Um pouco mais do palacio.

Voltar para o palácio da memória é sempre um momento de conflito interno. Somando a isso a pesada chuva e a noite densa, temos uma grande dose de melancolia mal explicada. Parado diante do portão dourado usando minha pesada capa negra que protege contra a chuva e arrastando a mala com novas bugigangas para os cômodos ‘palaciais’ eu olho para os vizinhos, tento imaginar se eles ainda estão acordados, existe uma vaga luz vinda de lá, talvez proveniente de uma vela.

Deve estar assando algo gostoso, tem um cheiro característico das coisas que ele faz, aquele cheiro bom que faz não importar o que seja. Deve ter alguma estripulia acontecendo também, talvez desentupindo algum cano ou tentando pegar um pássaro com arapuca, não importa na verdade, a sensação que vem de lá é sempre muito boa. Deve estar cansado, trabalhou muito em suas tarefas interioranas que fazem a cidade grande se sentir idiota.

O jornal sob meu braço esta encharcado, não vai dar para ler muita coisa e nem para ser banheiro de cachorro. Nem com toda minha criatividade consigo imaginar alguma coisa para fazer com ele, jogar fora é sempre uma boa opção.

Sinto fome e no palácio não tem pão. Nem dormido. Vou ter de dar perolas para os porcos comerem, ou jornal molhado, é uma dieta cultural por assim dizer.

Entrei portão e me senti em casa, mesmo que minha pseudo-sensitividade acuse que alguém desconhecido passou por aqui hoje, não deixou recados ou presentes, só a impressão de presença, será que foi visitar o visinho logo em seguida? Comeu dos bolos gostosos e me enche de inveja só de pensar...

Desde que o palácio não é mais decorado de vermelho e não têm mais manchas de sangue tudo parece meio primaveral. Dá um pouco de preguiça, mas tenho de lembrar de que é melhor assim. Acho que vou roubar uma galinha do vizinho para cozinhar-lhe em molho pardo só para ter uma lembrancinha do que era a vida outrora.

Quando passo pela porta principal e me deparo com o espelho perto da chapelaria e percebo minha semelhança com Jerry Lewis em início de carreira. Semelhança física e comportalmente. Meu vizinho já havia me dito isso, mas não acreditei antes de verificar e constatar que é verdade. Queria ganhar dinheiro igual a ele.

O mosaico perto da lareira esta quase pronto, ele é feito de forma que suas peças possam mudar de lugar sempre que necessário, é uma lembrança grande e importante com lugar de destaque, não consigo ficar muito tempo sem vê-la. Agora por exemplo vou tirar a capa e me sentar diante do fogo, observar por horas e horas o mosaico. Sentido aquele cheiro e me sentindo em casa.

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