Existem certas frases do livro: O pequeno principe, de Antoine de Saint-Exupéry, que devem ser lembradas e estudadas.
Na ordem em que elas aparecem no livro, as que mais me chamam a atenção são:
“É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar.”.
Eis o ponto. Não é uma máxima enxuta e lógica, é subjetivo, fugaz. Ele não diz “só se deve exigir...” ele diz que é necessário. Não é o caso de esperar de alguém só o que o que ele pode ser, mas insistir que o potencial máximo daquele individuo seja trazido a tona. Não fala de conformismo, mas de superação!
“Tu julgarás a ti mesmo [...] É o mais difícil. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdadeiro sábio.”.
Ado-a-ado cada um no seu quadrado. Aqui não se fala meramente do auto-conhecimento, premissa básica de todo o texto. Mas da capacidade de olhar para os próprios pés antes de se intrometer na jornada do outro. A coerência e o talento social estão na capacidade de se reconhecer dentro dela, de saber se mover entre as fileiras e não o grosseiro ‘talento’ de perceber onde cada um vai, o que faz e o que diz. Na minha terra pessoas assim eram chamadas de mal-amadas.
“As pessoas grandes são muito esquisitas.”.
Essa não é simples. Eu mesmo não me decidi se fala sobre a inocência da infância e a complicação da vida adulta ou se trata da grandeza individual, da anciã pelos passos maiores que as pernas. Apesar de possível se traçar uma linha entre esses dois pontos, não se iluda aqui acreditando que se trata do enaltecimento da liberdade juvenil ou da humildade dos menores, fala-se apenas da incapacidade de um grupo compreender o outro.
“Os vaidosos só ouvem elogios.”.
Não preciso explicar essa, não é? Não é? Não... não estou te elogiando.
“A gente só conhece bem as coisas que cativou [...] Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!”.
A manutenção das amizades é uma coisa muito trabalhosa. Eu falo por mim, ao menos. Santos os meus amigos que me toleram em minhas imperfeições, que entendem minhas ausências e, no ápice da frase acima, me permitem conhecê-los. E claro, a recíproca aqui é peça chave, fundamental. E ela quem mede a amizade, a define e a impulsiona para ir além. Para quem tem um grande amigo, daqueles de verdade, sabe como nos tornamos capazes de conhecer, tolerar e entender ali coisas que não estamos dispostos a fazer, vez por outra, por nossos familiares ou romances. A amizade devidamente construída tem atributos próprios e existe uma linha que depois de cruzada nada consegue fazer regredir.
“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”.
Eu tenho cinco graus de miopia e você? Nessa aqui poderia ir muito longe. Muito mesmo. Uma viagem filosófica de primeira linha. Sobre a arte e o que ela, sobre os sentidos humanos e suas possíveis diferenças entre os indivíduos. Sobre a hermenêutica das percepções de a intuição propriamente dita. E muito mais... Muito mais, mesmo. E acho que é isso que aqui se diz, vá além do básico. Não satisfaça-se com a superfície. O melhor vem depois da imagem. “Imagem não é nada, cede é tudo. Beba Sprit”.
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”.
Essa é a mais famosa, com certeza. Em um debate, meu primeiro argumento seria: “E depois que o pequeno príncipe morre, o que será da rosa?” mas pode-se ir muito além disso. Aqui o dilema chave é se a responsabilidade é a sua para com seus próprios atos ou a capacidade de impor responsabilidades, esperá-las dos outros, cobrar o que não se deve ser cobrado. Inconscientemente temos o habito de impor sobre alguém a responsabilidade pelo que eles cativam em nós, e isso não é nada justo. É a cobrança do ‘amor’ ofertado, a incapacidade de aceitar que vez ou outra ele simplesmente se vai. O melhor é que sejamos capazes de responder pelo que ofertamos e saibamos compreender que ‘eternamente’ não exatamente para sempre.
“Nunca estamos contentes onde estamos.”.
Que bom, né? Imagine-se morando em uma caverna e caçando comida com um porrete!
“Só as crianças sabem o que procuram [...] Perdem tempo com uma boneca de pano, e a boneca se torna muito importante, e choram quando ela lhe és tomada...”.
Aqui é uma revisão de varias das passagens anteriores. Uma reafirmação das quadrinhas deixadas ao longo do livro. Volta a dúvida sobre a inocência, destaca a simplicidade, demonstra a capacidade de ir além do que os olhos vêem, e sintetiza a relação de cativar/ser cativado. Aqui, na minha leitura é o ápice da idéia, do tema, o clímax do que se é sentido na narrativa, tudo o que vem depois é conclusão. Daqui em diante só se mastiga o anterior para os mais lentos ao entender por si.
Toda a conversa com o Aviador que caiu no deserto trata de reafirmar o que até então foi dito. E com esse pensamento podemos destacar as passagem que ressumem o todo da abra até então:
“O que torna belo o deserto – disse o principezinho – é que ele esconde um poço em algum lugar.”
“Os homens [...] embarcam nos trens, mas já não sabem mais o que procuram. Então eles se agitam, sem saber pra onde ir. [...] E isso não leva a nada...”.
“A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...”.
“As pessoas vêem as estrelas de maneira diferente. Para aqueles que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para os sábios, elas são problemas. Para o empresário, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém nunca as teve... [...]
Quando olhares o céu de noite, eu estarei habitando uma delas, e de lá estarei rindo; então será, para ti, como se todas as estrelas rissem! Desta forma, tu, e somente tu, terás estrelas que sabem rir! [...] E quando estiveres consolado (a gente sempre se consola), tu ficarás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E às vezes abrirás tua janela apenas pelo simples prazer... E teus amigos ficarão espantados de ver-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: “Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!” E eles te julgarão louco. Será como uma peça que te prego... [...] Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrlas, montes de pequenos guizos que sabem rir.”.
Para mim, o livro deveria terminas na seguinte passagem, deixar um pouco de margem, um toque trágico:
“Mais eis que acontece uma coisa extraordinária. Na mordaça que desenhei, esqueci de juntar a correia de couro! Ele não poderá jamais prendê-la no carneiro. E então eu me pergunto: “O que terá acontecido no seu planeta? Talvez o carneiro tenha comido a flor...”
Às vezes penso: “Certamente que não! O principezinho guarda a sua flor todas as noites na redoma de vidro e vigia atentamente seu carneiro...” Então me sinto feliz. E todas as estrelas riem docemente.
Ou penso: “Às vezes a gente se distrai e isto basta! Uma noite ele esqueceu de colocar a redoma de vidro ou o carneiro saiu de mansinho, no meio da noite, sem que fosse notado...” E todos os guizos se transformaram em lágrimas!...”.
Assim a eternidade se prova nunca para sempre. Mesmo que longa em sua importância, finita sob o julgo do caos.
A qualquer momento o pequeno príncipe poderia se distrair. A qualquer momento o amor pela rosa poderia acabar. A qualquer momento pequeno príncipe poderia partir. E isso tornaria o momento fugaz de zelo ainda mais importante. Pois não se trata de um fato, uma condição, mas de um estado algo que requer a força motriz para existir e não simplesmente o conforto do estado natural do mundo.
O caos não finda, mas rearranja. Tudo se transforma, a eternidade existe, a essência das coisas são imutáveis. Não querendo ser dogmático,ainda bem que existe o caos para o recomeço. A faísca é única, que comece sempre o show.
ResponderExcluirTá, mas, afinal, ELE MORREU OU NÃO MORREU?
ResponderExcluirNo livro não é retratada a morte dele.
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