31 de janeiro de 2010

Fé.

Fé, palavrinha mínima que todos adoram pensar que conhecem bem. Limitada na boca alheia para falar de religião, ou ainda menos esclarecida para limitá-la a uma única deidade controversa. Fé, perante toda nossa existência, deveria ter mais significado e nem tanta significância. Então, para não confundir, para não ser mínimo, vamos chamar o tema aqui de fé verdadeira. O que incomoda, por chamar a sua de falsa. Paciência. Não é o que todos fazemos ao assumir que só uma pode estar certa? A minha é boa, a sua é ruim. Nenhum argumento é digno de nota quando não há disposição em ouvir.
A fé verdadeira fica em algum lugar entre a vontade, as virtudes, os vícios e a razão. E por isso é bem difícil de achar. A verdadeira, claro. As comuns você tem aos montes por ai, e qualquer trocado compra. Fé verdadeira é o que separa o pensador dos autômatos da espécie biológica humana condicionados. Sem ela não se pode ir em direção alguma que alguém antes já não tenha ido. É daí que dizemos que a fé e cega, e ela é mesmo. A fé comum é cega, surda e muito estúpida. E não pense em motivação, sem chance, motivação é o que o cachorro tem quando vê um biscoito. A verdadeira fé não tem receita, nem livros de regras. Não pode ser ensinada e não é meramente conceitual a ponto de usarem expressões odiosas como “não se pode ver, nem tocar, muito menos se provar. Só se pode sentir!”, o que pra mim é a perfeita descrição de nada. Antes que diminuamos o todo em ‘eu tenho fé’, estado transitório de posse, deveríamos caminhar para o ponto de ‘eu sou fé’, quesito de condição. Eu sou a minha, e como eu ela é circunstancial e dinâmica.
E não me venha com o estimado ‘fé sem obra não significa nada’, essa quadrinha batida só não é mais hipócrita porque a frase é curta. As pessoas depositam sua errônea fé nas tais obras. Elas precisam de uma matéria para direcioná-la, de um nome, um lugar, uma história, um conceito, uma alucinação. Fé de verdade não tem nada a ver com isso. Ela é percepção, é entendimento, e pode ser aplica sobre quaisquer coisas. Preferencialmente as que não contradizem a razão, pois se não for aplicada no irreal com o intuito de dar-lhe dimensões e materializar como fato, é pura perda de tempo.
Ainda nas frases gastas temos de chegar, inevitavelmente, na fé move montanhas. A sim, a fé comum pode se sentar na frente da montanha e esperar pacientemente que ela saia de lá. E se sair, não vamos nos preocupar com os motivos que fizeram isso certo? Movimento tectônico, erosão de solo, essas coisas são bobagens idiotas, certo? A fé verdadeira entra com engenharia, com observação, compreensão e intervenção lógica. Nada de trazer água aqui e criar um deserto lá, é a fé verdadeira que nos mostras que a montanha é auxilio, é desafio agregador, não obstáculo desesperador. Use a fé como se deve, e não desperdice a inteligência alheia. ‘Ele perdeu a fé’, também é muito boa. Voltando um pouco no texto essa fica fácil, para se perder ela tem de ser estado, transitório. Condições não se perdem, podem até se atenuar ou fortalecer, mas sempre serão o que tem de ser. Você pode até transformá-la, dar-lhe outro nome, mas sempre estará lá, e nunca precisará procurá-la pois sempre terá certeza de onde está.
Por fim, um recado, se você é do tipo que diria ‘a fé é o que me levanta todas as manhãs ’, continue dormindo, para não gastar a sua reserva dessa coisa.

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